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Depois de perder o filho, Erasmo não deixa o show parar

Julio Maria - O Estado de S. Paulo

22 Maio 2014 | 20h 30

‘Gugu vai gostar’, diz Erasmo sobre o show que fará dez dias depois da perda do filho

Foi uma surpresa a confirmação da entrevista com Erasmo Carlos marcada antes que seu filho, Alexandre Pessoal, sofresse um acidente de moto no Rio, dia 7 de maio. "A entrevista está confirmada", escreveu sua assessoria de imprensa. E no local e hora combinados, Barra da Tijuca, tarde de 12 de maio, casa de Erasmo, ele estava lá, no sofá ao lado da piscina, abatido, mas afiado para falar de seu disco novo e de qualquer assunto para o qual a entrevista escorregasse. Biografias não autorizadas, injustiças de Facebook, alienações da Jovem Guarda.

Alexandre Pessoal não resistiu aos ferimentos do acidente e morreu dois dias depois. O cantor cancelou o show que faria em São Paulo no último sábado e se recolheu. Sobre a perda, falou apenas em seu Twitter. "A grandeza do amor é sempre se tornar inteiro, mesmo perdendo uma grande parte. Adeus, meu Gugu querido, jamais esquecerei você."

 

No início desta semana, veio a confirmação de que Erasmo voltaria para a estrada. Amanhã, ele sobe ao palco do Vivo Rio para seus primeiros shows de Gigante Gentil, título do disco novo, inspirado pelo apelido que ganhou da cantora Lucinha Turnbull nos anos 70. Há canções inéditas como Sentimentos Complicados (sua primeira parceria com Caetano) e Manhãs de Love (com Arnaldo Antunes).

Durante a conversa, Erasmo adiantou que sua vida vai virar um filme. Baseado em seu livro de memórias Minha Fama de Mau, de 2009, terá direção de Lui Faria e, provavelmente, o ator Mateus Solano no papel principal, o de Erasmo Carlos. "Ele está lendo o roteiro."

Ainda quando tinha esperanças de ter Alexandre de volta, recuperado do acidente, Erasmo respondeu assim à pergunta sobre o que o movia para que conseguisse tocar a vida. Sua resposta pode explicar o fato de ter recolocado o trem nos trilhos dez dias depois de perder Alexandre: "O show não pode parar, bicho. Eu e meus filhos trabalhamos com música e temos um pacto: o que acontece com um não deve impedir os outros de seguir em frente. Entendo que outras pessoas parem suas vidas para chorar, mas isso não resolve. Você pode mandar pensamentos positivos a todo instante, de qualquer lugar". O show de Erasmo, que já havia ido ao inferno pela primeira vez em 1995, com o suicídio de Narinha, o amor de sua vida, não parou.

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Erasmo Carlos volta aos palcos sábado, no Rio, dez dias depois da morte de seu filho, Alexandre Pessoal. "Nós temos um pacto. O show nunca pode parar", disse no dia da entrevista, quando Alexandre ainda estava em coma. Ontem, Erasmo reafirmou seu pensamento em apenas uma frase por e-mail: "O show não pode parar, nossa proposta é de alegria e música é isso. Gugu vai gostar". Então, que seja como ele diz.

Seu novo disco, Gigante Gentil, seria uma resposta aos que criticaram você no Facebook?

Opiniões negativas sobre as pessoas sempre existiram, mas você não ficava sabendo. Agora, com as redes, é diferente. Fiquei indignado quando li a forma como se referiam a mim. O artista é acostumado a abraços e, de repente, leio agressão.

Quais agressões?

Coisas do tipo: "Se Erasmo levantar as mãos para o céu, Deus puxa". "Se Erasmo fechar os olhos, a família começa a rezar." "Zumbi, morto vivo, walking dead." A última foi "Erasmo está no bico do corvo". Eu fiquei primeiro indignado, mas depois percebi que a maioria das observações era para a minha aparência, não para o meu trabalho. "Zumbi e morto vivo" eram para o meu estado físico.

Ainda assim, não deve ser agradável de ler...

É, bicho, ninguém admite um cara de 72 anos cantando rock diante de 30 mil pessoas. Acham que esse cara deveria estar jogando cartas em uma mesa de aposentados.

Chico Buarque levou o mesmo susto quando se deparou com alguns comentários negativos sobre ele nas redes. Tom Zé chamou os julgamentos em massa de ‘‘tribunal do feicebuqui". Agora, talvez mais do que ninguém, o artista tem de segurar essa onda...

O artista é sensível e muitas vezes vive em um mundo que não é verdadeiro. Mas, hoje, eu encaro com humor. E até admiro a criatividade das pessoas. Existe graça nesta sinceridade cruel.

Você, Roberto e Wanderléa sofreram um outro apedrejamento nos anos 60, quando apresentavam o Programa Jovem Guarda. A classe artística e a crítica os consideravam um subproduto comercial. Por que vocês nunca responderam a esses ataques?

