GABRIELA BILO / ESTADAO
GABRIELA BILO / ESTADAO

'Estadão' escolhe, monta os grupos e leva para o palco talentos da nova música instrumental

Projeto Gig Nova, idealizado e com curadoria do jornalista Julio Maria, identifica e mostra nesta quinta-feira, 18, na casa Tupi or not Tupi, representantes de uma das gerações mais prósperas de São Paulo

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

16 Maio 2017 | 06h03

Um comentário por e-mail do jornalista e pesquisador Zuza Homem de Mello com o repórter acendeu a faísca. Ao falar sobre a qualidade artística de hoje no País, ele dizia que nenhuma outra área havia revelado forças tão poderosas quanto a música instrumental brasileira. Sua constatação é reforçada sobretudo por trabalhos de excelência lançados por músicos jovens ou ainda pouco conhecidos em um fluxo sem precedentes. Álbuns e projetos autorais ou de intérpretes que reforçam uma nova estatura da produção musical popular instrumental pelas mãos de guitarristas, sanfoneiros, contrabaixistas, pianistas, bateristas, violinistas, saxofonistas, trompetistas, percussionistas, vibrafonistas, flautistas, violonistas, bandolinistas.

São Paulo abriga o centro dessa nova produção. A noite, com uma música criada muitas vezes diante da própria plateia para nunca mais se repetir naquela mesma forma, se dá em casas como Jazz B, Jazz nos Fundos, Bourbon Street, Sampa Jazz, Ao Vivo, Teatro Commune, The Orleans, Tonton Jazz Bar, Casa de Francisca, All of Jazz, Madeleine, as novas Casa Natura e Tupi or not Tupi e em unidades e projetos do Sesc São Paulo. É mais do que se tinha há dez anos, mas ainda é pouco. “Ser músico no Brasil ainda é uma dificuldade, faltam lugares. A boa notícia é que, diferentemente de outros ramos, o Brasil tem uma música instrumental que vai muito bem”, diz o pianista Hércules Gomes, 34 anos.

A reportagem decidiu levantar uma amostragem desse universo com uma pauta de jornal que foi um pouco além. Depois de selecionar alguns dos melhores jovens músicos em ação por palcos e estúdios da cidade, criou uma noite para que o leitor pudesse vê-los reunidos, misturados e no exercício pleno da criação em tempo real, o improviso, algo que caracteriza a nobreza de expressões como o jazz, o choro e o instrumental brasileiro. Os instrumentistas foram retirados de suas turmas e embaralhados em quatro grupos, que o meio chama de gig ou jam session. Muitos tocarão com seus parceiros pela primeira vez, para reforçar a ideia do “susto do improviso” da qual Hermeto Pascoal tanto alerta. “Improviso só existe quando não é pré-fabricado, quando o outro não faz ideia do que seu par vai fazer”, diz o “bruxo”. A pauta que virou projeto ganhou o nome de Gig Nova e os 17 músicos escolhidos vão se apresentar sucessivamente em quatro grupos na quinta, 18, na casa Tupi or Not Tupi, da Vila Madalena.

A escolha não delimita os melhores em atividade, uma missão impossível, mas faz um sobrevoo por nomes de expressão importantes na música livre. Identificá-los requer um trabalho de campo – garimpando-os em shows para sentir suas energias no palco, mais do que suas técnicas – e de gabinete –, buscando material em álbuns e pela internet. A fotografia que se vê acima revela histórias de homens e mulheres de realidades sociais, econômicas e culturais das mais diferentes, todos transformados em algum momento por um arrebatamento incondicional e presos a um sentimento de eternidade provocado por um solo arrebatador.

O saxofonista Cássio Ferreira, 31 anos, foi visto primeiro ao lado do músico Proveta no Teatro Commune, na Rua da Consolação. Ele tocava com a Banda Mantiqueira naquela noite, colocando a alma em cada nota. Seu sax é ágil, de fraseados limpos e um senso rítmico intenso, trazendo um passado que parecia de mil anos. E era.

