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George Martin, o 'quinto Beatle' que não precisava do rótulo

Produtor e arranjador morreu na noite desta terça-feira, 8, mas deixou uma marca profunda história da música pop

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Pedro Antunes ,
O Estado de S. Paulo

09 Março 2016 | 20h49

Ao violão, Paul McCartney dedilhava acordes e cantava versos sobre o passado, sombras que o sobrevoavam e a despedida dela sem qualquer justificativa. A decisão entre os quatro Beatles, reunidos no EMI Studios, em Londres, era unânime. Paul deveria gravar a canção sozinho. Voz e violão. Seria uma obra prima, como boa parte do catálogo lançado pelo quarteto de Liverpool depois daquele disco, Help!, de 1965, com o início da fase mais experimental e psicodélica deles. O quinto Beatle negou a versão. Ou melhor, como fazem os mestres, sugeriu a chance de engrandecê-la. Entendeu, e argumentou, que um quarteto de cordas viria bem a calhar. “Somos uma banda de rock and roll, George”, contra-argumentou Macca. Concordaram em fazer as duas versões. E o mundo, quando conheceu Yesterday, uma das mais populares dos Beatles, a ouviu como imaginou George Henry Martin, o produtor, o professor, o psicólogo e, por que não, mentor de Paul, John Lennon, Ringo Starr e George Harrison. 

Ao ser encontrado morto durante o sono, na noite de terça-feira, 8, aos 90 anos, de causas ainda não reveladas, o londrino deixou o mundo com um Beatle a menos. Restam apenas Paul e Ringo, depois das mortes de John em 1980 e George em 2001, e agora do produtor. 

Era o quinto integrante de um quarteto, se é que isso é possível – no caso dos Beatles, era sim. Outros já dividiram o título de quinto integrante do grupo. O empresário Brian Epstein, morto em 1967, é um deles, ou Pete Best, baterista antes da chegada de Ringo Starr, que foi literalmente um Beatle entre 1960 e 1962. Nenhum deles, contudo, foi tão merecedor do título quando Martin. O próprio Paul McCartney, em um texto escrito em homenagem ao amigo morto, decretou: “Se alguém merece o título de quinto Beatle, é George. Desde o dia que ele nos ofereceu o primeiro contrato de gravação até o último dia que eu o vi, ele foi a pessoa mais generosa, inteligente e musical que eu já tive o prazer de conhecer.” 

Nascido em Highbury, em Londres, em janeiro de 1926, George Martin aprendeu a tocar piano desde cedo, aos 8 anos. Fez oito aulas, mas uma discussão entre a mãe dele e a professora encerraram as lições prematuramente. Depois disso, Martin foi autodidata, embora tenha estudado música em outras instituições. Ingressou na gravadora EMI em 1950, como assistente do diretor do selo Parlophone. Quando conheceu os Beatles, em 1962, já era um nome consagrado com bons discos de música erudita, embora pouca experiência bem sucedidas no universo do pop. 

No primeiro encontro com os Beatles, depois de duas reuniões com Epstein, Harrison fez graça com a gravata do produtor, pouco mais de uma década mais velho que o quarteto. E assim começou uma parceria c0m a banda que durou até 1969, com o disco Abbey Road – o último do grupo, Let It Be, do ano seguinte, foi produzido por Phil Spector. 

Mesmo que a obra de Martin com os Beatles tenha forjado a história da música como a conhecemos, o produtor ainda deixou sua assinatura em trabalhos com Elton John (Candle in the Wind, em parceria com Michael Jackson), America, Gerry & The Peacemakers, Cilla Black, Jeff Beck, Cheap Trick, UFO, além de guiar McCartney e Starr nos voos solo. 

Martin não gostou do som que ouviu dos Beatles pela primeira vez, em 1962, mas se encantou com as vozes de Macca e Lennon. Viu potencial ali. Foi ele o responsável por abrir a cabeça do quarteto ao experimentalismo da segunda metade da década de sucesso. Trouxe as referências certas, orquestrou, de maneira literal ou figurada, o avanço em direção à psicodelia. Mais do que tudo, Martin mostrou como o produtor não era uma persona figurativa ou técnica. Era preciso coração, e boas doses de psicologia, além de um bom direcionamento artístico. Os Beatles talvez não fossem os Beatles, não fosse por Martin tê-los acompanhado e os guiado. E, curiosamente, Martin sabia que a força dos quatro estava justamente na unidade deles. Naquilo que aqueles talentos unidos produziam. Ele, acima de todos, entendia os Beatles como um quarteto. E provavelmente não aceitaria o posto de quinto elemento ali. Mas que ele fez por merecer o cargo, isso ele fez. 

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