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Em casa com Elis

Projeto leva turistas para uma tarde de MPB na mansão que foi de Elis Regina

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Julio Maria ,
Rio - O Estado de S.Paulo

10 Março 2014 | 02h08

As angústias menos previsíveis e os sonhos mais lindos de Elis Regina viveram ali, em um retiro da Avenida Niemeyer, logo depois do portão de madeira aberto para uma vila de casas que escalam a encosta da serra e ficam de face para o Atlântico. Quando subiu seus três andares e chegou ao topo, uma suíte ao lado de um charmoso deck com piscina, Elis soube onde aplicar o dinheiro que ganhava como artista mais bem paga da TV brasileira à frente do Fino da Bossa naquele ano de 1967. De qualquer forma, Ronaldo Bôscoli, ainda um relutante noivo, levantou: "Compra Elis, não deixa passar." Para Elis, já sonhando com o véu e a grinalda, cortar: "Compro. E você se casa comigo."

Se a mansão de Elis falasse, escreveria uma enciclopédia em suas paredes e incluiria nela um novo capítulo há três meses, quando um projeto chamado Bossa Sunset passou a habitar seu terceiro andar. A experiência idealizada por Isabella Cunha, responsável por um projeto maior chamado Mais Asas, tem levado turistas e curiosos em geral para ouvirem uma seleção de discos de vinil pensada pelo DJ Marcelinho da Lua. E aprenderem histórias da música brasileira.

O Bossa Sunset, como propõe o nome, começa no fim das tardes das datas anunciadas no site do projeto (www.maisasas.com.br). O próximo será em 29 de março, com ingressos a R$ 190. Marcelinho da Lua leva uma equipamento de som baseado em uma pick up e algumas dezenas de vinil. Enquanto as pessoas tomam drinques e conversam nas cadeiras e almofadas dispostas à beira da pequena piscina, ela faz uma trilha sonora que muita gente ouve parado. "Escuta esse violão, inacreditável que nessa época os caras tivessem essa qualidade de gravação", comenta com a reportagem, enquanto coloca um LP do violonista Luiz Bonfá.

Quando o sol de põe, depois de uma tarde que começa por volta das 17h, ele projeta na parede que fica atrás da piscina um mini documentário de música brasileira pensado para a empreitada. Conta em resumo sobre a chegada e o impacto do violão de João Gilberto, das composições de Tom Jobim, da música de Marcos Valle e Roberto Menescal. Fala partes em inglês quando percebe que sua audiência é, na maioria, formada por turistas estrangeiros. No dia em que o Estado esteve no local, eles eram maioria. Jovens da Suécia e dos Estados Unidos ficavam atentos quando sabiam que, naquelas espreguiçadeiras, Elis Regina tomava banho de sol com amigos no final dos anos 60. "Não sei se as pessoas a conhecem. Para mim, foi uma das maiores que ouvi", disse Karen Demavivas, executiva de origem filipina radicada em Nova York. Marcelinho diz que tenta fazer tudo de forma leve, para evitar didatismos e quebras de climas em sua discotecagem. "Percebi que o melhor é não fazer interferências a todo momento, deixar tudo o mais natural possível."

Os outros andares são preservados do público pelos proprietários da casa e mesmo o deck é usado em tardes para uma quantidade de pessoas que, para o bem-estar do projeto, não deve passar das 35 pessoas. "Trabalhar assim é bem melhor, podemos pensar com mais empenho em cada drinque", diz o disputado barman Duda Itajahy, criador de "bebidas personalizadas". Seus mojitos de maçã são quase atrações à parte.

Isabella Cunha dirige o Mais Asas, um site que cria para turistas experiências sobretudo exclusivas, que fogem dos estereótipos cariocas. Entre elas estão também idas às históricas rodas de samba da Pedra do Sal, no centro do Rio, e a prática da modalidade de surf stand up paddle em Guaratiba. "Eu procurava uma casa para fazer o Bossa Sunset, mas também não sabia que esta era de Elis. Depois de conhecer as dependências, estava saindo quando me disseram que Elis havia morado aqui. A partir daí, repensei tudo para este foco."

Aquelas paredes guardam memórias que possivelmente seus novos frequentadores não saibam. Foi ali que Elis fez sua festa de casamento para poucos e bons amigos. Chorou e realizou os desejos de menina. Ali também, Nelson Motta amplificou a paixão pela mulher de seu melhor amigo depois de uma noite de viagens e carícias. Convidado por Elis, durante uma temporada de ausência de Bôscoli, Motta foi com a cantora Joyce e o baterista Tutty Moreno para uma reunião entre amigos. Chegando lá, ofereceu a quem quisesse uma dose de mescalina, que Tim Maia havia trazido dos Estados Unidos havia pouco tempo. Só Joyce, grávida, não participou da rodada. Depois de uma noite ao lado da mulher que já mexia com sua cabeça, Motta, casado, voltou para casa pensando em, por ela, jogar tudo para o alto.

Aquela piscina viu o dia em que Elis sofreu de ira ao descobrir as traições de Bôscoli. Depois de abrir uma fatura de seu cartão de crédito, percebeu que ele frequentara um motel. "A trabalho", ele disse. Foi aí que aquelas árvores da Avenida Niemeyer viram os discos de Frank Sinatra, xodós de Bôscoli, voarem pelo céu azul.

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