Cássio tem a história dos jovens músicos, sobretudo adeptos de instrumentos de sopro, revelados por igrejas evangélicas de São Paulo que irão ocupar postos em importantes orquestras, big bands e bandas sinfônicas. Sua entrada na música foi assim, em um conjunto de louvor da denominação Assembleia de Deus. Ele não conhecia jazz ou qualquer expressão do mundo pagão até o dia em que ligou o radinho de pilha em um programa da Rádio Cultura FM chamado Linha Imaginária, que fazia um passeio pelo jazz à bordo de grandes mestres. Sua conversão se daria por toda a madrugada. “Aquilo me arrebatou de uma forma incrível. Fiquei das 23h de sábado às 6h de domingo sem poder parar de ouvir jazz.”

Jackie Cunha, 24 anos, é uma percussionista descoberta pelo jornal em uma apresentação no Sesc Pompeia, no projeto Canções da Liberdade – Música e Poema de Protesto, idealizado pela cantora Luciana Oliveira. Sua pegada era sutil, mas certeira, criando climas e reforçando o suingue de uma banda cheia e bem armada. Aos 12 anos, Jackie já era conhecida na quadra da Escola de Samba Vai-Vai. Sua euforia pelo ritmo fez a mãe manicure – o pai ela não conheceu – inscrevê-la no projeto social Meninos do Morumbi. E dali vieram os palcos. “Eu nem sei o que faria se não tivesse música na vida. É a forma mais pura que podemos ter para nos expressar.”

As mulheres ainda são menos frequentes nas frentes instrumentais. Há um crescimento visível entre baixistas, guitarristas e bateristas, mas os homens predominam. “Sinto que os rapazes têm uma camaradagem entre eles que não se vê com mulheres. Ser mulher ainda é difícil nesse meio. Ouço pessoas dizerem: ‘Nossa, mas você toca mesmo! Esse ‘mesmo’ é que é o problema”, fala Luciana Romanholi, 35 anos, guitarrista de São Bernardo do Campo que vive do que ganha desde os 15 anos. Ela conta que o rock tem maior histórico com guitarristas mulheres, mas o meio instrumental ainda vive o tabu. Sua escolha para o projeto se deu pela fluidez de uma linguagem delicada e precisa, aprendida com álbuns de guitarristas como Pat Metheny e Heraldo do Monte.

* Veja especial multimídia sobre o projeto Gig Nova

Músicos filhos de músicos ou de famílias musicais são, naturalmente, o perfil mais reprisado. Sérgio Machado, 35 anos, sentiu em casa o assombro de uma bateria em ação ao ver Lilian Carmona ensaiando com o pai, o compositor e violonista Filó Machado. Criou-se ao som de Miles Davis e do baterista Billy Cobham e tomou rumo próprio. Seu primeiro disco autoral, Plim, conversa com sensações muitas vezes experimentais, sem a harmonia visível que Filó tanto preza. O violino de Ricardo Herz, a guitarra de Lupa Santiago, a sanfona de Mestrinho, o piano de Leandro Cabral, o bandolim de Fábio Peron, o trompete de Sidmar Vieira, os baixos de Zéli, Fi Maróstica e Vanessa Ferreira e as baterias de Alex Buck e de Edu Ribeiro, todos voaram para suas mãos em lares de muitos sons e histórias particulares.

O piano de Hércules Gomes chegou cambaleante. O pai violonista o queria um seguidor e ele bem que tentou, até o dia em que um amigo da família esqueceu um teclado em sua casa. Aos 14 anos, entendeu o sentido da organização daquelas teclas brancas e pretas e começou a tirar música de ouvido, fazendo isso até os 16 anos. Sua técnica, hoje, impressiona, de agilidade e suavidade a serviço de um repertório influenciado sobretudo por pianistas brasileiros.

O sanfoneiro Mestrinho, 29 anos, tem a doçura nos fraseados, a esperteza nos improvisos e a lição maior aprendida com Dominguinhos, o homem que um dia o nomeou um sucessor. “Eu nunca toco para impressionar alguém. O que sai, só sai com verdade.”

GIG NOVA - ESTADÃO

Tupi or Not Tupi. Rua Fidalga, 360. V. Madalena.

Tel. 3813-7404. 5ª (18), às 21h. R$ 35.  

tupiornottupi.net

 

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