Coletivo Rimas & Melodias, que une artistas, cantoras, rappers e DJ, lança álbum

Coletivo Rimas & Melodias, que une artistas, cantoras, rappers e DJ, lança álbum

São vozes, de cantoras e rappers, entrelaçadas, unidas por uma ideia em comum; elas cantam (e rimam) sobre o que está ao redor, sobre ser mulher, ser negra, ser rapper ou cantora

Pedro Antunes, O Estado de S.Paulo

09 Outubro 2017 | 04h01

No estúdio localizado no centro da cidade, sete artistas se encontravam todos os dias. Tinham sete datas para trabalhar ali, entre composições e gravações, tudo ao mesmo tempo. E saíram de lá com sete canções. Sete, sete, sete... O número, se estivesse no título do disco de estreia do coletivo Rimas & Melodias, lançado recentemente, faria sentido. “Temos uma coisa com o número sete”, brinca a cantora de R&B Tatiana Bispo, uma das integrantes do grupo. 

Para a estreia, contudo, as sete (olha o número aí, de novo) optaram por dar o mesmo nome do projeto. Reforça a ideia de quem são, o que querem, o que fazem. Porque o Rimas & Melodias é isso: rimas e melodias, o rap e o R&B, o verso falado e o cantado. São vozes, de cantoras e rappers, entrelaçadas, unidas por uma ideia em comum. Cantam (e rimam) sobre o que está ao redor, sobre ser mulher, ser negra, ser rapper ou cantora. Evocam origens, relatam suas lutas. Esfregam, sem dó do patriarcado, abusos e gritos de vitória. Para o cartão de visitas do seu poderio, aperte o play nas músicas Origens e Manifesto/Pule, Garota, canções com as participações de todas. São potentes manifestos das sete: Alt Niss, Drik Barbosa, Karol de Souza, Stefanie, Tássia Reis, Tatiana Bispo e a DJ Mayra Maldjian. 

O coletivo nasceu “naturalmente”, como explicam, em entrevista ao Estado. “Essa palavra (naturalmente) você vai ouvir muito”, completa Tatiana. Foi criado por uma vontade mútua, a partir de conversas entre Tatiana e Mayra – a última, DJ do grupo e jornalista, já havia entrevistado as seis futuras companheiras. 

Em 2015, Tatiana queria criar um cypher (vídeo com vários rappers reunidos, rimando, bastante popular no universo do hip-hop), mas que abraçasse também cantoras. Tinha, em mente, o nome das cinco mulheres com quem queria trabalhar, ao lado de Mayra. “Tínhamos afinidade musical”, explica Tatiana. “E todas aceitaram”, relembra. Mayra, DJ desde 2008, completa: “Conversávamos muito, Tati e eu, e eu percebia que, no hip-hop, não existia uma cena declarada de R&B. Havia, claro, cantores e produtores com essa sonoridade, de neo soul, mas não nessa linha. Eram cantores e cantoras que ficavam como coadjuvantes, sabe?”. Dessa inquietude, vem a fusão do cantar e rimar que está na essência, no DNA do Rimas & Melodias. “Colocamos no papel e tiramos do papel”, brinca Mayra. As futuras integrantes do coletivo receberam o convite – e a ideia de gravar o primeiro vídeo em 2016. Todas aceitaram. 

Publicado no YouTube em maio daquele ano, o cypher beira as 100 mil visualizações até a publicação deste texto. “A resposta foi muito positiva e completamente orgânica”, lembra Tatiana. Um vídeo se tornou dez. E passaram a fazer shows. “Fizemos uma festa de lançamento, em comemoração aos vídeos. Percebemos que poderíamos ir mais longe”, diz Tatiana. A rapper Stefanie recorda que a reação do público foi importante para entender o alcance do Rimas. “Foi quando caiu a nossa ficha, mesmo”, afirma. “Foi natural”, diz Drik Barbosa, que canta e rima, repetindo a tal palavra, como previu Tatiana, e segue: “Percebemos como a gente funcionava bem junto. Era algo que iria além de trabalho.”

O passo seguinte foi o disco e reunir as sete personalidades artísticas distintas (sob a direção musical de DIA, produção de Grou). Os temas que seriam abordados estavam estabelecidos, os beats, já criados. De resto, era tudo livre. Durante sete dias, no Red Bull Studio, na feitura das sete canções, as sete se revezavam ao microfone – a repetição é proposital, ok? Por vezes, não sabiam o que a outra iria cantar ao entrar na sala de gravação. Ao fim das canções, aplaudiam a companheira do outro lado. Artistas distintas, com musicalidade e ancestralidade particulares, elas caminham, correm e deslizam, pelo mesmo discurso – embalado com rap, R&B, trap, soul. O que cantam/versam é diretamente ligado à aridez contemporânea. Enquanto o mundo se divide, artistas se separam e o discurso é do “cada um por si”, o Rimas & Melodias faz o inverso. 

Há uma urgência sentida nos versos vorazes e sem concessão. “É sobre lutar, sobre nos amar / É sobre viver e sobreviver”, canta o refrão da música Coroação. Rimas & Melodias, o disco, é isso. É um manifesto sobre um 2017 que precisa mudar, pensar e dançar. O discurso é conectado com o seu tempo. Do início, com o improviso na música Rimas & Melodias, ao discurso da acadêmica Djamila Ribeiro, no encerramento de Manifesto/Pule, Garota: “Então fale, destranque, deságue / Dá medo, eu sei, mas fale / Às vezes a gente acha que o muro é muito alto / Mas pule, garota / Você não vai nem arranhar os joelhos”. De mãos dadas, elas pularam.

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