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Deixe que digam, que pensem, que falem... de Jair Rodrigues

Júlio Maria, do Jornal da Tarde

25 Maio 2009 | 11h 03

Aos 70 anos, 50 de carreira, cantor narra sua história sem se arrepender dos protestos que não fez

Os militares nunca quiseram saber de Jair Rodrigues. Os artistas que protestavam contra os militares também não. Assim, Jair ficava livre para cantar. Aos 70 anos, o homem que foi parceiro de Elis Regina em um programa de TV, que testemunhou a morte artística de Wilson Simonal e que plantava bananeira no palco quando a moda era ser músico de protesto não tem medo de colocar o passado à mesa. Jair, menos inofensivo do que parece, recebeu o repórter na última quarta em um estúdio no Ibirapuera para reativar a memória de seus 50 anos de carreira, celebradas com o DVD Jair - Festa para um Rei Negro. De um raro episódio em que brigou feio com Elis Regina ao empate entre A Banda, de Chico Buarque, e Disparada, que defendeu no Festival da Record de 1966, saiu de tudo. E o que ele estava fazendo assim que o repórter chegou? Cantando, e cantando alto.

Inspirado hein Jair. Você canta o dia todo?

O dia todo. Quando vou viajar, dentro de ônibus, em carro, no banheiro, é uma maravilha...

E ninguém fala ‘já deu, chega’?

Uma vez fui viajar com meu filho Jairzinho, ele com um sono danado. E aí, no ônibus, eu comecei (começa a cantar alto): ‘Meu amor, estou chegando agora...” Aí ele falou: ‘Ô pai, o senhor gosta de cantar, né pai?’ Eu entendi logo o recado, parei de cantar e comecei a assoviar (assovia a melodia da mesma música que estava cantando). O Jairzinho voltou pra mim e falou. ‘Ô pai, acho que eu prefiro que o senhor cante’ (risos).

Quem é Jair Rodrigues?

Jair Rodrigues se chama Jair Rodrigues de Oliveira, nascido a 6 de fevereiro de 1939 em uma cidadezinha pequena porém decente no interior de São Paulo que se chama Igarapava. Filho de Conceição Maria Rosa Rodrigues de Oliveira, já falecida, e de Severiano Rodrigues de Oliveira, já falecido. E eu não conheci meu pai. Quando ele faleceu eu ainda era um garoto de colo. Minha mãe conta que quando eu chegava na missa, ficava prestando atenção no coral, nunca na missa, e ela puxava minha orelha. Foi minha mãe a minha primeira incentivadora. Quando me viu cantar, disse ‘meu filho, acho que você vai dar para um grande cantor’.

E você deu?

Não (risos)... Um dia fui fazer um show aqui em São Paulo e minha mãe estava na plateia. Aí eu falei lá do palco ‘tá vendo mãe, não precisei dar pra ninguém’ (risos).

Engraçado que você faz 50 anos de carreira este ano, assim como Roberto Carlos...

É, mas minha festa foi antes da festa dele (risos), em 6 de fevereiro.

Roberto Carlos apresentando o programa ‘Jovem Guarda’ e você apresentando o ‘Fino da Bossa’ ao lado da Elis, nos anos 60. Você e Roberto sempre estiveram em lados opostos?

Eu vou falar uma coisa aqui que eu nunca falei a ninguém. Eu tenho uma música chamada O Rapaz da Moda, que fez grande sucesso lá no programa Jovem Guarda (apresentado por Roberto na Record entre 1965 e 1969), só que nem Roberto Carlos nem ninguém jamais falou sobre isso. Eles nunca reconheceram esse sucesso. Outros artistas também que não iam lá no programa Jovem Guarda, como o Eduardo Araújo, fizeram um grande sucesso mesmo sem ir lá.

O que fez com que duas pessoas tão diferentes como você e a Elis dessem certo à frente de um programa de TV por dois anos? Você sempre tão feliz e ela sempre tão, digamos, imprevisível...

Eu vou te responder: no começo de 1965 fui ao programa Almoço com as Estrelas, que o Airton Rodrigues apresentava na extinta TV Tupi. Quando cheguei, dei de cara com a Elis. Ela veio e me disse ‘lá em casa todos somos seus fãs. Você me dá um autógrafo?’ E eu ‘ah, então empatou, me dá um autógrafo também?’ Ali nasceu tudo.

E você vai dizer que, em dois anos, nunca brigou com a Elis...

Nunca, quer dizer, uma única vez.

Quando foi isso?

Ela estava ensaiando no palco para o Fino da Bossa e cheguei no meio do ensaio. Abri a porta da frente, já tinha público no auditório. Quando me viram, fizeram aquela farra e isso atrapalhou o ensaio. Ela virou e falou bem agressiva: ‘Você não está vendo que eu estou ensaiando? Isso é uma tremenda falta de educação.’ Aí eu, que tinha o pavio curtinho, fui falar com ela: ‘Olha Elis, não fala mais assim comigo que eu te meto a mão no pé da orelha.”

