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Destaque do punk e garage rock, Fidlar renasce graças à reabilitação do vocalista

Álbum 'Too', lançado no Brasil em formato digital, evidencia a luta de Zac Carper para se livrar do vício de heroína

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Pedro Antunes,
O Estado de S.Paulo

19 Janeiro 2016 | 04h00

A cabeça de Zac Carper, voz, guitarra e líder da banda californiana de punk e garage rock Fidlar, sacudia com os litros diários de cerveja barata e altas doses de heroína injetadas no corpo do jovem que sequer tinha chegado à metade dos seus 20 anos. Com o disco de estreia, de mesmo nome do grupo, Carper dava voz às angústias da dependência química, ao sabor de guitarras velozes e vocais alucinados. O caminho de autodestruição, ele percebeu aos 26 anos, estava próximo de se tornar irreversível. Notou a tempo, contudo, em 2013, quando sua banda voltava de uma turnê pela costa oeste dos Estados Unidos, encabeçada pelo Pixies, banda integrante do cânone do rock alternativo da virada dos anos 1980 para 1990.

“Havia prometido a mim mesmo que não usaria mais heroína”, diz o jovem, hoje de 28 anos. Dois dias depois, quando o músico se deu conta, já tinha uma nova agulha injetada no braço. “Foi aí que percebi que as coisas tinham fugido do controle. Disse para mim mesmo: ‘Acho que está na hora de você lidar com os seus problemas, Zac’”, completou.

Too é o segundo disco do Fidlar, lançado há pouco no Brasil, em formato digital, e evidencia a luta do líder do grupo em se afastar do vício escancarado no álbum de estreia, lançado naquele mesmo ano de 2013.

Naquela época, uma das músicas da primeira leva do Fidlar a chamar a atenção tinha o nome de Cocaine, cujo título não precisa de tradução, e seus versos diziam coisas sobre usar a droga no café da manhã, entre urros de Carper sobre a cocaína quicando dentro do cérebro jovem dele. O novo Fidlar já segue o período no qual seu líder lutou contra o vício e está ganhando a disputa – por mais dura que, às vezes, ela seja.

Carper e o restante da banda – Brandon Schwartzel (baixo) e os irmãos Elvis e Max Kuehn (guitarra e bateria, respectivamente) – conversaram longamente sobre o novo direcionamento do Fidlar. “Afinal, nossas músicas falavam sobre estar chapado o tempo todo. Não estava mais nesse momento”, ele explica. “É preciso entender que estar em uma banda não é o mesmo que um projeto solo. Não é só sobre mim. É sobre nós quatro. Por isso, era preciso balancear todos nós. O primeiro disco (Fidlar, de 2013) era sobre a minha vida naquela época. Quando cheguei para fazer esse novo disco, eles não estavam passando pelo mesmo processo que eu.” A banda entrou em estúdio com o produtor Jay Joyce, responsável por organizar o caos sonoro do Cage the Elephant nos três primeiros e melhores discos da banda, e passou a organizar as doses de selvageria e momentos introspectivos de Carper. “Acho que, para mim, é fácil cantar as músicas do primeiro disco. Aquela era a minha vida. Esse novo álbum reúne temas que eu precisava colocar para fora de mim.”

A sobriedade agora é tema recorrente nas canções da banda. “Imaginava que, ao ficar mais velho, a vida seria horrível quando ficássemos sóbrios / Descobri ficando sóbrio que a vida é horrível quando se envelhece”, canta ele em Sober.

Em contrapartida, uma das melhores canções do novo álbum se chama Overdose e mostra a batalha dentro de Carper contra as vozes que dizem para voltar a usar a droga. O Fidlar de Too, além de escancarar a humanidade do seu líder, também aceita um flerte com sonoridades mais leves, mesmo ainda dentro da caixinha do punk/garage rock. Carper, acima de tudo, parece não se importar com rótulos ou o que vão pensar. “Não me importo em falar sobre drogas”, diz, hoje quase inteiramente limpo. “Tenho voltado a fumar (tabaco). Sei que não deveria, mas sempre acabo voltando.”

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