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Filarmônica de Berlim: polêmica sobre local das apresentações

Agencia Estado

24 Maio 2000 | 15h 18

Há 19 anos que Sabine Lovatelli, presidente do Mozarteum, sonha em trazer aquela que é considerada a melhor orquestra do mundo, a Filarmônica de Berlim. "O Herbert von Karajan não demonstrou muita vontade em 1981, quando o contatei", conta. Quando a orquestra finalmente chega, o óbvio é que fosse tocar naquela que está sendo considerada a melhor sala de concertos da América Latina, certo? Errado. Em vez da Sala São Paulo, foi levada ao Teatro Municipal, cuja vocação original é como teatro de ópera e não sala de concertos. Por quê? "A acústica da Sala ainda não está no ponto", diz Sabine Lovatelli. "Existem pequenos ajustes que são necessários, de volume, acústica e reverberação", pondera. Segundo Sabine, um dos pontos determinantes para sua decisão foi a opinião do maestro Lorin Maazel, da Filarmônica de Viena. Após se apresentar na Sala São Paulo, em agosto, o maestro apontou pequenos problemas a serem sanados na monumental sala. De acordo com a empresária, a opinião de Maazel teria sido uma das referências de Abbado e dos músicos da Filarmônica de Berlim ao escolherem o Municipal. Mas Cláudia Toni, administradora da Sala São Paulo, tem uma versão diferente para o caso. Ela diz que foi procurada por Sabine, que solicitou três datas em maio para a apresentação da orquestra. Ela crê que Sabine recuou quando soube que lhe cobrariam 20% da renda da bilheteria. "Preferiu o Municipal, porque lhe ofereceram de graça", diz Cláudia. "Mas não dá para ceder um teatro público que tem um custo de R$ 150 mil a R$ 180 mil por mês para uma apresentação que tem ingressos a R$ 280." A assessoria de Imprensa da Secretaria Municipal de Cultura informou que, apesar de ter cedido o Municipal de graça para o Mozarteum, houve contrapartida. A orquestra se comprometeu a fazer ensaios abertos a músicos - cada ensaio foi visto por 500 músicos. O Mozarteum cedeu 150 ingressos por apresentação para escolas de música e alunos da rede municipal de ensino. Músicos da orquestra também ministraram master classes (dez de instrumentos e dois de conjunto de câmara). A vinda da Filarmônica de Berlim foi bancada - cerca de 80% - por um patrocínio da Votorantim. O Mozarteum não informa o custo, mas a reportagem do estadao.com.br apurou que ficou em cerca de US$ 1,5 milhão. Em contrapartida pelo patrocínio, a Votorantim ganhou uma apresentação a portas fechadas do conjunto. O problema é que a empresa utiliza renúncia fiscal para dar o apoio, o que equivale a dizer que é o dinheiro público que está custeando sua apresentação fechada. Embora seja praxe, o procedimento é criticado. "Assim, todo empresário vai optar por bancar os holofotes de duas noites com a Filarmônica de Berlim do que uma orquestra brasileira", diz Cláudia Toni. Na Lei Rouanet, eventos de música erudita podem recorrer à renúncia fiscal (investimento que pode ser abatido no Imposto de Renda) e têm 100% de abatimento no imposto. A Sala São Paulo tem um extenso programa de concertos até o fim do ano. Em setembro, apresentam-se lá a Sinfônica de Praga e a Royal Philharmonic Orchestra, de Londres. Depois, vêm a Sinfônica de Chicago, em outubro, e a Orquestra Sinfônica da Rádio de Colônia, Alemanha, em novembro. Alheios às diferenças locais, um grupo de 20 músicos da filarmônica foi visitar anteontem a Sala São Paulo. Gostaram do local, que consideraram excepcional. E reclamaram que as cadeiras do Teatro Municipal fazem muito barulho. Depois, foram para a praia, que ninguém é de ferro. O maestro Claudio Abbado demonstrou satisfação com as apresentações da orquestra de Berlim no Brasil, segundo confidenciou a seus anfitriões. Mas teria reclamado que o público brasileiro é um tanto "irrequieto". A Sala São Paulo, inserida dentro de um projeto de recuperação do centro da cidade de São Paulo, consumiu R$ 44 milhões e sua manutenção (assim como a da Orquestra Sinfônica do Estado e a programação) custa R$ 18 milhões anuais ao Estado. Além do visual moderno, tem dois sistemas independentes e computadorizados de ar-condicionado - que têm a capacidade de jogar duas temperaturas diferentes, uma para a platéia e outra para o palco. Sob o piso, foi distribuído um produto chamado neoprene, que evita possíveis oscilações com a passagem dos trens, a apenas 100 metros dali. Os blocos de madeira no teto são móveis e se adaptam à acústica do local conforme o tipo de música que for executada. Um dos problemas da Sala São Paulo, apresentado por Sabine Lovatelli, é que dos 1.509 lugares do auditório, cerca de 300 estão atrás da orquestra. Isso seria mais uma vantagem para o Teatro Municipal. Mas Cláudia Toni rebate e diz que, do anfiteatro do Municipal, ninguém enxerga nada do que a orquestra faz no palco.

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