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Dan Snaith, do Caribou, fala sobre as transformações de seu indie pop

Músico lança 'Jiaolong' sob terceiro pseudônimo, Daphni, a partir de discotecagens

Roberto Nascimento - O Estado de S. Paulo,

15 Outubro 2012 | 19h43

Em 2009, enquanto completava um doutorado, em Londres, o músico e matemático Dan Snaith teve sua eureca. Ao ouvir um set do DJ Theo Parrish, em uma das noites da vanguardista balada Plastic People, Snaith percebeu que poderia vestir a música psicodélica que gravava sob os codinomes Manitoba e Caribou, com a estética eletrônica do underground londrino.

O resultado desta revelação foi Swim, disco que reformulou a psicodelia sessentista de Snaith em arranjos esparsos, calcados em garage, funky e outros subgêneros da música de pista britânica. O disco deu origem a alguns dos melhores hits de 2010 - Odessa, Sun, Jamelia - e constou em diversas listas de melhores do ano, do Guardian à Pitchfork. Desde então, as turnês não pararam e Caribou virou nome respeitado, tanto em boates (ouça o excelente remix de It’s a Crime, do Virgo Four) quanto em shows de indie rock (a banda abriu uma série de apresentações do Radiohead, este ano).

Como é comum acontecer com nomes em voga no cenário indie, Snaith começou a discotecar, o que lhe abriu novas avenidas criativas e originou um terceiro pseudônimo, Daphni, cujo primeiro disco chega às lojas virtuais nesta terça-feira, 16. "O disco é uma reflexão disso", conta Snaith, em entrevista ao Estado, de sua casa, em Londres. "Como tocava pelo menos uma vez a cada duas semanas, precisava de mais músicas. E o jeito mais fácil de encontrar as faixas que você procura é fazê-las você mesmo", completa.

Jiaolong, que chega às lojas por intermédio da famosa Merge Records, é o resultado desta empreitada. São faixas de pista com um viés acessível, feitas por um músico que transita livremente entre o pop e a balada. Yes I Know, a de abertura, é uma esperta adaptação de um sample de soul music, que, como apontou o crítico Sasha Frere-Jones, em uma recente matéria para a New Yorker, lembra Moby, na época de Natural Blues. Há mixagens de obscuridades africanas, assim como faixas que funcionam apenas em boates.

"A coisa mais fascinante de fazer faixas de pista é que não preciso pensar em composições, letras e todas as outras coisas que me fazem perder o sono quando gravo os discos do Caribou", conta Snaith. "Muita gente faz dance music com fórmulas, mas há muitos jeitos de subverter esses lugares-comuns."

A objetividade das músicas de Jiaolong, construídas em cima de uma ou duas boas ideias rítmicas, reflete as circunstâncias em que foram feitas. "Não estava preocupado em montar um disco. A maioria das faixas foi produzida no dia da apresentação, e tinham de estar prontas na hora de eu ir para o aeroporto, ou para a boate. Quando parei para ouvi-las, há dois meses, percebi que faziam sentido no contexto de um disco", completa.

Faixas como Pairs, ou Ye Ye, que têm feito parte do set de Snaith há algum tempo, são o resultado de um processo darwiniano de lapidação musical. Snaith as produz no calor do momento, e as testa na mesma noite. Se não causam impacto, são descartadas. "Sempre que mostro uma música para outras pessoas, vejo rapidamente, e de forma honesta, se elas funcionam ou não. Em uma boate isto é ainda mais nítido: se o pessoal não gosta, a pista esvazia", conta.

Na narrativa musical de Dan Snaith, Jiaolong é um disco lógico, mas está longe de ser óbvio. Há apenas cinco anos, o Caribou lançava Andorra, álbum de psicodelia moderna, influenciado por produções dos anos 60, com um verniz de "bedroom pop" ou "pop produzido no quarto". Desde então, passar por Swim e desaguar em Jiaolong, embora soe coerente, é uma transformação considerável.

"As mudanças no meu trabalho apenas refletem as mudanças do meu gosto musical", conta Snaith. "Posso me entediar com um tipo de música. Posso tentar algo diferente. Comprar um novo instrumento. Ouvir um tipo de música interessante. Tudo isso faz com que o som mude", ressalta.

Ne Noya, a segunda faixa de Jiaolong é um exemplo disto. Durante as pesquisas, Snaith, ávido colecionador de vinis e vasculhador de blogs, ouviu os lançamentos do selo Analog Africa, que relança obscuridades africanas dos anos 1970. A faixa da banda do Togo, Cos-Ber-Zam, que lançou apenas um compacto em sua existência, chamou sua atenção e foi transformada em um remix (Snaith dividirá o lucro da canção com os músicos originais). "Estou sempre em busca de coisas novas - antigas ou contemporâneas - para ouvir. Isto é uma parte da razão pela qual eu faço música", acrescenta.

DAPHNI

JIAOLONG

US$ 9 (iTunes)

 

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