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Entrevista. Fatboy Slim

Artista, que volta ao País para shows, lança o disco 'Bem Brasil'

Fatboy Slim faz homenagem à música brasileira

Pedro Caiado - ESPECIAL PARA O ESTADO

17 Junho 2014 | 02h 00

LONDRES - Norman Cook, ou Fatboy Slim como é conhecido, é o DJ internacional que mais caiu no gosto do público brasileiro nos últimos 15 anos. Desde que realizou sua festa na Praia do Flamengo, com público recorde de 360 mil pessoas em 2004, ele carimba o passaporte ao menos três vezes por ano no País, se apresentando em todos os lugares: do Big Brother até o carnaval de Salvador.

Hoje, aos 50 anos, ele confessa que a vida é muito mais fácil "quando você não trabalha bêbado e não faz festa por dois dias seguidos". Talvez como agradecimento, seu novo disco homenageia o País. Bem Brasil é dividido em dois álbuns.

Clássicos da MPB como O Cavaleiro e os Moinhos, de Elis Regina, ou Toda Menina Baiana, de Gilberto Gil, ou Taj Mahal, de Jorge Ben Jor, estão no álbum mixados por Fatboy e seus colegas. Para mostrar a sua paixão, ele refez um de seus grandes sucessos: Weapon of Choice, em uma versão Olodum.

Em entrevista em Londres, antes de seguir para o Brasil, onde fará uma série de shows, ele confessa que se sente mais famoso no País do que na Inglaterra e concorda com as manifestações contra a Copa, "se não houver violência".

A música-tema da Copa no Brasil este ano é apresentada por Jennifer Lopez e Pitbull, além de Cláudia Leitte. Qual é a sua opinião?

Acho que essa música é algo corporativo, que nada tem a ver com o Brasil. Encorajo os brasileiros a desligar a TV durante os intervalos dos jogos e ouvir a música nacional. Não quero atacar a Fifa. Eu também sou gringo, como eles, mas acho que o Brasil merece algo melhor.

É verdade que você é mais famoso no Brasil do que na Inglaterra?

Sim. Sou mais reconhecido no Brasil. Mas é bom poder andar nas ruas na Inglaterra e não ser incomodado. No Brasil, é mais difícil. O problema é que não falo português.

A que você atribui a fama que tem no Brasil?

Começou com o show na Praia do Flamengo, que atraiu mais de 300 mil pessoas e foi transmitido pela TV. Acho que fiquei famoso em uma época que havia uma cultura de DJs superestrelas. Não sei por que, mas o Brasil me adotou. Deve ser por que gostamos das mesmas piadas e dos mesmos ritmos. A música brasileira é a trilha sonora da celebração. Os brasileiros usam música para celebrar em vez de protestar. E minha música é feita para sorrir e celebrar.

Em seu novo álbum há clássicos da MPB, mas não há novos artistas e gêneros.

Alguns gêneros não iriam ter apelo para o grande público, como o funk. A gravadora me deu carta branca para misturar os ritmos que eu quisesse, mas eles queriam que tivessem apelo no restante do mundo.

Vivi uma era de ouro da indústria fonográfica
Como foi o processo de criação de Bem Brasil?

Começamos em agosto e terminamos há três semanas. Comecei anotando em um quadro as músicas e os DJs que queria no projeto. Mandei cinco delas para cada DJ. A parte mais complicada foi ir atrás de um monte de DJs bêbados ao redor do mundo. Além de resolver a parte burocrática dos direitos das músicas no Brasil.

Você tem contato com artistas brasileiros?

Não. Minha ligação com a música brasileira vem desde jovem, ouvindo e acompanhando. Meus pais adoravam bossa nova e samba nos anos 60, então cresci ouvindo esse ritmo. Eu fui apresentado ao Gilberto Gil e Caetano Veloso, mas há a barreira da língua, pois não consigo conversar em português. Eu adoro o Seu Jorge. Eu o conheci no encerramento da Olimpíada em 2012 e comentei que faria este álbum, mas ele já estava comprometido com outro projeto.

