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Gabriela Biló|Estadão

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Febre na década de 1980, as fitas cassete voltam renovadas e ganham fábrica em São Paulo

Estúdio também vai oferecer um formato de masterização específico

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João Paulo Carvalho,
O Estado de S.Paulo

06 Março 2016 | 05h00

Renan Siqueira, 37, limpa com carinho sua coleção de fitas cassete. São mais de 100, segundo a última contagem feita por ele há mais ou menos duas semanas. No canto do brechó onde trabalha, na Galeria Nova Barão, no centro de São Paulo, o vendedor esconde algumas raridades, como uma demo da extinta banda de rock brasiliense Little Quail. Gravado no início dos anos 1990, o pequeno artefato é considerado uma relíquia. “Não tinha dinheiro para comprar vinil. Era muito caro. Eu pedia para meus amigos gravarem as coisas. Ficava horas ouvindo rádio com a fita já colocada e os dedos no botão ‘rec’. Foi um método alternativo e mais barato de consumir música”, diz. Empolgado, Renan exibe com orgulho o chiado de En BsAs, do Ratos de Porão. “Tá ouvindo isso aqui, cara? Essa é a graça da fita. Um som analógico e natural. Condiz muito com o gênero que gosto de ouvir, o punk rock. Só escuto música em vinil ou fita. Nada digital”, conclui.

A alguns quilômetros dali, na Rua Treze de Maio, no Bixiga, o estúdio FlapC4 se prepara para atender a demanda de fãs como Renan. Fernando Lauletta e Luis Lopes devem inaugurar até a metade deste ano a primeira fábrica de fitas cassete do Brasil. Os sócios adquiriram recentemente a copiadora de cassetes da empresa norte-americana Kaba Research & Development. A máquina é capaz de gravar 100 fitas por hora em altíssima qualidade. O estúdio também vai oferecer um formato de masterização específico para as fitas cassete. “Digamos que a gente tenha um conceito diferente. Somos apaixonados por coisas antigas. Todos os equipamentos daqui pertencem às décadas de 50, 60, 70 e 80. Conseguimos juntar uma coleção considerável, buscando relíquias esquecidas por outros estúdios que fecharam ou se modernizaram. A gente já chegou a mandar coisa para fora do País para ser restaurada. O duplicador de cassetes é o nosso novo projeto”, afirma Luis Lopes.

Apesar das fitas cassete ainda terem uma legião de adeptos pelo Brasil, os sócios, no entanto, não acreditam que este eixo possa ter a mesma evolução recente do mercado de vinil, que, entre abril e julho de 2016, terá uma nova fábrica inaugurada na Barra Funda, zona oeste da capital paulista. “Infelizmente, não vejo uma onda de crescimento tão grande como a do vinil. Não dá para competir. Todavia, enxergo um mercado com muitas possibilidades, já que o custo do bolachão ainda é muito alto para o fã. Às vezes, entretanto, ele só quer comprar um item exclusivo do seu artista favorito. O cassete cabe bem melhor no bolso”, ressalta Fernando Lauletta.

Com uma grande lista de espera de bandas que querem gravar no formato, Laulett não concorda que o cassete tenha uma qualidade baixa, se comparado ao vinil, o CD e outras mídias digitais. Para ele, cuidados específicos com a fita e um player de qualidade fazem toda a diferença na hora de reproduzir os famosos lado A e B. “Uma fita cassete bem gravada e conservada pode, sim, ser melhor que um CD. Um player muito bom como os Nakamichi (cassete player japonês de alta fidelidade) também ajuda. É senso comum dizer que a fita cassete está ultrapassada”, crava.

A origem. As fitas cassete surgiram em 1963, com a Philips, para que finalmente a reprodução de música pudesse ser portátil. A tecnologia em um corpo plástico surgiu como alternativa aos pesados discos de vinil, que até então dominavam o mercado. A fita permitia, em média, 30 minutos de música de cada lado. A qualidade do som, no entanto, não era das melhores e, caso o usuário quisesse ouvir novamente, deveria rebobiná-la.

O mecanismo, no entanto, facilitou o processo de gravação de músicas das rádios e permitiu que bandas de garagem pudessem registrar suas próprias composições. A tecnologia tornou-se popular na Europa e nos Estados Unidos apenas na década de 1980, com a criação do walkman. Na mesma época, a fita virou febre no Brasil.

Na década de 1990, no entanto, o dispositivo que facilitou a vida dos amantes de música e que fez com o que aparelhos de walkman virassem sonho de consumo foi caindo em desuso, com a chegada dos discos compactos. Inventados em 1979, os CDs conseguiam armazenar 700 MB de dados e permitiam mudar as faixas rapidamente. Além disso, o CD tinha maior vida útil, já que as fitas magnéticas eram facilmente corrompidas pelas altas temperaturas. Com a chegada dos computadores e do rápido avanço da internet, o MP3, formato de áudio digital comprimido, ganhou força, aniquilando qualquer perspectiva saudosista em relação à fita cassete.

Onde ouvir isso?

Uma breve pesquisa pela internet mostra alguns aparelhos portáteis, no estilo walkman, por valores que vão de R$ 25 a R$ 80. Um toca-fitas clássico chega a R$ 180. Mais ou menos o valor de um conversor USB/cassete.

Bandas nacionais e gringas aderem à 'moda vintage'

Embora as fitas cassete não sejam reconhecidas pela qualidade sonora, como é o caso do vinil, as imperfeições e os chiados acabam fazendo parte do ritual de audição. Justamente por isso, fora do cenário mainstream, várias bandas independentes optam por lançar seus trabalhos neste formato. Trata-se, portanto, de um modelo diferenciado para atrair os holofotes e se destacar dentro de um mercado já saturado.

Segundo Fernando Lauletta e Luis Lopes, sócios da nova fábrica de cassete em São Paulo, o custo para a gravação é mais acessível. Além disso, os grupos fogem do trivial e oferecerem aos fãs um som analógico menos camuflado. Gravadoras independentes como Beatwise Records e MAWW Records vêm apostando nas fitas cassete.

Os goianos do Boogarins, uma das revelações de 2015, lançaram o elogiado Manual ou Guia Livre de Dissolução dos Sonhos em CD, vinil, mp3 e, obviamente, em cassete. Edgard Scandurra, guitarrista do Ira!, e Silvia Tape fizeram o mesmo com o intimista Est no final do ano passado. 

Não é só no Brasil, entretanto, que as bandas aderiram à 'moda vintage'. Em 2015, o Metallica relançou sua demo tape No Life Til Leather, de 1982, apenas no formato cassete. As cópias, vendidas a US$ 50, se esgotaram em poucos minutos. O material incluía os sucessos Hit The Lights, Seek & Destroy e Jump In The Fire. As réplicas tiveram como base a fita original do baterista Lars Ulrich e tinha até os nomes das músicas escritas pelo próprio integrante do Metallica.

Para combater a pirataria e o vazamento de músicas na internet, a cantora Nelly Furtado lançou a canção Hadron, em parceria com Dev Hynes, apenas em 'fitinha'. Dave Grohl, MGMT e o duo She & Him também já haviam trilharam esse caminho.

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