Com 'Loki?', Arnaldo Baptista mostrava que não conhecia limitações

Músico abriu uma Caixa de Pandora às avessas, que liberou todas as aspirações sonoras, um portal para a imaginação

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

22 Junho 2014 | 02h06

''Sinto o pulso de todos os tempos comigo", canta Arnaldo Baptista em Desculpe, uma das 10 pérolas de Lóki? (1974), disco que equivale a um ticket para viajar no cosmos sem auxílio de qualquer nave. Tinha razão o Arnaldo: seu visionarismo era sem paralelo no pop internacional. Com Loki?, Arnaldo Baptista mostrava que não conhecia limitações culturais - ele abriu uma Caixa de Pandora às avessas, que liberou todas as pirações sonoras, um portal para a imaginação.

Beatles e Beach Boys trilharam caminhos revolucionários para o pop com a compreensão de um universo cultural anglo-saxão (com alguma concessão à psicodelia indiana, no caso dos Beatles, e ressonâncias orquestrais). Arnaldo não conhecia alfândega. Um toque sinfônico e uma varredura de boogie-woogie em Uma Pessoa Só; um canto de gregoriano doido em Te Amo Podes Crer: tudo o alimentava.

Usava o rock'n'roll como uma ponte pênsil sobre um abismo de experiências híbridas. A faixa-chave, Cê Tá Pensando Que Eu Sou Lóki?, é uma sambossa com um bafejo de jazz west coast. "A gente andou, a gente queimou muita coisa por aí", ele canta, com uma entonação de crooner de inferninho.

O disco tinha, além de Arnaldo (tocando piano, órgão, clavinet, sintetizador, violão de 12 cordas e cantando), o baixista Liminha, o baterista Dinho Leme e dois convidados (Rafa, também no baixo, e Rita Lee nos vocais de apoio em duas canções). Foi produzido por Mazzola e Menescal e teve arranjos de Rogério Duprat. Mas era tão exígua a banda que Tom Zé, em texto escrito para a divulgação do trabalho, se espanta. "É só piano, bateria e voz? Parecia uma dúzia de assassinos. Música? Nunca mais. Nunca mais faço uma. Ainda bem que esse disco me pariu de novo", brinca o baiano.

"Ainda bem que eu não tenho cabeça", dizia o verso de Arnaldo Baptista. Além da invenção, ele carregava consigo a mensagem de desregramento que equivalia à de Timothy Leary - à abertura artística deve corresponder também o arrombamento das portas da percepção. Ou isso ou a caretice institucionalizada.

Em plena ditadura militar, Lóki? era um disco com um grau de abstração mais subversivo do que muito álbum de protesto. Mas suas letras, de vez em quando, mostravam que ele não estava vivendo numa bolha. "Quem já dançou sempre tem medo dos homens, baby. Eu vou mais é me afundar na lingerie", dizia a letra.

"Tamo numa boa pescando pessoas no mar", ele repetia, sob uma base improvisacional que parecia evocar as invenções de Zappa. O orientalismo da introdução ao violão em É Fácil não é mero exibicionismo: a vibração do aço vai passando da Índia para o blues, daí para o universo da canção tradicional brasileira, até desaparecer em um fiapo de "é fácil, é fácil...".

Em novembro do ano passado, toda a obra solo de Arnaldo Baptista, após mais de 30 anos fora de catálogo (com um minucioso trabalho de regularização e recuperação que levou três anos) voltou ao mercado, relançada digitalmente. A cada recital do mutante pelo País, a gente sente a maravilha que foi essa sua viagem pelo futuro. "Não gosto do Alice Cooper. Onde é que está meu rock'n'roll?"

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