SERGIO CASTRO/ESTADÃO
SERGIO CASTRO/ESTADÃO

Gal Costa lança o disco 'Estratosférica'

Novo álbum da cantora é uma continuidade do ousado 'Recanto', de 2011, que cativou o público jovem

Lauro Lisboa Garcia, Especial para O Estado de S. Paulo

16 Maio 2015 | 03h00

Como a personagem de um poema de Maiakovski, que Gal Costa já cantou, quem a acompanha ansiava por um futuro que se desdobrou a partir do álbum e do show Recanto (2011), por iniciativa de Caetano Veloso. O jornalista e produtor Marcus Preto assumiu o volante e agora realiza seu terceiro projeto como diretor artístico da cantora, o álbum Estratosférica, com produção de Kassin e Moreno Veloso, que tem lançamento em três formatos (CD, vinil e MP3), com diferentes números de faixas e bônus, a partir do dia 26. Gal interpreta 15 canções inéditas, pinçadas entre mais de 150 que recebeu da geração que despontou na virada deste século, como Mallu Magalhães, Marcelo Camelo, Céu, Jonas Sá, Lira, Pupillo.

Autores que ela contemplou em outros discos, como o onipresente Caetano, Arnaldo Antunes, João Donato, Milton Nascimento, Junio Barreto e Moreno, assinam parcerias com compositores inéditos em sua voz, entre eles Criolo, Marisa Monte, Thalma de Freitas, Domenico Lancellotti, Zeca Veloso e Rogê. Lincoln Olivetti (1954-2015), nome-chave na sonoridade dos discos dos anos 1980, incluindo Gal, fez o último arranjo da carreira para a canção-título e também deixou para a cantora uma parceria inédita com Rogê. Tom Zé, de quem ela gravou a deliciosa Namorinho de Portão no início da carreira, mandou agora a erótica Por Baixo, um dos picos do disco. “Ele sempre foi libidinoso comigo”, diz a cantora.

Guilherme Arantes (autor de Vou Buscar Você Pra Mim, que não vai entrar no CD nem no LP) é outra novidade em seu repertório. “Há muito tempo, queria gravar uma música inédita dele. E ele escreveu no Facebook que estava esperando esse momento, que eu era a única que faltava e tal”, conta a cantora. Além dessa, Átimo de Som (Zé Miguel Wisnik/Arnaldo Antunes) também só vai estar disponível no iTunes, mas não agora: ambas foram reservadas para o período que antecede o Dia dos Pais.

Em fase de rejuvenescimento artístico e com gás para tocar projetos paralelos – os shows Espelho d’Água (acompanhada apenas do violão e da guitarra de Guilherme Monteiro) e Ela Disse-me Assim, com canções de Lupicinio Rodrigues, em versões arrojadas –, Gal celebra 50 anos de carreira sem nostalgia. O choque eletrônico do disco Recanto provocou estranhamento em antigos fãs, mas, quando o show decolou, o interesse do público jovem cresceu. Entre os músicos que tocam com ela em Estratosférica estão os dois produtores, além de Monteiro, Pupillo e André Lima, e participações dos veteranos Donato e Armando Marçal.

“Fiz esse disco com Marcus, que foi à cata de repertório, ouvimos muitas músicas, alguns compositores eu já conhecia. Basicamente o disco teria de ser direcionado para essa galera porque, quando Caetano idealizou Recanto, a garotada já estava ligada no meu trabalho, nos meus discos dos anos 1960. Recanto só fez reforçar isso e me deu frutos bons.” Foi Caetano quem deu “aquela cutucada boa na fera que estava encostadinha”.

Se na sonoridade, com pulso de rock e texturas eletrônicas, Estratosférica é um desdobramento de Recanto, todo com canções de Caetano, também traça paralelo com Hoje, de 2006, em que Gal gravou diversos compositores jovens e inéditos em sua voz, mas menos conhecidos, sem grande repercussão. “Kassin e Moreno criaram a sonoridade do disco. Só pedi a eles que não ficasse careta, que fosse arrojado, que tivesse ousadias, que fosse uma sequência de Recanto, mas de maneira mais palatável, porque o Recanto feito no estúdio, que eu amo, é muito fechado, hermético, denso, radical. Já no show e na versão ao vivo, as canções ficaram mais acessíveis.”

