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Franz Ferdinand instaura mosh afetuoso no show em SP

Banda mescla hits dos dois primeiros discos com as canções novas em um show empolgante, uma gigantesca farra, na noite desta terça-feira, 30

Jotabê Medeiros, O Estado de S. Paulo

01 Outubro 2014 | 15h47

No finalzinho, o show que terminou à meia-noite e durou cerca de duas horas nos pareceu até curto demais. Ficaram ecoando ali na Barra Funda os versos de This Fire, a última música da noite desta terça-feira, 30, já à espera da oitava visita do Franz Ferdinand: “I’m going to burn this city/Burn this city/This fire is out of control”.

É o que acontece quando uma banda é tão bacana, e a gente se diverte tanto, que nem se lembra de pensar sobre o que está acontecendo. Esse poderia ser o resumo do show do Franz no Espaço das Américas. Não estava tão cheio, dançava-se sem problemas.

Fábrica de hits, o Franz Ferdinand conseguiu, sem forçar a barra, tornar sucessos planetários quase todas as músicas de seu último disco. Tocou 6 das 10 canções do álbum mais recente, Right Thoughts, Right Words, Right Action. Ao mesmo tempo, seus primeiros hits, como Walk Away, Take me Out e Do You Want To, que já têm mais de uma década, funcionam ainda como um relógio e soam absurdamente atuais.

Músicas como a ultradançante Can’t Stop Feeling fundiam-se com uma batida pré-sintética à Giorgio Moroder, um dance rock pop irresistível e invulgar. Esse foi mais ou menos o retrato da primeira parte da noitada.

Erdbeer Mund, cantada em alemão pelo guitarrista Nick McCarthy (guitarras, teclados e voz, cada vez mais parecido com uma versão cockney de Ian Curtis), parecia começar a instaurar uma segunda parte do show, mais caótica, mais próxima de convocar um gigantesco mosh afetuoso – é como se o Franz tivesse inventado essa coisa da explosão de alegria controlada, ninguém porrando ninguém, tudo na mais perfeita harmonia, tudo combinadinho. Muitos tentaram: Kaiser Chiefs, Zutons, Futureheads. Só o Franz permanece com essa pegada.

Jacqueline, que começa a capela, só um dedilhado de guitarra para a narrativa cronística na voz de Kapranos (e depois explode em punk rock), mostra que a batida da bateria de Paul Thomson é uma espécie de cama de gato do grupo (Nick e Alex conduzem os desafios de guitarras, e o baixista caladão Bob Hardy parece um peixe fora d’água ali do lado, mas desempenha).

Teve um momento em que o Alex Kapranos pediu para todo ficar sentadinho no chão e pular quando ele mandasse. Praticamente a ala VIP inteira sentou, e foi engraçado, parecia um piquenique indie sem toalha xadrez.

Uns painéis vermelhos no telão, seccionados por círculos negros, rodavam no espaço fumacento enquanto Kapranos cantava The Fallen. “I need a bit of Black and Blue to be in rotation”. Kapranos ainda bradou com orgulho antes de tocar Goodbye Lovers & Friends, que tem sido o novo hit mais destacado da turnê. Mas aqui no Brasil, Love Illumination fez mais efeito.

Tem uma energia adolescente clássica naquele rock de uniformes mal desenhados do Franz, retrô, parecendo saídos de uma fábrica de Farenheit 451. Saltos no ar com as pernas abertas como Chuck Berry. Teclados dedilhados com a displicência de um Bernard Sumner. Um baterista com uma queda pelo apelo de tap dancing punk do Gang of Four. Tocando pela sétima vez no País, a banda desencanada mais legal do Planeta pode vir todo ano. Ninguém vai chamar de arroz de festa.

É como se o Franz Ferdinand tivesse inventado alguma coisa muito íntima que só se realiza no show ao vivo. Fica depois suspensa como uma promessa de coisas agradáveis.

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