Divulgação
Álbum. Com "Bem Brasil", DJ agradece admiração de brasileiros

Você passou por reabilitação e deixou o álcool em 2009. Como se sente?

Não conseguiria terminar um projeto como Bem Brasil naquela época. Só fazia shows bêbado e não me lembrava de nada no dia seguinte. Hoje, eu me lembro e no dia seguinte me sinto excelente. Acho que sou melhor DJ hoje. Não sinto falta, pois a minha onda vem da energia do público. Não vou pregar aqui que todos os DJs devam fazer o mesmo, mas a partir de uma certa idade, não é mais tão divertido e o corpo reclama.

Ainda é possível ganhar dinheiro com música?

É muito difícil, pois não se vende mais disco. Você tem que fazer conexões para que sua música apareça em filmes e propagandas, além de tocar ao vivo. Então, para mim, não é problema, pois a experiência de curtir um show e dançar é algo que a internet nunca vai substituir. Não se pode fazer download disso. Você tem que comprar ingressos para os shows.

O que você acha de serviços como Spotify?

Como consumidor e DJ, esses serviços não me satisfazem. Faço questão de ter a cópia de boa qualidade em vez de apenas um MP3. Esses serviços são como uma estação de rádio. E se você viaja bastante, como no meu caso, sempre dependerá da internet. Você fica limitado. Quando eu era mais jovem, fãs tinham orgulho de me dizer: "Tenho todos os seus álbuns". E hoje: "Tenho acesso aos seus álbuns quando estou online".

A indústria fonográfica mudou nos últimos anos. Acha mais difícil para novos artistas hoje?

Com certeza, pois as gravadoras não têm dinheiro para investir e esperar resultado. Elas querem resultado imediato. Por outro lado, quando eu comecei, era difícil conseguir uma chance. Você mandava uma demo para as gravadoras e nunca tinha retorno. Hoje, se você fizer algo muito bom, em 24 horas é possível se tornar um sucesso na internet. Eu, certamente, não conseguiria alcançar o sucesso que tenho com este novo formato, pois sou da velha escola. Ninguém iria curtir meu Facebook se dependesse de mim. Vivi uma era de ouro da indústria fonográfica - os artistas eram reconhecidos e muito bem remunerados pelo seu trabalho. É tudo muito novo hoje e estamos tentando entender como será o futuro da indústria.

Qual o tamanho da sua coleção de álbuns?

Vinil eu tenho 10 mil, mas hoje está tudo no laptop (ele mostra o iTunes). São 76 gigas de música.

Como foi o processo de criação de Bem Brasil? Começamos em agosto e terminamos há três semanas. Comecei anotando em um quadro as músicas e os DJs que queria no projeto. Mandei cinco delas para cada DJ. A parte mais complicada foi ir atrás de um monte de DJs bêbados ao redor do mundo. Além de resolver a parte burocrática dos direitos das músicas no Brasil. Você tem contato com artistas brasileiros? Não. Minha ligação com a música brasileira vem desde jovem, ouvindo e acompanhando. Meus pais adoravam bossa nova e samba nos anos 60, então cresci ouvindo esse ritmo. Eu fui apresentado ao Gilberto Gil e Caetano Veloso, mas há a barreira da língua, pois não consigo conversar em português. Eu adoro o Seu Jorge. Eu o conheci no encerramento da Olimpíada em 2012 e comentei que faria este álbum, mas ele já estava comprometido com outro projeto.

O que você acha das manifestações contra a Copa?

Acho que os trabalhadores da área de transporte, professores e outros têm um bom argumento. E esse é o melhor momento para demonstrar a insatisfação. Contanto que seja sem violência, não sou contra. É bom os estrangeiros verem as disparidades do Brasil.

O que mais gosta no País?

Das pessoas. O Brasil é legal, assim como a comida e o tempo ensolarado, mas são as pessoas que fazem esse país ser excelente. Meu lugar preferido é Santa Tereza, no Rio.

FATBOY SLIM

Estádio do Morumbi. Praça Roberto Gomes Pedrosa, nº 1, Morumbi. Inform.: 2027-0777. 3ª, a partir das 13 h. R$ 100/ R$ 1.000