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Cultura

David Bowie

Crítica: David Bowie funde gêneros e brilha renascido em novo disco

Músico volta a mostrar habilidade de mutação em ‘Blackstar’, com o encontro do jazz, eletrônico e rock

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Pedro Antunes,
O Estado de S.Paulo

08 Janeiro 2016 | 19h14

Camaleônico como nunca, David Bowie reverte as fórmulas, envelhece com sobriedade, sem deixar as regras o impedirem de criar. Assim nasce Blackstar, mais novo disco da carreira do músico britânico, lançado oficialmente na sexta-feira, 8, em todo o mundo.

Trata-se do 28.º trabalho de estúdio, um filhote híbrido de free jazz com o eletrônico do Kraftwerk, pincelado pelas fases mais experimentais do krautrock. Blackstar se posiciona na longa discografia como mais um ponto fora da curva – entre tantos outros –, esbarrando no experimentalismo exibido por Bowie entre as fases em que passou por uma imersão no funk norte-americano – como em Young Americans, de 1975, e Station to Station, do ano seguinte – e o início do período em Berlim, marcado por Low, de 1977.

Em Low, aliás, Bowie já mostrava aspectos que viriam a ser explorados em Blackstar. É daquele disco, por exemplo, Warszawa, uma canção de quase sete minutos, praticamente instrumental, cheia de ecos e longas passagens de sintetizadores. Na nova invenção de Bowie, são os saxofones de Donny McCaslin, líder do quarteto recrutado pelo britânico.

Blackstar foi criado de forma livre. Bowie permitiu que os músicos tivessem a possibilidade de voar o mais distante possível, sem medo de queimarem no sol. A nova sonoridade de deixou a guitarra de lado, evitou o rock. Lazarus, segundo single lançado, é a mais tradicional das sete canções de Blackstar, mas até nela os ecos do grito de desespero do personagem criado por Bowie, solitário e infeliz, esquecem de seguir a estética roqueira.

Sue (Or in a Season of Crime), já conhecida de sobras da gravação de The Next Day, é a pior da safra compilada em Blackstar, enquanto I Can’t Give Everything Away, é disco music pura, deliciosa para se jogar na pista. Blackstar não é fácil nem doce demais. A morte e a solidão assombram suas temáticas, o jazz segue por caminhos incomuns. Na dura tarefa de fugir do óbvio, Bowie superou o próprio legado e história. Ainda bem.

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