Paul Bergen/EFE
Paul Bergen/EFE

Carlos Santana, aos 70 anos, diz que se sente com 17

O músico faz turnê mundial e produz documentário sobre a ativista Dolores Huerta

David Villafranca, EFE

01 Abril 2018 | 18h27

LOS ANGELES - Carlos Santana, que deixou por um momento a guitarra para ser produtor de um documentário sobre a lendária ativista Dolores Huerta, conserva, aos 70 anos, a mística que o tornou único e disse à EFE que continua trabalhando como um jovem para que “a luz do amor” mude “a escuridão do medo”.

+++Carlos Santana quer ser lembrado como uma pessoa inspiradora

“Nada me dá mais força, como dizem na rua, do que encarar de frente a escuridão. Isso me dá energia. Eu tenho 70 anos no meu corpo, mas no meu espírito sinto que estou com 17 anos e estou pronto para encarar um trabalho”, disse ele o carismático músico latino em uma entrevista por telefone.

Dolores é o título do documentário que Santana, nascido em Autlan de Navarro, México, em 1947, produziu sobre Dolores Huerta, uma importante figura na luta pelos direitos civis nos Estados Unidos que, com César Chávez, ativista e líder sindical morto em 1993, liderou protestos do movimento de cidadãos norte-americanos de origem mexicana pelos direitos dos agricultores de origem latino-americana desde a década de 1960. Nascida no Novo México, Dolores Huerta completa 88 anos no dia 10 de abril.

Sob a direção de Peter Bratt, irmão do ator Benjamin Bratt, Dolores estreou no ano passado, recebendo o aplauso dos críticos, e chegou à TV dos EUA no dia 27 de março, pela rede PBS.

“Nunca pensei em fazer essa transição da música para o cinema. O que acontece é que o natural para mim é oferecer meus serviços à ‘rainha da luz’”, argumentou Santana, referindo-se a Huerta com devoção. 

Após chegar muito jovem a São Francisco, Santana deu seus primeiros passos musicais no grupo Santana, banda crucial na fusão de rock psicodélico com sons latinos, e, ao mesmo tempo, entrou em contato com a contracultura hippie e o movimento de cidadãos norte-americanos de origem mexicana, no qual Huerta era uma referência.

“É uma coisa muito normal e natural usar essa energia, à qual as pessoas se referem como dinheiro, para fazer uma oferta de amor à nossa rainha. Ela é minha rainha: da igualdade, da justiça, da integridade. É muito importante para mim que mais e mais seres humanos saibam quem ela é, especialmente os de origem latina, porque eles não sabem”, disse ainda ele.

Huerta, que recebeu em 2012 a Medalha Presidencial da Liberdade dos Estados Unidos, fundou com Chávez o sindicato hoje conhecido como a União dos Camponeses (Union of Farm Workers, UFW), e o exemplo de seu ativismo incansável foi refletido em seu famoso slogan “Sim, você pode”.

“Foi ela que inventou o ‘sim, você pode’ porque muitas pessoas se separaram, ficaram para trás. Mas ela não recua, ela se lança para a frente”, afirmou.

“Graças a Deus tive a oportunidade de compartilhar com ela os mesmos princípios de como protestar contra as injustiças, com ela e com o outro mestre, César Chávez”, lembrou Santana.

O músico também explicou de onde se origina o seu compromisso social: “Minha mãe e meu pai nos ensinaram que é importante sentir a dor dos outros. Alguém vem para cá (para os Estados Unidos) melhorar, é claro, e quando começa a se levantar, é importante ajudar outras pessoas para que não sofram e tenham mais possibilidades e oportunidades para triunfar”.

Toda vez que Carlos Santana fala sobre Dolores Huerta, que continua com uma atividade incrível em diferentes causas, ele o faz para dedicar-lhe elogios e mais elogios. “Ela representa uma ponte de futuro para todas as mulheres. Ela é como Bob Marley, como John Lennon, como Martin Luther King”, afirmou ele antes de mencionar que Huerta precisou derrubar duas barreiras: ser uma cidadã norte-americana de origem mexicana e ser mulher. “O futuro são as mulheres, o amor delas, a compaixão delas, sua determinação. O machismo é uma palavra que para mim representa o medo”, argumentou.

E, novamente, retornou aos ensinamentos espirituais que o marcaram tanto em sua vida quanto em seu trabalho musical: “A coisa não é complicada porque existem apenas duas coisas neste planeta: amor e medo. E ela oferece seu amor completo, solidário e incondicional”.

Dentro dessa batalha mística entre a luz e a escuridão, Santana disse que os Estados Unidos agora estão “piores do que nunca”, pois no país se promove “muito divisão, muita superioridade e inferioridade”. “O mais importante é que nós precisamos nos unir e, com graça, elegância, honra, força e inteligência, devemos transformar o medo das pessoas”, ressaltou ele diante dos desafios dos latinos, sob a polêmica presidência de Donald Trump.

A Santana não parecem faltar nem a força nem a vontade de continuar de pé com sua guitarra, já que em 2017 lançou o álbum Power of Peace com The Isley Brothers e este ano planeja continuar com seus shows em todo o mundo.

No entanto, o artista minimizou o fato e garantiu que seu segredo responde a forças sobrenaturais: “Eu encontro inspiração e motivação dando graças a Deus, porque quanto mais você dá graças a Deus, mais energia você recebe, mais inspiração”. / Tradução de Claudia Bozzo 

Mais conteúdo sobre:
Carlos Sant`anna música

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.