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David Bowie, representante máximo da reinvenção no pop, criou um personagem para sua morte

Músico inglês, que morreu aos 69 anos, era um devastador tornado de revoluções culturais atingindo pequenas e indefesas ilhas do Caribe.

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Pedro Antunes ,
O Estado de S. Paulo

12 Janeiro 2016 | 04h00

A música nunca foi a única expressão artística de David Bowie. Figura de distintas personalidades dentro de si, o inglês que morreu aos 69 anos se travestia a cada álbum, cada descoberta, a cada novo empreendimento. A música estava ali, como figura central, responsável por carregar o talento dele ao redor do Globo, mas Bowie fazia girar toda a máquina cultural. A questão nunca foi incluir uma guitarra ali, acertar o verso acolá e manter o topete bem ajeitado. Bowie era conceito no estado puro, a ideia vinha antes mesmo da criação da arte. 

Inverter a ordem das coisas, ao posicionar o conceito a frente da ideia de deixar a arte fluir livremente em estado bruto, o inglês percorreu um caminho perigoso, pelo qual muitos caíram pelo caminho. Não para David Robert Jones, aquele garoto de Brixton, no sul de Londres. Para ele, trocar de pele, transmutar-se para dentro de outra persona sempre pareceu ser fácil demais. Ele queria ganhar o mundo. E chegar às estrelas. 

David Bowie era um devastador tornado de revoluções culturais atingindo pequenas e indefesas ilhas do Caribe. Força da natureza capaz de não deixar uma estrutura intacta. Levou o homem para o espaço sideral, quando o sonho da humanidade era ser capaz de pisar em solo lunar com Space Oddity, seu primeiro grande single. Aos poucos, foi caminhando em direção ao rock junkie, andrógino, livre, à passos largos para persona que muito consideram ser a sua mais relevante criação, Ziggy Stardust. O caminho de cinco anos entre o disco de estreia, que levava o nome de Bowie, de 1967, até a estreia de Stardust e a banda Spiders from Mars, já era o suficiente para consagrar qualquer artista – e fazer os acomodados acionarem o piloto automático. Em meia década, Bowie assolou o mundo com a apocalíptica The Man Who Sold The Word (1970) e mostrou a trinca: Life on Mars, Changes e Oh! You Pretty Things (de Hunky Dory, de 1971). 

O espaço, a fronteira final para David Bowie. Desde que cantou a desventura de Major Tom, em Space Oddity, Bowie nunca mais deixou de olhar para as estrelas. Ali, buscou as respostas para sua personalidade roqueira definitiva. Incorporou Ziggy Stardust e sacudiu o mundo pós-Beatles, pós-hippies, quando a cultura do paz e amor começava a ruir e o mundo deixava as flores para trás. As apresentações acompanhado da Spiders From Mars se tornaram míticas, mas Bowie pôs fim a vida de Ziggy, e criou para si Aladdin Sane, personagem que dá nome ao seu próximo disco. 

Desde então, de tempos em tempos, novos personagens nasceram e morreram através dos conceitos de Bowie. O inglês chancelou o funk e a disco music com seu The Thin White Duke, experimentou e exagerou no uso de cocaína, ajudou a criar a mística em torno de Berlim como capital europeia da música nos anos 1970, foi capaz de sobreviver à implacável década seguinte com hits dançantes, quando até os Stones sucumbiram. 

Se despediu, aos 69 anos, ao flertar com o jazz experimental para o qual mundo não estava preparado para ouvir. De tão genial, criou um novo personagem para sucumbir perante a morte. Morreu como Blackstar. A figura de Bowie, afinal, é eterna. 

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