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Cultura

Filipinas

Filme 'Do Que Vem Antes' conta história das Filipinas durante a ditadura

Diretor Lav Diaz é famoso pela duração de seus filmes

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Luiz Zannin Orrichio,
O Estado de S.Paulo

01 Março 2016 | 20h24

Estamos nas Filipinas, numa aldeia à beira-mar. A vida transcorre à maneira dos ambientes remotos, externos à “civilização”. Os ritmos são ditados pela natureza, pelas chuvas, pelo mar, pela escassez. Há uma particularidade nesse povoado. Ele é rarefeito. Não se veem casas vizinhas. Cada qual tem a sua individualidade, as pessoas vivendo em família, isoladas em seus sítios. Há plantações de arroz, há a pesca, existem os curandeiros e figuras marcantes do povoado.

Entre elas, a do decano, o senhor Sito, viúvo. Há duas irmãs, de cotidiano trágico. Uma delas é deficiente mental e vive dando tapas em si mesma ou puxando os cabelos. A população acredita que ela tenha poderes de cura. Mas sua irmã, sadia, se sacrifica por ela. Há um fabricante de vinho, Tony, e um garoto cuja origem parece um tanto estranha. Do nada, surge uma vendedora de roupas, intrometida, que vai entrando na casa dos outros sem pedir licença.

O filme se chama Do Que Vem Antes e é do diretor filipino Lav Diaz, conhecido pela longa duração de suas obras. Tem filmes de onze horas. Esse é até “sintético”, para seus padrões – cinco horas e meia. Mas Diaz não gosta do anedótico associado a essa opção. Em entrevistas, diz que faz os filmes terem a duração necessária a cada um deles. A história se desenvolve e estabelece suas regras próprias, inclusive a de quanto deve durar.

De qualquer forma, trata-se de uma opção pelo tempo estendido, o que significa uma escolha estética. Por exemplo, Diaz trabalha muito com sequências em tempo real, sem cortes. O tempo cronológico da ação é aquele mesmo que se vê na tela, sem elipses. Quando o espectador se dá conta, está mergulhado naquele tempo. Naquele ritmo, naquele andamento pesado, como se atravessasse um mangue a pé, com água pelos joelhos. A realidade mostrada é opaca, difusa, sonolenta como uma doença tropical. Sente-se o calor, a chuva, o desânimo, a inação. Em preto e branco.

Estamos nesse vilarejo e também habitamos o tempo histórico. Começo dos anos 1970, sob o governo de Ferdinando Marcos. Usando de uma prerrogativa constitucional, ele decreta estado de sítio no país e pode governar como ditador. Mas só ouvimos falar em Marcos depois de decorridas mais de três horas de filme. Até aí, são os surdos conflitos internos dessa comunidade que nos ocupam. Há zonas de sombras nesses relacionamentos. E essa tensão contida, por vezes, explode em circunstâncias nem sempre compreensíveis. Algumas vacas aparecem mortas. Uma criança também morre e, num comovente velório, sua mãe entoa uma longa canção sobre o filho, louvando sua vida, lamentando sua morte. Alguns casebres aparecem incendiados. Um mistério que cerca o mundo rural, flagrado também, mas em chave mais cômica, por Bruno Dumont em O Pequeno Quinquin.

Contemplativo e político, Lav Diaz registra a rotina quebrada pela chegada de tropas do exército. Elas lá estacionam por motivos um tanto nebulosos, que não podem ser explicados aos moradores por razões de segurança. A população intui que aquilo se transformará num inferno, como diz um dos habitantes. Quando chega o exército, boa coisa não é, diz a sabedoria popular. Do Que Vem Antes é testemunho de uma tragédia social.

 

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