LECO DE SOUZA/DIVULGAÇÃO
LECO DE SOUZA/DIVULGAÇÃO

Cena independente preparou São Paulo para o line-up criativo do Dekmantel Festival

Festas como a Carlos Capslock, Mamba Negra, ODD e Selvagem se espalharam e conquistaram milhares

Claudia Assef, Especial para O Estado de S. Paulo

02 Fevereiro 2017 | 08h20

Primeiro, o gigante acordou. E o que ele fez imediatamente depois? Foi dançar numa das muitas festas realizadas nos quatro cantos de sua cidade, São Paulo. Apesar da crise, os últimos dois anos foram marcados por uma verdadeira proliferação de novos labels (marcas) e núcleos de festas na cidade que sempre foi reconhecida por ter uma noite efervescente e plural.

A chegada de novos produtores de festas – que não se restringem apenas ao techno, apesar de o gênero ser uma espécie de hino da geração – ampliou ainda mais a fartura da famosa “night” paulistana e deu um forte chacoalho na estética do VIP, dos drinks “piscantes” e de todos os outros acessórios da moda ostentação, que vinham pendurados como se fossem um Rolex reluzente nos reis do camarote. 

Os primeiros coletivos apareceram em meados dos anos 2000, com algumas festas gratuitas nas ruas de São Paulo. Entre os mais antigos estão núcleos como o Barulho.org, Dubversão e Voodoo Hop, todos com forte discurso político sobre ocupação da cidade. 

Mas foi no início desta década que São Paulo começou a ser tomada por mais e mais núcleos festeiros, que imprimiram nos moradores da cidade aquela vontade louca de estar nas ruas fazendo algo além de usá-las como via de passagem. Surgiram então Selvagem, Capslock, ODD, Metanol, Free Beats, Venga Venga, Mamba Negra, Dûsk, Dsviante, Vampire Hauss, etc., cada festa com seu público, seus modismos, suas músicas próprias. 

Nos últimos dois anos, as festas que antes rolavam nas ruas migraram para galpões e prédios desativados e, apesar do visual abatido das construções onde acontecem, ganharam força, profissionalismo e muito público. 

Novos núcleos se uniram aos que já que estavam no braço de ferro entre ostentação e boa música, e a noite de SP voltou a ser um dos principais pontos turísticos para os forasteiros.

“São Paulo tem uma cena nova que está florescendo, com muitos produtores independentes fazendo festas todo fim de semana. Isso nasceu aqui e está se difundindo Brasil afora, para cidades como Belo Horizonte, Florianópolis, Rio de Janeiro, Curitiba”, explica Paulo Tessuto, DJ dos mais requisitados dessa cena e criador da Carlos Capslock, uma das festas mais emblemáticas de techno da cidade. 

“Estamos atingindo um ponto de profissionalismo bem importante. É uma grande responsabilidade fazer eventos para muita gente, é necessário que se preze pelo bem-estar e pela segurança das pessoas. Seria bem importante podermos contar com o apoio do governo, para aumentar ainda mais esse nível de profissionalização dos eventos”, diz Tessuto, que chega a receber cerca de 2 mil participantes em sua festa.

“2015 e 2016 foram muito importantes no processo de construção da cena, principalmente na profissionalização das festas e na valorização financeira dos artistas. Hoje, temos cachês bons, sound system perfeito, segurança, bombeiro, alvarás, assim como os clubes. Acho que é uma cena que ainda tem muito para crescer, porque temos 20 milhões de habitantes na cidade e umas 2 ou 3 mil pessoas que frequentam a noite, mas estamos num processo de crescimento”, diz L_cio, produtor e DJ que é um dos nomes que mais se veem nos line-ups das festas, atração também do festival Dekmantel. “SP é uma cidade onde as pessoas têm muito acesso à informação. Tem tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo que a cidade acaba sendo muito de vanguarda, mesmo sendo desigual”, conclui o produtor paulistano. 

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Para a criadora da festa Dûsk, a DJ Amanda Mussi, o mais legal da noite de São Paulo é a diversidade. “Acho que é a coisa mais interessante, muitos nichos se misturam e as pessoas estão cada vez mais livres.”

“A escala que SP impõe a seus sobreviventes escancara a demanda por cultura enquanto questão social, praticamente de saúde pública”, argumenta Laura Diaz, que criou a festa (e agora selo musical) Mamba Negra com a amiga Carol Schutzer, a Cashu. “É sintomático que na cidade com menos espaço público a demanda seja tão massiva e feroz. Acho que o poder público se utiliza da desarticulação das cenas em outras cidades para continuar com suas políticas retrógradas e escassas de incentivo à cultura. Sem dúvida, São Paulo sofrerá um retrocesso político em todos os sentidos.”

Diversidade, liberdade, transgressão, pista lotada de gente dançando (e não apenas bebendo ou conversando), montação, locações das mais diversas. A pluralidade da cena noturna de São Paulo foi fator determinante para atrair o crew do Dekmantel. Um de seus porta-vozes, o holandês Matthijs Theben, ficou impressionado com o que encontrou por aqui quando visitou a cidade pela primeira vez, em 2016. 

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“Pouca gente na Europa tem ideia do que está acontecendo em São Paulo”, diz. Mais importante ainda foi a sintonia com os DJs do Gop Tun, núcleo de festas que, ao longo de cinco anos, trouxe um público novo para ouvir suas pesquisas musicais, que vão de techno a disco music, e que agora assina a produção do Dekmantel junto com os holandeses. 

O primeiro capítulo desse namoro é o que veremos neste fim de semana. Ansiedade define. 

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