Beatriz Giacomini
Beatriz Giacomini

Crítica: Zé Renato leva ouvinte ao tempo das delicadezas

Álbum 'Bebedouro' traz parceiros de belas composições e uma rara sensibilidade poética que nem parece mais representar os dias atuais

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

06 Fevereiro 2018 | 06h00

O tempo de Zé Renato é outro, de movimentos e durações aos quais estamos desaprendendo de experimentar na vida e, por reflexo, na música. Seu pensamento não tem pressa e não parece caber na urgência dos polegares de nossos Spotify nem nas conclusões sumárias de Facebook. A vida eletrônica não pode concorrer com uma música dessas. Quando ela soa é preciso parar, sentar, olhar, respirar e estar pronto para ser levado a algum outro lugar. Ao lado de Dori Caymmi, Joyce, Nei Lopes, PC Pinheiro, Moacyr Luz, Capinam, Moraes Moreira e João Cavalcanti, Zé abre portas para um tempo que estamos desaprendendo de sentir.

Fonte de Rei é um “samba de cachoeira”, de notas que despencam suaves em cascata. Samba e Nada Mais é um “samba de valsa”, de Zé com João Cavalcanti, sincopado em um falso tempo ternário que Chico Buarque adoraria ter feito e que se torna memória instantânea quando entra a voz de Dori Caymmi. A beleza de Náufrago, de Zé com Nei Lopes, o que pode ser um “samba de maré”, traz a tristeza de um amor “que naufragou em paz”. Com Joyce, Zé fez Noite. Aquele violão e aquele vocalise não sairiam de outra cabeça. Joyce faz samba até quando não quer, e este pode ser o quê? Um “samba de canoa”? O balançar de uma delas por um Rio Negro serviria de metrônomo perfeito. 

O que soa quase como ruído é Agogô, parceria com Moacyr Luz. A canção é ótima, mas sua função que parece ter sido pensada para ser de quebra, elevando a dinâmica com uma pegada de “samba de pista” – em São Paulo é samba-rock e, no Rio, sambalanço –, parece nos acordar de um sonho para nos jogar em um baile de Paula Lima. É uma ruptura com uma canção forte que poderia ter sido conceitualmente poupada para um próximo disco menos introspectivo.

Zé Renato é atípico. Ele é projetado pelo Boca Livre, se reinventa como cantor solo e segue assim sua carreira. Quantas vozes em atividade egressaram de grupos vocais? Sim, talvez lá seja mais solto, se divirta mais. Solo, tem uma postura mais lírica, o que parece deixá-lo menos espontâneo e mais preocupado. Não se pode ter tudo. Zé Renato perdeu a irresponsabilidade saudável da voz mas ganhou a madureza com a qual nos leva a um quase extinto tempo de delicadezas. 

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