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Evan Agostini| AP

Como surge o álbum do ano no Grammy

Os indicados de 2016 são Taylor Swift, Weeknd, Alabama Shakes, Chris Stapleton e Kendrick Lamar

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Jon Pareles,
THE NEW YORK TIMES 

14 Fevereiro 2016 | 20h56

Vencedores azarões, momentos fora do roteiro e estranhas interações entre celebridades estão entre as melhores razões para assistir premiações como o Grammy, que irá ao ar hoje pela CBS. O anúncio do álbum do ano é a parte na qual essas características aparecem surpreendentemente com mais frequência. 

“Que diabos?”, deixou escapar Win Butler, do Arcade Fire, depois de Barbra Streisand anunciar, hesitantemente, que o álbum The Suburbs havia conquistado o Grammy do álbum do ano em 2011. Foi a última premiação no final de outra longa e cansativa noite de Grammy e, se os espectadores já não estivessem cansados o suficiente, o Arcade Fire havia acabado de cantar uma música do disco The Suburbs, Month of May, com uma equivocada e desarticulada barragem de luzes estroboscópicas, talvez com intenções punk, enquanto um cara numa bicicleta circulava a banda. 

Não importa. Pela primeira vez o álbum do ano foi para uma música que era nova, lançada independentemente, que não era um hit, elogiada por críticos e, bem, digna do prêmio. 

Em toda a indústria da música, houve surpresa e a pergunta: “Arcade quem?”

O álbum do ano costuma ser a categoria de vingança de geração dos eleitores do Grammy: vingança contra as crianças e suas emoções pop baratas (na verdade, caras), vingança contra os analfabetos musicais com seus computadores que produzem hits, vingança contra aqueles que pensam em termos de arquivos e playlists em vez de álbuns como unidades artísticas. 

Outras duas categorias do Grammy – canção (para compositores) e gravação (para músicos e produtores) do ano – geralmente vão para músicas de sucesso; o artista revelação tende a ser alguém que obteve uma dessas premiações, mas isso não acontece sempre. Mas o álbum do ano é o baluarte do prestígio artístico, ou talvez a linha na areia. 

Os eleitores do Grammy não virarão as costas para sucessos incontroláveis (e musicalmente impressionantes) como 21 de Adele, Thriller, de Michael Jackson, ou Come Away With Me de Norah Jones. Mas eles também podem tratar o álbum do ano como um prêmio pelo conjunto da obra, como fizeram com Steely Dan em 2001, por Two Against Nature (derrotando Eminem e Radiohead) e Beck, com seu disco Morning Phase (superando Beyoncé) no ano passado. 

Eu já obtive bons resultados ao prever que o álbum com a canção mais antiga venceria. Isso aconteceu com Unforgettable...With Love de Natalie Cole, Unplugged de Eric Clapton e até com MTV Unplugged de Tony Bennett, na década de 1990, chegando à trilha sonora de E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?, Genius Loves Company de Ray Charles, River: The Joni Letters, de Herbie Hancock; e Raising Sand, de Robert Plant e Alison Krauss, neste século. Eles não escrevem como antes, reclamaram os votantes do Grammy.

Outro fator é o emprego de músicos de estúdio (e eleitores do Grammy), particularmente em Los Angeles, que podem ter pendido a balança tanto para Toto em 1983 quanto para Daft Punk – que obviamente viu a luz após seus pecados de produção eletrônica e desumana, em 2014.

Mas nenhum desses elementos parece decisivo neste ano, com cinco álbuns, todos com canções novas. Os álbuns indicados de Taylor Swift e Weeknd apoiam-se na fábrica de hits do produtor Max Martin; Alabama Shakes é auto contido; Chris Stapleton, o grande vencedor da Country Music Association deste ano, gravou todo seu álbum com uma banda. To Pimp a Butterfly, de Kendrick Lamar usa uma ampla variedade de músicos, dentre eles algumas estrelas do jazz e alguns importantes músicos de estúdio. 

Seria maravilhoso se isso ajudasse o denso, progressivo, impressionantemente ambicioso álbum de hip-hop de Lamar prevalecer sobre seus concorrentes, muito mais pop. 

Como o Arcade Fire conquistou o álbum do ano? Ainda é um mistério. Dentre os demais indicados em 2011, talvez Lady Gaga e Katy Parry tenham dividido o voto pop, Recovery de Eminem foi uma decepção, apesar da manutenção da marca; e Lady Antebellum não havia cruzado o país. Arcade Fire ainda é uma banda que toca seus próprios instrumentos e são muito respeitosos em relação ao álbum como uma forma artística. Independentemente de como tenha acontecido, o Arcade Fire tirou o máximo de sua perplexidade. 

A lista de agradecimentos claramente não havia sido preparada; Butler também ficou boquiaberto e então, impulsivamente, anunciou: “Vamos tocar outra canção, porque gostamos de música”.

Barbra Streisand e Kris Kristofferson deram afobados “boa noite” enquanto a banda se dirigia para seus instrumentos; os fãs foram para a frente já que, supostamente, a maioria dos convidados Vips havia ido para festas pós premiação. Butler colocou seu Grammy num amplificador e, recém-ungido pela indústria da música, começou a tocar Ready to Start. “Empresários bebem meu sangue”, cantou ele, suado e sorridente, “como crianças da escola de artes disseram que aconteceria”. TRADUÇÃO DE PRISCILA ARONE

 

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