Dois dias depois do enterro de Elis, você disse à imprensa que de 10 artistas, 6 usavam drogas. Isso foi uma bomba. Começaram a chamá-lo de dedo-duro, a polícia pedindo que você entregasse as pessoas que usavam drogas... Você pagou caro por causa de uma verdade?

Eu nunca tinha visto a Elis se drogando. Muitas vezes ela se queixava de que estava rouca e alguém trazia conhaque, uísque. Eu sempre batia na mão dela, ‘não faz isso não, isso não vai te melhorar não, descansa aí.’ Eu não bebo nem água quando estou no palco. Quando disseram que a Elis havia morrido, não acreditei, e dei uma entrevista. Só que distorceram o que eu falei naquele momento e saiu ‘Jair denuncia a droga no meio dos artistas’.

E seria alguma mentira?

Olha, eu não ligava para aquilo, eu só cuidava de mim e de quem eu gostava, como a Elis.

Artistas ainda usam muita droga?

Sobre isso eu continuo cego, surdo e mudo (pausa).

É melhor assim?

É melhor assim. Aquilo tudo que aconteceu me serviu de lição. Meus amigos disseram: olha, nunca fale mais sobre esse assunto.

Jair, agora você pode dizer. Em 1966, a música ‘A Banda’, do Chico Buarque, empatou com ‘Disparada’, do Geraldo Vandré, que você interpretou no Festival da Record. O episódio virou um clássico da música brasileira, muitos acharam o empate uma injustiça, disseram que ‘Disparada’ era melhor. Você se sentiu injustiçado?

Bem, em se tratando de música para festival, Disparada era mesmo melhor. Até o Chico Buarque já disse que gostava mais de Disparada. Foi uma música nascida para um festival. Nós estávamos numa época de ditadura e Disparada pegava no pé de tudo aquilo. A Banda era...sei lá, se fosse um festival de marchinhas de carnaval, tudo bem, mas não era.

Outro amigo seu, Wilson Simonal (1938-2000), tem agora sua história contada no cinema. Naqueles anos de ditadura, ele foi acusado de ser delator de artistas, ao que tudo indica, injustamente. Você, que estava tão próximo, ficou de que lado?

Eu era muito amigo do Simonal, assim como era do Jorge Benjor, do Francisco Egídio. A gente deu um conselho para o Simonal quando aquilo tudo começou a ser detonado: ‘Simonal, faz o seguinte meu velho, você faz um tremendo sucesso no México, na Espanha, pega suas coisas e sai do País.’ Aquele rolo foi aumentando, de 30 shows ele passou a fazer um por mês. Falamos para ele sair do país, mas ele não quis. Ele dizia que era onda passageira, mas acabou morrendo por causa disso (Simonal morreu por complicações no fígado em decorrência do alcoolismo). Eu me lembro de que, dois dias antes de ele morrer, a filha dele me chamou ao hospital Sírio Libanês. ‘Jair, você pode vir aqui dar uns conselhos para o meu pai porque ele não quer comer, não quer mais falar com ninguém, está se entregando’. Fui para lá e cheguei assim: ‘Ô nego véio, levanta daí meu velho. Ô rapaz, tá querendo morrer, diabo?’. Irmão, ele me olhou como se quisesse me mandar à puta que o pariu. Aquele olhar dizia ‘não enche, porra, deixa eu morrer em paz’. E dois dias depois, ele morreu.

Ao contrário dos cantores de sua geração, você nunca foi uma voz contra a ditadura. Por quê?

Eu nunca tive nada a ver com aquilo. Quando fui fazer a divulgação de Disparada, entrei em uma rádio e havia um anúncio escrito em letras garrafais: ‘Proibida a execução pública em todo o território nacional da música Disparada.’ Embaixo tinha uma observação: ‘Com o autor’. Eu não era o autor. A pressão era brava sobre o Vandré, o Chico Buarque, o Caetano Veloso, o Gilberto Gil, mas comigo não tinha isso.

Os cantores não pressionavam você a fazer parte dos protestos?

Não, eles me mandavam embora, falavam ‘imagina o Jair em passeata, isso vai dar uma cagada geral (risos). Vai embora Jair, você não tem nada a ver com isso.’

Quem falava isso?

Ah, quase todos que ficavam sabendo que eu poderia ir participar de alguma reunião. Eu nem ia à reunião, só de eu chegar perto eles falavam ‘vai embora, você vai fazer bagunça, isso não tem nada a ver com você’. Eu não tinha nada a ver com aquilo mesmo.

Mas você reprovava os militares?

Eu reprovava aquilo que acontecia, claro, a gente via que sumia gente, pessoas queridas, e eu me perguntava ‘será que não vão acabar com isso?’ Hoje, por outro lado, liberou geral, não se censura mais nada. Virou um caos, só tem besteirol nas rádios, as letras das músicas são banais, indecentes. Tinha de ter uma censura hoje, não violenta como na época da ditadura, mas algo para censurar certas coisas.

Censurar músicas também?

Sim, para tirar esses palavrões, para evitar essas coisas... E na TV? Olha, tem coisas que você ficaria com vergonha de assistir na TV mesmo se estivesse em um puteiro.

Não é o preço da democracia?

Mas isso é democracia demais.

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