Porque eu não tinha a cabeça que eu tenho hoje. Se tivesse, eu responderia.

Havia gente na turma da MPB e dos festivais, da qual faziam parte Elis, Geraldo Vandré e Edu Lobo, chamando vocês de alienados. Cobravam principalmente uma postura combativa contra a ditadura, que vocês não tinham.

Cara, ao contrário do pessoal da MPB, muitos universitários, filhos da alta sociedade, com pedigree, nós da Jovem Guarda não tínhamos escolaridade nenhuma. Minha mãe veio grávida de mim da Bahia para o Rio, sem meu pai. O único jornal que havia em casa era o Jornal dos Sports. Eu só sabia de algum acontecimento quando todos diziam nas ruas. A gente nem sabia que estava havendo uma ditadura no País. Eu queria era saber do meu Vasco e ganhar meu dinheiro para ajudar minha mãe a comprar uma casa.

Ou seja, a crítica procedia? Vocês eram alienados?

Depende do que você chama de alienado. Podemos ter contribuído pela liberdade mais do que muitos cantores da MPB. Caetano Veloso disse que Quero que Vá Tudo Pro Inferno fez mais do que qualquer canção de protesto daquela época. Mas, para nós, eram só farpas. Culturalmente, nos achavam um lixo. Chegaram a dizer que recebíamos dinheiro da embaixada dos Estados Unidos para promover o rock no Brasil.

E o tempo confirmaria que você tinha de ser um roqueiro...

Eu não sou um roqueiro.

Não?

Não. Sou um compositor, não um roqueiro. Curti samba e tive a sorte de testemunhar o nascimento do rock e da bossa nova. Eu sou carioca, jamais faria rock como um roqueiro de Londres, branco e sem sol. E eu sempre gravei samba, desde o meu primeiro disco.

Você não tem vontade de retomar a sonoridade dos seus discos dos anos 70? Todos se tornaram clássicos...

É bicho, eu sei. Foi minha melhor fase. De amigos, de música, de tudo. Mas passou. Acho que um pouco por causa dessa vontade de querer o novo. E é tão difícil chegar a esse novo... Ouço bandas, mas nunca aparece um novo Mutantes, um Secos e Molhados. Quando ia a um show dos Mutantes, lembro de ficar gelado na plateia esperando que eles entrassem. Nunca mais senti isso. O novo é sempre algo que você já viu.

Talvez porque o novo de hoje faça o que vocês fizeram nos anos 70. A chamada ‘nova MPB’ ergueu-se de uma costela da Jovem Guarda.

Eu percebo, mas não me importo em aprender com eles, mesmo sabendo que aprenderam comigo.

Uma das maiores polêmicas que vocês, artistas, viveram foi a guerra das biografias, no ano passado. Agora, o projeto que permite lançar esses livros sem autorização do biografado foi aprovado pelo Congresso.

Eu nunca quis a autorização. Acho ridículo ter de autorizar a publicação de um livro.

Então, existe um mal entendido? Você não apareceu no vídeo com Roberto e Gilberto Gil falando a favor das bios autorizadas?

Ninguém nunca foi a favor da autorização prévia, a não ser Roberto Carlos. Nunca fui contra biografia nenhuma. Só acho que deveríamos achar o meio termo entre a liberdade de expressão e a privacidade. Quando fiz o meu livro de memórias (Fama de Mau), tive a dignidade de ligar para Roberto, Wanderléa, Jorge Benjor e Juca Chaves para comunicar o que eu iria contar.

E se eles não quisessem?

Eu não colocaria, mas eu tinha de avisá-los. O que eu acho péssimo é o cara sacanear sua história, levar sua família ao sofrimento e, depois, ainda negociar o livro para virar filme e ganhar dinheiro com sua história.

A história de vocês não é grande demais para ser só de vocês? Roberto Carlos também diz que é dono da própria vida mas, no passado, ele mesmo abriu as portas de sua casa para revistas como Amiga e Fatos & Fotos.

Eu tenho que concordar, também fiz isso. E, quando fazemos isso, estamos nos expondo. Quando faço o que estou fazendo agora com você, falando de mim, dos meus projetos, acabo deixando de ser dono de minha vida. Pode ser. Mas temos de colocar uma fronteira. As pessoas podem entrar em sua história, mas não em você.

Colapso, uma de suas músicas novas, mostra você preocupado com a humanidade...

Sabe, eu me sinto um homem feliz demais, tenho tudo para ser o ser humano mais feliz e completo que já existiu, mas não posso ser esse cara enquanto existirem todas as injustiças que vemos ao redor. Intolerância religiosa, políticos corruptos, guerras inúteis, milhares de mortes por nada. Coisas assim não me deixam dormir.

Não seria mais fácil não pensar e ser feliz?

Ah, bicho, mas eu jamais seria um ser humano assim. O meu travesseiro não deixaria.