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Febre na década de 1980, as fitas cassete voltam renovadas e ganham fábrica em São Paulo

- Atualizado: 06 Março 2016 | 05h 00

Estúdio também vai oferecer um formato de masterização específico

Renan Siqueira, 37, limpa com carinho sua coleção de fitas cassete. São mais de 100, segundo a última contagem feita por ele há mais ou menos duas semanas. No canto do brechó onde trabalha, na Galeria Nova Barão, no centro de São Paulo, o vendedor esconde algumas raridades, como uma demo da extinta banda de rock brasiliense Little Quail. Gravado no início dos anos 1990, o pequeno artefato é considerado uma relíquia. “Não tinha dinheiro para comprar vinil. Era muito caro. Eu pedia para meus amigos gravarem as coisas. Ficava horas ouvindo rádio com a fita já colocada e os dedos no botão ‘rec’. Foi um método alternativo e mais barato de consumir música”, diz. Empolgado, Renan exibe com orgulho o chiado de En BsAs, do Ratos de Porão. “Tá ouvindo isso aqui, cara? Essa é a graça da fita. Um som analógico e natural. Condiz muito com o gênero que gosto de ouvir, o punk rock. Só escuto música em vinil ou fita. Nada digital”, conclui.

A alguns quilômetros dali, na Rua Treze de Maio, no Bixiga, o estúdio FlapC4 se prepara para atender a demanda de fãs como Renan. Fernando Lauletta e Luis Lopes devem inaugurar até a metade deste ano a primeira fábrica de fitas cassete do Brasil. Os sócios adquiriram recentemente a copiadora de cassetes da empresa norte-americana Kaba Research & Development. A máquina é capaz de gravar 100 fitas por hora em altíssima qualidade. O estúdio também vai oferecer um formato de masterização específico para as fitas cassete. “Digamos que a gente tenha um conceito diferente. Somos apaixonados por coisas antigas. Todos os equipamentos daqui pertencem às décadas de 50, 60, 70 e 80. Conseguimos juntar uma coleção considerável, buscando relíquias esquecidas por outros estúdios que fecharam ou se modernizaram. A gente já chegou a mandar coisa para fora do País para ser restaurada. O duplicador de cassetes é o nosso novo projeto”, afirma Luis Lopes.

Passado. Colecionador Renan Siqueira mostra seu acervo com mais de 100 peças
Passado. Colecionador Renan Siqueira mostra seu acervo com mais de 100 peças

Apesar das fitas cassete ainda terem uma legião de adeptos pelo Brasil, os sócios, no entanto, não acreditam que este eixo possa ter a mesma evolução recente do mercado de vinil, que, entre abril e julho de 2016, terá uma nova fábrica inaugurada na Barra Funda, zona oeste da capital paulista. “Infelizmente, não vejo uma onda de crescimento tão grande como a do vinil. Não dá para competir. Todavia, enxergo um mercado com muitas possibilidades, já que o custo do bolachão ainda é muito alto para o fã. Às vezes, entretanto, ele só quer comprar um item exclusivo do seu artista favorito. O cassete cabe bem melhor no bolso”, ressalta Fernando Lauletta.

Com uma grande lista de espera de bandas que querem gravar no formato, Laulett não concorda que o cassete tenha uma qualidade baixa, se comparado ao vinil, o CD e outras mídias digitais. Para ele, cuidados específicos com a fita e um player de qualidade fazem toda a diferença na hora de reproduzir os famosos lado A e B. “Uma fita cassete bem gravada e conservada pode, sim, ser melhor que um CD. Um player muito bom como os Nakamichi (cassete player japonês de alta fidelidade) também ajuda. É senso comum dizer que a fita cassete está ultrapassada”, crava.

A origem. As fitas cassete surgiram em 1963, com a Philips, para que finalmente a reprodução de música pudesse ser portátil. A tecnologia em um corpo plástico surgiu como alternativa aos pesados discos de vinil, que até então dominavam o mercado. A fita permitia, em média, 30 minutos de música de cada lado. A qualidade do som, no entanto, não era das melhores e, caso o usuário quisesse ouvir novamente, deveria rebobiná-la.

Tape machine. Fernando e Luis farão 100 fitas por hora
Tape machine. Fernando e Luis farão 100 fitas por hora

O mecanismo, no entanto, facilitou o processo de gravação de músicas das rádios e permitiu que bandas de garagem pudessem registrar suas próprias composições. A tecnologia tornou-se popular na Europa e nos Estados Unidos apenas na década de 1980, com a criação do walkman. Na mesma época, a fita virou febre no Brasil.

Na década de 1990, no entanto, o dispositivo que facilitou a vida dos amantes de música e que fez com o que aparelhos de walkman virassem sonho de consumo foi caindo em desuso, com a chegada dos discos compactos. Inventados em 1979, os CDs conseguiam armazenar 700 MB de dados e permitiam mudar as faixas rapidamente. Além disso, o CD tinha maior vida útil, já que as fitas magnéticas eram facilmente corrompidas pelas altas temperaturas. Com a chegada dos computadores e do rápido avanço da internet, o MP3, formato de áudio digital comprimido, ganhou força, aniquilando qualquer perspectiva saudosista em relação à fita cassete.

Onde ouvir isso?

Uma breve pesquisa pela internet mostra alguns aparelhos portáteis, no estilo walkman, por valores que vão de R$ 25 a R$ 80. Um toca-fitas clássico chega a R$ 180. Mais ou menos o valor de um conversor USB/cassete.

Bandas nacionais e gringas aderem à 'moda vintage'

Embora as fitas cassete não sejam reconhecidas pela qualidade sonora, como é o caso do vinil, as imperfeições e os chiados acabam fazendo parte do ritual de audição. Justamente por isso, fora do cenário mainstream, várias bandas independentes optam por lançar seus trabalhos neste formato. Trata-se, portanto, de um modelo diferenciado para atrair os holofotes e se destacar dentro de um mercado já saturado.

Segundo Fernando Lauletta e Luis Lopes, sócios da nova fábrica de cassete em São Paulo, o custo para a gravação é mais acessível. Além disso, os grupos fogem do trivial e oferecerem aos fãs um som analógico menos camuflado. Gravadoras independentes como Beatwise Records e MAWW Records vêm apostando nas fitas cassete.

Os goianos do Boogarins, uma das revelações de 2015, lançaram o elogiado Manual ou Guia Livre de Dissolução dos Sonhos em CD, vinil, mp3 e, obviamente, em cassete. Edgard Scandurra, guitarrista do Ira!, e Silvia Tape fizeram o mesmo com o intimista Est no final do ano passado. 

Não é só no Brasil, entretanto, que as bandas aderiram à 'moda vintage'. Em 2015, o Metallica relançou sua demo tape No Life Til Leather, de 1982, apenas no formato cassete. As cópias, vendidas a US$ 50, se esgotaram em poucos minutos. O material incluía os sucessos Hit The Lights, Seek & Destroy e Jump In The Fire. As réplicas tiveram como base a fita original do baterista Lars Ulrich e tinha até os nomes das músicas escritas pelo próprio integrante do Metallica.

Para combater a pirataria e o vazamento de músicas na internet, a cantora Nelly Furtado lançou a canção Hadron, em parceria com Dev Hynes, apenas em 'fitinha'. Dave Grohl, MGMT e o duo She & Him também já haviam trilharam esse caminho.

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