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Clementina de Jesus inspira projetos e relançamento de seus discos

- Atualizado: 14 Março 2016 | 19h 51

Perto dos 30 anos de sua morte, cantora ganha filme, peça, DVD e CDs

RIO - Uma biografia, um filme, uma peça de teatro, um DVD e o relançamento de sua discografia. A morte de Clementina de Jesus faz 30 anos em 2017, e seu legado inspira projetos em gestação e já em cartaz, mobilizando diferentes gerações. O livro Quelé: A Voz da Cor está sendo escrito a oito mãos por jovens jornalistas, três deles nascidos depois de sua partida.

O grupo de amigos de faculdade começou há cinco anos a levantar informações sobre a vida e a carreira da cantora de voz e interpretações singulares, nascida em 1901 em Valença, no Vale do Café fluminense, neta de escravos e intérprete revelada só na velhice.

Uma lacuna que persiste é o período de 23 anos, entre 1940 e 1963, em que ela trabalhou como doméstica. Para chegar à casa de Dona Glorinha, a patroa, os pesquisadores espalharam cartazes pelo bairro do Grajaú, na zona norte do Rio, onde ela morava. A intenção era conseguir encontrar algum filho ou neto da empregadora, que desdenhava do modo como a empregada cantava, durante o trabalho – “Clementina, você está cantando ou miando?” – para colher relatos sobre seu ofício.

Retrato. Clementina de Jesus em 1979, por Walter Firmo
Retrato. Clementina de Jesus em 1979, por Walter Firmo

“Não conseguimos achar nada. Só gente adicionando no WhatsApp para mandar mensagens dizendo: ‘Nossa, sou muito fã da Clementina!’”, conta Janaína Marquesini, autora do livro, com Raquel Munhoz, Felipe Castro e Luana Costa, a ser lançado ainda este ano pela Editora Record. Outra tentativa foi levantar todas as mulheres de nome Glória na Igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, no coração do Grajaú, que se casaram ou batizaram filhos entre 1920 e 1960, um trabalho intrincado ainda em andamento.

A pesquisa levou a uma suposição sobre o LP O Canto dos Escravos, lançado em 1982. O disco compila cantos ancestrais de negros, ao som de percussão, entoados por Clementina, o cantor e militante do movimento negro Geraldo Filme e Tia Doca, pastora da Portela, e os autores acreditam que Clementina, talvez sem saber, recuperou cânticos da mesma região da África da qual sua família descende: Angola e Congo.

“É possível que esses cantos fossem de rememoração, porque eram cantados por sua avó e sua mãe”, acredita Luiz Antonio Pilar, diretor de cinema e TV que se dedica à temática afro-brasileira e que está roteirizando um cinebiografia de Clementina, num trabalho dividido com o escritor Paulo Lins.

Seu eixo é justamente a trajetória feminina de avó, mãe e filha, ligada a serviços subalternos. “O que liberta Clementina é o canto, a memória de sua raiz cultural”, ele crê. Pilar pretende fazer testes no Brasil inteiro para chegar às atrizes que interpretarão a cantora.

Em cartaz desde 2013, o musical Clementina, Cadê Você? destaca também o relacionamento com o marido, Albino Pé Grande, e sambistas como Heitor dos Prazeres e Aniceto. Vivida pela atriz Ana Carbatti, ela se apresenta: “Clementina de Jesus, do mundo, preta velha, mais uma, e uma preta pode falar de si, sem mistério, sem prosa cheia, sem rodeio”.

“Fizemos uma dramaturgia de lembranças, mais do que uma biografia”, define o autor, Pedro Murad, que usou palavras da própria, extraídas de entrevistas, como a dada ao jornal O Pasquim em 1972. “Ela é a essência do Brasil dos anos 1950/1960, o meio do caminho entre o arcaico africano e a urbanização”, considera. Com direção de Duda Maia e direção musical de Pedro Miranda, a peça segue para apresentações em Vitória, Campinas, São José do Rio Preto e Belo Horizonte.

O compositor Hermínio Bello de Carvalho, que “descobriu” Clementina aos 63 anos, ao ouvir sua voz numa festa na Igreja do Outeiro da Glória, santa da qual ela era devota, a pegou pela mão e a apresentou ao mundo, acredita que o fascínio que ela ainda exerce “não se explica”.

Ele se encantou pela “Cinderela ao revés, negra e idosa” numa época em que “ela nem sequer aparecia como personagem secundário nos compêndios oficiais que abordam a indústria cultural, já que era apenas e tão somente uma obscura figurante naquela casa do subúrbio onde ganhava seus trocados como doméstica, lavando, passando e engomando roupas”, como diz o texto que escreveu para o projeto da biografia. “É uma figura querida e de muito carisma e força”, demarca Hermínio.

A gravadora Universal pode vir a corrigir em breve uma desventura. Os 11 discos de Clementina ou com sua participação estão todos fora de catálogo. A gravadora estuda a possibilidade de relançá-los numa caixa especial.

O neto Bira de Jesus, produtor de eventos que acompanhou a avó em shows e viagens desde criança, sonha com um DVD com artistas cantando músicas emblemáticas do repertório de Clementina, como Marinheiro Só e Benguelê, e canções em sua homenagem. “Já acertamos a participação de Diogo Nogueira, Monarco, Alex Ribeiro e Nelson Sargento, mas ainda busco patrocínio. Tudo o que faço é para que o nome dela não seja esquecido, e não pelo dinheiro. Se ela mesma não enriqueceu, eu vou querer?”

QUEM É?

Clementina de Jesus (1901-1987) aprendeu cantos de trabalho, sambas e jongos com a mãe, filha de escravos. Era portelense e viveu na Mangueira. Foi revelada ao País aos 63 anos e não teve grande sucesso comercial, mas se tornou referência do canto negro.

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