Amanda Perobelli/Estadão
Amanda Perobelli/Estadão

Criolo se reinventa, aposta no samba e faz disco com dez músicas inéditas

'Muita gente me pergunta quais são minhas referências, meus ídolos musicais, os caras que admiro na literatura. Eu digo que são meu pai e minha mãe', diz o músico

Entrevista com

Criolo

João Paulo Carvalho, O Estado de S.Paulo

28 Abril 2017 | 05h00

Os olhos de Criolo transbordam de emoção. Ao sentir o peso do mundo sobre suas costas, ele não viu outra alternativa. Compôs em quantidades exorbitantes. Segundo ele, foram de 15 a 20 letras por dia. As rimas de protesto, desta vez, deram lugar ao samba, gênero musical teoricamente mais leve. As letras, recheadas de sentimento, refletem um momento muito especial e atípico. “Eu tinha escrito uma infinidade de sambas há um tempão e isso ficou guardado. Recentemente, meus sentimentos se afloraram e essas composições ressurgiram. Eu queria dividir isso com as pessoas que estavam à minha volta. Essa energia boa tomou conta de todos”, diz Criolo em entrevista ao Estado.

Sentado em um banco de madeira de uma simpática casinha na zona oeste de São Paulo, o rapper gesticula enquanto fala e quase derruba uma cesta de pão. Pouco tempo depois, com as mãos cruzadas e milimetricamente colocadas à mesa, Criolo discorre sobre seu novo trabalho, Espiral de Ilusão, que chega às plataformas digitais nesta sexta-feira, 28. “Escrever um rap ou um samba, para mim, é a mesma coisa. Tudo é movido pelo sentimento. Não é que vem uma letra na minha cabeça e eu a coloco na estante do samba ou do rap. Eu não sei o que vai acontecer. Estou totalmente fora da minha zona de conforto. Fui só ouvindo meu coração. Música é sentimento”, afirma. Espiral de Ilusão traz ao todo dez sambas inéditos. Desses dez, nove são de autoria de Criolo. A exceção é Hora da Decisão, de Ricardo Rabelo e Dito Silva.

O samba não é nenhuma novidade na vida de Criolo. Ele é o autor de Banca de Jornal, samba na voz de Tom Zé. No final do ano passado, ele também gravou Até Amanhã, música registrada no projeto póstumo Se Assoprar, Posso Acender de Novo, do mestre Adoniran Barbosa. Criado no bairro do Grajaú, no extremo sul de São Paulo, a relação de Criolo com o samba vem desde a infância. Discos de Martinho da Vila e Moreira da Silva sempre estiveram presentes em sua vida. O pai, o senhor Cleon Gomes, nunca admitiu que em “casa de pobre” faltasse samba. Na estante da vitrola, o bom e velho batuque dividia as atenções com Nelson Gonçalves, Luiz Gonzaga e Agnaldo Rayol. “Minha música é uma mistura das vivências e da expressão espontânea. Meu pai e minha mãe são maravilhosos. Muita gente me pergunta quais são minhas referências, meus ídolos musicais, os caras que admiro na literatura. Eu digo que são meu pai e minha mãe. As pessoas que me apresentaram tudo. Se escuto samba hoje em dia, foi porque eles ouviam. Por mais sofrimento que tivesse, sempre tinha música dentro de casa”, lembra. 

Se em Convoque Seu Buda (2014), último trabalho de inéditas de Criolo, ele atirou para todos os lados, incluindo o samba, em Espiral de Ilusão, ele veste a camisa do samba de forma bastante contundente. Apesar de simples, Criolo não abre mão de suas letras fortes e impactantes. Em Cria de Favela, ele dá a letra do jogo. “Menino, você não pode voltar porque a biqueira não é seu lugar. Quem é que vai lucrar com essa patifaria? É gente da alta”. O trecho da música cairia como uma luva em qualquer rap escrito por Criolo. Ela, entretanto, apresenta um arranjo alegre e contagiante. “O disco tem muita lágrima. Eu não acredito que algumas composições ficaram tão dançantes. Tem muita lágrima ali, mas também muita ressurreição. A gente que cresce em favela sabe como o sistema vira as costas para nós. Se você pegar quatro ou cinco letras deste disco, vai ver que na verdade é um rap que o Kleber (ele mesmo) fez”, conta ele.

Na parte final da produção das músicas do disco, uma dúvida pertinente tirou o sono de Criolo. Ao ouvir um trecho de Dilúvio de Solidão, o rapper viu semelhanças com uma canção de Paulinho da Viola. “Não lembro o nome da música do Paulinho. Fiquei abalado, no entanto. Pensei que, de alguma forma, tinha reproduzido aquilo”. Criolo fez questão de procurar Paulinho para mostrar a música. “Ele falou para eu ficar tranquilo. Disse que situações assim aconteciam com muita frequência na música e principalmente no samba. No final, elogiou a composição. Ele deu o aval para que eu gravasse. Fez elogios. Ouvir isso de um cara como o Paulinho, sobre algo que saiu do seu coração sem qualquer maldade, anima qualquer um”, revelou. Em 2014, Criolo foi acusado de plágio pelo compositor Mamão. Na ocasião, ele viu semelhanças entre sua música Tristeza Pé no Chão (1973), popular na voz de Clara Nunes, e Linha de Frente, do álbum Nó Na Orelha (2011).

Relação entre o rap e o samba já é tradicional

Tanto o rap quanto o samba saíram do mesmo buraco, dos extremos periféricos. Esse é certamente o ponto de intersecção entre os dois gêneros musicais. Retratar cotidianos e a dura realidade de quem vive à margem da sociedade sempre foi uma bandeira, ainda que de um jeito brando e cadenciado, como o samba, ou de forma mais direta , brusca e contundente, como o rap. O rap surgiu para o mundo sampleando o funk norte-americano. No Brasil, ele acabou se “apropriando do samba” até para dar mais identidade ao gênero musical.

Criolo, portanto, não é o primeiro rapper a transitar pelo samba. Marcelo D2 e Rappin’ Hood já fizeram isso há alguns anos e acabaram colhendo louros dessa mistura. O rap, em síntese, não é puro. É uma música que se apropria de outras, como o próprio Marcelo D2 já afirmou em entrevista ao Caderno 2, em dezembro de 2015. “Sempre achei que, para dar uma identidade brasileira ao rap, o caminho natural era usar o samba como plano de fundo”, disse ele na ocasião. “Já são 27 anos escrevendo rap. Então essa mistura acaba meio que sendo natural. Nos sambas Cria de Favela e Menino Mimado, por exemplo, se você tirar o ritmo, vai perceber que aquilo é, na verdade, um rap”, complementa Criolo.

Turnê. O show de lançamento do novo disco de Criolo, Espiral de Ilusão, será realizado no dia 27 de maio em Porto Alegre. A apresentação desembarca em São Paulo em 24 de junho, no Citibank Hall.

FAIXAS DO ÁLBUM

Lá Vem Você

Dilúvio de Solidão

Menino Mimado

Nas Águas

Filha do Maneco

Espiral de Ilusão

Calçada

Boca Fofa

Hora da Decisão

Cria de Favela

 

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