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Djavan: 'Envelhecer é deixar de imaginar, envelhecer é não criar'

De passagem por São Paulo para um novo show do disco 'Vidas Pra Contar', só neste sábado (15), no Espaço das Américas, Djavan fala sobre a necessidade de centralizar a produção de suas músicas e de como ele atingiu um status raro na música pop

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

14 Outubro 2016 | 07h00

Quarenta anos de carreira com mais de 30 músicas que lhe deram picos de popularidade. Djavan pertence à exclusivíssima agremiação de artistas que conseguiram unir abrangência pop e profundidade artística. São poucos, muito poucos, os que chegam a isso. Nos Estados Unidos? Stevie Wonder é um deles. No Brasil? Chico, Caetano e Gil não valem porque, por mais relevantes que sejam, suas harmonias não saem de pensamentos perigosamente jazzísticos. De volta a São Paulo para repassar na cidade o repertório de 'Vidas pra Contar' com um show único neste sábado, no Espaço das Américas, Djavan conversou por telefone com o Estado. Aos 67 anos, sua disposição intelectual rende frases como esta: “Claro que o vinil e as gravadoras fazem a gente querer achar que o passado era melhor. Não é. Melhor é descobrir, é se desafiar. Quando eu não tiver mais nenhum desafio, eu não terei mais vida.”

Shows são melhores no início das turnês, com os músicos se deliciando diante das novidades do repertório, ou no fim, quando tudo parece estar mais azeitado?

Quando você assiste a um espetáculo na Broadway ou a um grande show, vê aquilo tão perfeito e fala: ‘Caramba, a que rigor de ensaio absurdo eles devem ter se submetido!’. Por muitos anos no Brasil tivemos a predileção pelo improviso. Se ensaiava pouco acreditando que o show iria tomar forma no palco. Isso acabou. As pessoas entenderam que você tem de ralar muito para que a coisa aconteça. Eu só defino o meu roteiro depois do quinto show.

Você já disse que centraliza sua produção, controlando todas as fases (composição, gravação, distribuição), para que as coisas saiam como você deseja. Você precisa ser o chefe?

Eu sou o chefe. Isso porque o que ocorre é o seguinte: eu tenho uma música muito pessoal e eu acabei abraçando todas as funções porque tinha de passar minha ideia musical de maneira íntegra, completa. E todas essas fases podem mexer com essa ideia. Não se trata de totalitarismo, mas de integridade artística.

Como chegar ao equilíbrio fazendo o show que você quer fazer ao mesmo tempo em que deve mostrar músicas que as pessoas querem ouvir? 

Você sabe que eu tenho mais de 30 hits. Seria fácil fazer um show com o público nas minhas mãos. Mas isso não me satisfaria. Eu quero o desafio, saber que posso conduzir as coisas mesmo com repertórios mais difíceis. Eu quero surpreender também. E quando canto músicas de um universo que não é o das rádios, estou surpreendendo. Mas o segredo para isso dar certo é a amarração do roteiro para que as pessoas não se desconectem do show. Não dá para colocar músicas que ninguém conhece correndo o risco de uma desconexão desconfortável, de olhar na plateia e ver as pessoas conversando, bocejando. E eu olho tudo o que está acontecendo no palco e na plateia. Estou ali ligado o tempo todo. Quero as pessoas ligadas.

Há uma outra equação rara: a abrangência popular versus a profundidade artística. Em geral, uma coisa compromete a outra. Para atingir mais pessoas, é necessário abaixar a qualidade. E quem quer ser profundo acaba falando com menos pessoas. Ao mesmo tempo em que você tem harmonias analisadas por jazzistas, é cantado nos karaokês. Como chegou a isso?

Não sei explicar. Eu tento dizendo que faço uma música muito diversificada, o que me levou a ter um público de faixas etárias, credos e tudo mais muito distinto. E o fato de eu ser um artista popular que não faz uma música exatamente popular é um mistério. Eu não sei explicar.

Não há uma estratégia nisso também? Às vezes sinto você se segurando. Se soltasse a mão mais um pouco, viraria jazz.

Houve um tempo em que eu tinha dificuldade de criar arranjos porque a resposta que eu tinha dos músicos não era suficiente para atender minhas necessidades. Aí eu segurava a mão mesmo. A minha música tem um complicador com qualquer músico do mundo, já tive problemas aqui e nos Estados Unidos, que é a divisão rítmica. As pessoas não conseguiam entender o que eu queria. Eu aprendi a trazer as pessoas para essa divisão complexa de modo a ter cada vez menos problemas. Com essa banda, eu não tenho muito esse problema. Trabalhamos por dez anos no passado, ficamos dez anos afastados e agora voltamos. Agora, com relação à composição, eu não penso em nada. Eu nunca busco fazer uma música para fazer sucesso, acho que nem se sabe muito fazer isso. E eu não faço sempre sucesso, nem sempre meus discos têm músicas para o rádio. Em geral, uma ou outra, mas não busco isso. Há um pouco de sorte aí.

Você não tem a impressão de que as pessoas estão ouvindo menos músicas, precisando menos de música. O protagonismo da música na vida não está perdendo espaço?

Os tempos são outros, a internet mudou a vida. Agora, a qualidade na arte nunca vai perder o valor. Você nunca vai deixar de discernir as coisas, isso não se perde. Você nunca vai deixar de identificar um Picasso de um pintor qualquer, um Tom Jobim de outro compositor.  Enquanto se é um adolescente, com a oferta tão maravilhosa da internet, você se deslumbra com a quantidade. Mas, um dia, vai querer a qualidade. A qualidade nunca vai perder o valor.

Você tem saudade de alguma coisa?

Não tenho. Falei uma vez que eu gostava do tempo em que as pessoas escreviam cartas para mim, porque as cartas traziam a energia dessas pessoas. Mas isso não é exatamente saudade, é um fato. Deu até uma confusão na internet, de pessoas querendo saber meu endereço para mandar cartas para mim. Mas eu gosto é do futuro, o meu foco é o futuro, sempre foi. Gosto de aprender a lidar com mídias novas. Claro que o vinil e as gravadoras fazem a gente querer achar que o passado era melhor. Não é. O melhor é descobrir, é se desafiar. Quando eu não tiver mais nenhum desafio, eu não terei mais vida. É bom poder errar, se expor ao erro, isso é excelente, isso ensina. E nesse pensamento não cabe o passado.

Mas a música ainda é um desafio?

Graças a Deus é. Eu continuo com a mesma impetuosidade.  Minha turnê vai acabar em julho do ano que vem e eu já estou aflito para começar a compor de novo. Isso é a minha vida, é o que eu amo, é minha existência, é ter que estar com novas harmonias, novas melodias, novas metáforas e novos contextos. Viver pra mim é isso. Não tenho nenhum medo do futuro e nenhum receio de envelhecer. e eu nunca vou deixar de criar porque isso é o que move o meu dia. 

DJAVAN

Sábado (dia 15) às 22h30

Espaço das Américas( Rua Tagipuru, 795 – Barra Funda – São Paulo)

Tel.:  2027-0777

Ingressos: na tarde de ontem, restavam poucos ao preço de R$ 140

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