Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Ex-The Voice, Ayrton Montarroyos lança o primeiro disco

Trabalho em que o pernambucano se afirma como intérprete é lançado em show no Teatro Itália

Renato Vieira, O Estado de S. Paulo

08 Agosto 2017 | 06h00

Enquanto os concorrentes de Ayrton Montarroyos na edição de 2015 do The Voice, atração da TV Globo, se colocavam em frente às câmeras para mostrar agudos em malabarismos vocais, ele preferiu usar sua voz em tons graves, por vezes contida, a serviço de grandes clássicos da música brasileira. O cantor, hoje com 22 anos, afirma que sua vontade era “corromper o programa”, pensando que não venceria a competição. Mas não tinha ideia de que chegaria tão longe como vice-campeão por ampla votação dos espectadores. Para o pernambucano, era um sinal de que o público queria ouvir algo diferente do que rádios e televisões tocam insistentemente. E que era possível ser intérprete em um país tão carente deles.

Já radicado em São Paulo, Ayrton conseguiu o patrocínio de uma empresa de gás e fez seu primeiro disco, homônimo, lançado em abril. O resultado poderá ser visto ao vivo nesta 3ª (8), em show no Teatro Itália. Em vez de investir em um repertório com músicas que cantou no programa, Ayrton mesclou autores contemporâneos com sagazes regravações. “No programa, minha proposta era dizer ‘vocês estão lembrando disso’? No meio de todo aquele barulho, eu era o silêncio. Assumi o papel de resgatar músicas importantes sabendo que aquilo daria certo. Mas, para um disco, precisava mudar. Faço barulho, posso botar guitarra e efeito no meu som. Meu projeto sou eu.”

Dizer que quer fazer de si mesmo seu projeto é uma forma de ir além do estigma que o acompanhou até então. Neto de uma funcionária da lendária gravadora pernambucana Rozenblit, prima distante do célebre trompetista Márcio Montarroyos, Ayrton diz querer ser mais do que “o menino que canta músicas de velho e imita Cauby Peixoto”. Sua impressionante imitação do intérprete de Conceição, uma de suas grandes influências, fazia sucesso nas rodas artísticas do Recife e o levou, inicialmente, ao Encontro Com Fátima Bernardes, uma ponte para o The Voice. Já no programa, ele começou a pesquisar músicas que tinham a ver com seu momento e de lá saiu com as canções escolhidas. O diálogo entre as 11 faixas faz desse debute um disco conceitual, tendo a paixão e suas fases de explosão e calmaria como pano de fundo.

Por sugestão do produtor Thiago Marques Luiz, com quem já havia trabalhado em projetos especiais, o cantor fez um disco à moda dos anos 1970, com sete arranjadores distintos, Arthur Verocai, Diogo Strausz, Rovilson Pascoal, Vinicius Sarmento, Vitor Araújo, Yuri Queiroga e Zé Manoel. Lamentavelmente, eles e os músicos não foram creditados no encarte por um erro gráfico. O consagrado Verocai escreveu as cordas de Alto Lá. Ayrton, ao prestar atenção na letra que fala sobre orgia e mundo proibido, viu que o samba de Zeca Pagodinho poderia se tornar um tango, ideia considerada por ele mesmo, responsável pelo arranjo de base, perigosa. Não Me Arrependo, lançada por Caetano Veloso em (2006), é revista em uma interpretação intensa e comovente, tendo como base o piano nervoso de Araújo. Para essa faixa, Ayrton gravou 30 vozes, não gostou de nenhuma, e no final ficou valendo a voz guia, sugestão de Rovilson, também diretor musical.

Os conterrâneos de Ayrton têm presença significativa no álbum. Canções como E Então, gravada pela Academia da Berlinda e escolhida como seu primeiro single, Tudo Em Volta De Mim Vira um Vão, de Graxa, e Vamos Ficar Sol, parceria de Tibério Azul com Ângelo Mongiovi, representam a boa safra autoral de compositores contemporâneos de Pernambuco. O veterano Lula Queiroga comparece com Portão, uma escolha curiosa. A música foi tema de uma campanha de adoção do canal a cabo GNT. O cantor ouviu na televisão, gostou e descobriu que era de Lula. Alguns trechos foram suprimidos com autorização do compositor, fazendo dessa uma canção de amor em qualquer nível. Zé Manoel, um dos vencedores do Prêmio da Música Brasileira deste ano, emplacou Tu Não Sabias, bolero que ganhou programações eletrônicas de Strausz.

Mesmo com um repertório contemporâneo e arranjos ousados, a presença de Cauby Peixoto mostrou-se inevitável. Thiago, que produziu dez álbuns do intérprete morto no ano passado, descobriu em seu e-mail uma inédita que Zeca Baleiro fez para ele, À Porta do Edifício. “Foi uma bela coincidência, porque eu queria uma música que falasse do amante grudento que espera na porta. No estúdio, quis cantar com as palavras cheias, como Cauby faria, e pedi esse arranjo puxado para a seresta, que me lembra Recife.” Que Sejas Bem Feliz, de Cartola, e Diariamente, de Paulo César Gyrão e Gerson, foram gravadas respectivamente por Clara Nunes e Alaíde Costa e reforçam a importância do canto feminino em sua vida. 

“Acredito que pesquisando e sendo coerente com um repertório, montando uma história, dialogando e até mesmo negando o que fiz, consegui colocar nesse disco a visão que tenho hoje do amor. É desse jeito que eu me sinto agora. Pode ser que eu queira fazer outra coisa depois. Mas, no fundo, eu sou um cantor brega, e gosto de ser”, diz ele, convicto. 

AYRTON MONTARROYOS. Teatro Itália. Av. Ipiranga, 344, República, 2122-2474. 3ª (8), às 21h. Ingressos: R$ 40. www.compreingressos.com

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