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Forte, novo disco recoloca os Titãs como um dos principais grupos do País

Julio Maria - O Estado de S. Paulo

21 Maio 2014 | 19h 11

Compactados em um quarteto, os Titãs parecem ir retirar suas forças da fonte onde tudo começou: a raiva

Mais do que falarem as coisas certas no momento oportuno, e da maneira felizmente menos sensata, a importância de Nheengatu não é apenas artística. Os Titãs derrubam aqui um preconceito que ganhava força a cada disco lançado por uma banda dos anos 80: a ideia de que a força do rock and roll contava com prazo de validade, de que ninguém com mais de 35 anos poderia fazê-lo como fazia aos 20. Compactados em um quarteto, com a bateria de peso de Mário Fabre, às vezes com mais peso do que as baquetas de Charles Gavin, os Titãs parecem ir retirar suas forças da fonte onde tudo começou: a raiva.

Fardado, que abre o disco, é de Sérgio Britto e Paulo Miklos, e pode ser chamada de Polícia dos anos 2010. É uma direta potente contra os abusos do poder estatal, sem um discurso novo, que os rappers não façam sempre e que a própria banda já não tenha feito antes. Mas Fardado justifica-se pela embalagem. Os riffs da guitarra, que voltarão o tempo todo, e as vozes raivosas soam com a ira de Cabeça Dinossauro. "Você também é explorado / fardado / Você também é explorado / aqui", diz o refrão. "Por que você não abaixa esse escudo / O meu direito é sua obrigação."

Mensageiro da Desgraça é sua conexão mais evidente com os dilemas de São Paulo. Antes do que diz a letra, de novo, a linha de guitarra, encorpada pelo teclado, vem como um tornado na frente. "Cansei da fome, do crack / Da miséria e da cachaça / Cansei de ser humilhado / Sou o mensageiro da desgraça." O homem desiste das soluções e se pinta para a batalha "com sujeira, piche e carvão". Anda pela Avenida São João "rumo à floresta" no Viaduto do Chá. Ele vê seus antepassados e está pronto para vingar seus irmãos, "os que são queimados enquanto dormem no chão". Vai vingar também as irmãs, as que "são estupradas na luz da manhã". Anda "contra os carros e aviões na Marginal, a esperança cega não o livrará do mal". É um personagem e tanto que faz algo que a música sugere, mas não conta.

A desesperança é a inspiração de novo em Cadáver sobre cadáver. A morte que leva tudo, "quem mereceu e quem não merecia". "Morre quem viveu bem e quem mal sobrevivia / Morre o homem sadio e o que fumava e bebia / Morre o crente e o ateu / um do outro companhia." E conclui que "morre o homem, morre Deus, o luto não alivia."

Os cães foram soltos, e o resultado disso parece ser a melhor verdade dos Titãs. As divisões de suas métricas são quebradas, nada óbvias. Suas melodias precisam ser ouvidas duas vezes, quando penetram para sempre.

A intolerância volta em Pedofilia, e começa assim: "Ele disse: ‘eu tenho um brinquedo, vem aqui, vou mostrar pra você / Ele disse, esse é o nosso segredo, e ninguém mais precisa saber." Quando o refrão chega, o pulmão do grupo parece sair junto com a letra. "Não sou eu mais em mim / não sou eu mais / Sou só nojo de mim / Só nojo, por dentro."

Se Fardado seria a nova Polícia, Senhor desempenha o papel de Igreja. Com outras palavras, voltam os desafios às convenções sagradas. "Senhor! Não me livre do pecado / Me livre da culpa / Senhor! Não me livre do perigo / me livre da multa / Senhor! Não me livre do inferno, me livre do tédio / Senhor! Não me livre da loucura / Me livre do remédio." A anti-oração que poderia incluir outro pedido: Senhor! Não os livre da revolta.