Entre o namorinho ingênuo de Mallu e a safadeza de Tom Zé, Gal interpreta letras contundentes, como a de Sem Medo Nem Esperança (Arthur Nogueira/Antonio Cícero), que abre o disco com força e parece remeter a O Amor (adaptação do poema de Maiakovski por Caetano), quando diz “Eu viveria tantas mortes e morreria tantas vidas e nunca mais me queixaria”.

A capa de Estratosférica, com foto de Bob Wolfenson em preto e branco, provocou críticas por ter a imagem de Gal, com aplique nos cabelos, excessivamente tratada. Houve também quem reclamasse da falta de renovação nos figurinos sóbrios de seus shows mais recentes. Ela nem se abala. Quando passou a usar brilhos e sapatos de salto alto em Gal Tropical (1979), muita gente também a criticou. “Se quiser, eu volto a fazer show cantando descalça, sem problema nenhum.”

A turnê de lançamento de Estratosférica ainda não tem data marcada. Ela Disse-Me Assim ainda terá mais duas sessões, em Brasília e no Pará, para gravação em CD ao vivo. Gal diz que não pensa ainda em investir numa biografia, porque não é o momento. No entanto, Marcus Preto pretende realizar um documentário sobre a fase da cantora entre 1968 e 1971, que coincide com o exílio de Caetano e Gilberto Gil em Londres. Foi isso, aliás, o que o fez se aproximar de Gal e outras boas ideias foram surgindo.

 

GAL COSTA - ESTRATOSFÉRICA (SONY MUSIC, R$ 24,90)

FAIXA A FAIXA

1. Sem Medo Nem Esperança (Arthur Nogueira e Antonio Cicero) – potente rock com letra existencial, arranjo de atmosfera tropicalista e destaque para o órgão a cargo de André Lima

2. Jabitacá (José Paes Lira, Junio Barreto e Bactéria) – balada amorosa e melancólica, que em outros tempos poderia ser candidata a sucesso radiofônico

3. Estratosférica (Céu, Pupillo e Junio Barreto) – uma das faixas mais suingadas do disco composta por uma paulista e dois pernambucanos, mas com clima de Bahia e arranjo de metais de Lincoln Olivetti, o mais encorpado do disco

4. Ecstasy (João Donato e Thalma de Freitas) – o estilo gingado de Donato salta ao primeiro toque de seu piano Rhodes, em melodia criada por Thalma sobre ideias harmônicas dele

5. Dez Anjos (Milton Nascimento e Criolo) – melodia densa, que remete a clássicos de Milton da década de 1970, com letra de Criolo sobre violência e perdas cotidianas

6. Espelho d'Água (Marcelo Camelo e Thiago Camelo) – bela balada dos irmãos, que Gal já vinha cantando com bom resultado no show de voz e violão que tem o título da canção

7. Quando Você Olha para Ela (Mallu Magalhães) – primeiro single e uma das boas surpresas do repertório, é uma canção romântica com balanço digno do Jorge Ben de “Que Pena”, gravada por Gal com Caetano em início de carreira. Deve ganhar remix de Silva

8. Por Baixo (Tom Zé) – uma das letras mais maliciosas de Tom, descreve um strip-tease dançante em cama eletrônica, pede um remix, mas como está já dá pra rodopiar nas pistas

9. Casca (Jonas Sá e Alberto Continentino) – outro rock com ares tropicalistas coloca merecidamente o carioca Jonas Sá na vitrine numa das facetas mais pop e criativas do álbum, com guitarra, cítara e programações eletrônicas

10. Muita Sorte (Lincoln Olivetti e Rogê) – outra música cujos autores não são baianos, mas que remete à terra de Dorival Caymmi, com ginga e letra característica de suas canções praieiras, mas carregada de efeitos eletrônicos

11. Amor, se Acalme (Arnaldo Antunes, Marisa Monte e Cezar Mendes) – três tribalistas reunidos em melodia suave e tema infantil, é uma das mais curtas e tranquilas, sem grande atrativo

12. Anuviar (Moreno Veloso e Domenico Lancellotti) – balada bluesy cheia de pausas, ganha peso e engrena na segunda parte em tom crescente, que lembra o estilo de Marcelo Jeneci

13. Você me Deu (Zeca Veloso e Caetano Veloso) – primeira parceria de Caetano com o filho do meio, só com piano, guitarra, teclados e programações, é um dos pontos fracos do disco

14. Ilusão à Toa (Johnny Alf) – única não inédita do álbum, a canção de 1961 foi regravada por encomenda para a novela Babilônia, e pouco acrescenta ao registro que Gal fez com o próprio autor em 1990

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