André Dusek/AE
André Dusek/AE

Gil e Caetano se reúnem para show em homenagem a Ulysses Guimarães

Encontro ficou maior que seu próprio propósito, o de homenagear a memória do deputado desaparecido

Julio Maria / BRASÍLIA,

17 Outubro 2012 | 16h38

A origem está nos pés. O baiano que usa chinelo de dedo toca como um sertanejo, mesmo quando seu violão fala difícil. Seu mundo é o abacateiro, Jackson do Pandeiro, Luiz Gonzaga e um trem que partiu de Bonsucesso há 40 anos. A seu lado está o baiano de sapatênis. Seu violão é mais contido, menos batucado, de harmonia de cordas presas e tocada de jeito clássico mesmo quando fala fácil. Observador do mundo no caminho contrário ao do parceiro, de fora para dentro, ele faz música urbana mesmo para o menino do rio, para o índio e para a poesia concreta das esquinas de São Paulo.

As extremidades de Gilberto Gil e Caetano Veloso estiveram lado a lado e se encontraram em um show que pode entrar para a galeria de seus grandes feitos. A reunião na noite de terça-feira, 17, em Brasília, ficou involuntariamente maior que seu próprio propósito, o de homenagear a memória do deputado Ulysses Guimarães, desaparecido há 20 anos em um acidente de helicóptero em Angra dos Reis.

Gil e Caetano em dueto, algo mais raro do que pode parecer (a última vez em que estiveram em uma turnê juntos foi para lançar o álbum Tropicália 2, em 1994), não produziram grandes versões para seus repertórios e fizeram um show que não será repetido. O formato voz e violão potencializou as qualidades de suas composições, emparelhou as diferenças de seus estilos, ampliou poesias e, por vezes, se aglutinaram fazendo surgir uma criatura só.

Não era intencional, mas música a música o dueto ganhava forma de duelo, com Gil mostrando Refazenda ou Super Homem - A Canção a Caetano como se houvesse acabado de criá-las. E Caetano sorrindo ao sentir Um Índio ou Terra receber uma segunda voz de improviso. Quando cantavam juntos, como na abertura de Desde Que o Samba É Samba ou em Panis et Circensis e Soy Loco por Ti, América, ganhavam um acompanhamento da plateia de 508 convidados, formada sobretudo por políticos, jornalistas e alguns artistas da Globo.

Cada um, cada um. Gil chegou duas horas antes para passar o som. Fez cara feia para o técnico que não conseguia tirar o timbre "envelopado" de seu instrumento e pediu que o volume dos graves fosse equilibrado com os agudos. Passou cinco ou seis canções até tudo estar acertado. "É isso o que me salva", disse. Quando indagado se sofria de uma espécie de perfeccionismo doentio, reagiu. "Não é isso, claro que não." Caetano, por sua vez, não passa som. Insone desde criança, dorme de madrugada e acorda por volta das 16 h. "Ele não precisa disso, é muito melhor do que eu", fala Gil.

Injustiças à parte, é inevitável não ver os dois em cena com seus 70 anos de idade sem balanceá-los em comparações.

O violão de Gil é percussivo e seus acordes ganham quase sempre cordas soltas, o que lhe permite criar outras sensações e encher mais as bases. Caetano investe na escola de João Gilberto, encaixando harmonias suaves de forma bem encadeada e justa. Quando criam as soluções para suas propostas, no entanto, é como se competissem entre si em busca do elemento surpresa ideal que fará o outro sorrir de prazer ao ouvi-lo pela primeira vez. Gil e Caetano, eles mesmos já disseram isso, compõem sempre pensando primeiro no que o outro vai dizer de seus insights.

A voz de Gil perdeu em volume e não chega aos agudos com a mesma facilidade de Caetano. Mas aí entra um outro recurso que ele tira da manga com maior facilidade do que o parceiro: o da improvisação. Quando sua voz desafina, Gil volta à nota desafinada para criar com ela uma frase de improviso propositalmente torta, como se cantasse jazz no terreiro de Gonzagão. Sagaz, acredita na máxima de que uma nota desafinada só é desafinada se for tocada uma vez. A insistência pode fazê-la se tornar apenas um som estranho.

Caetano canta muito e, ao contrário das experiências que Gil gosta de fazer, também adota uma postura mais clássica, brincando com a intensidade de volume que pede cada canção.

Gil e Caetano envelhecem compartilhando quase sempre de um mesmo discurso quando o assunto é política. Historicamente atuantes nos grandes debates, se colocaram de escanteio quando indagados sobre as recentes condenações dos nomes envolvidos com o Mensalão. Preferem não opinar sobre o assunto com maior convicção e dizem não sentirem o clima de ‘justiça sendo feita’.

 

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