Thomas Neukum
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Caribou volta a São Paulo para provar que existe, sim, calor na música eletrônica

Projeto do canadense Dan Snaith interrompe pausa da gravação de novo disco para voltar ao Brasil pela segunda vez

Pedro Antunes, O Estado de S.Paulo

20 Março 2017 | 04h00

No festival Primavera Sound, em Barcelona, de 2015, uma multidão maior do que o esperado começou a se reunir em frente ao palco onde o Caribou, projeto criado e liderado pelo canadense Dan Snaith, se apresentaria. Era a terceira e última noite de festa. O The Strokes já havia encerrado as atividades do palco principal. Underworld, duo eletrônico dos anos 1980, e os californianos bons de guitarra do Thee Oh Sees também haviam terminado suas performances em palcos menores. Depois de Caribou, apenas alguns DJs manteriam a música martelando pelo Parque del Fórum, ao lado do oceano. 

Quem esteve lá lembra da comunhão entre público e banda no palco, união quase hipnótica criada pelas batidas repetidas, em canções longas e nada muito aceleradas. O Caribou de Snaith, informalmente, encerrou um dos maiores festivais de música do mundo para os curiosos que, no ano anterior, havia lançado o ótimo disco Our Love, considerado um dos melhores de 2014. 

E o Caribou, que parecia ser aquela banda que jamais iria estourar a própria bolha indie, o fez, graças ao sucesso extraordinário de Can’t Do Without You, uma música de amor como poucas feitas por Snaith. É essa canção que mudou o jogo do Caribou, aqueceu os corações com a sintética e constantemente fria música eletrônica. Com esse hit, Snaith encontrou o caminho para a quentura nesse gélido mundo da eletrônica. 

Por isso, ao voltar a São Paulo sete anos depois – para um show no Cine Joia, na quarta-feira, 22, como parte do festival Popload Gig –, o Caribou não é mais o mesmo. Our Love é um álbum daqueles que transforma uma banda. Se a fama não é extrema – afinal, Snaith não é nenhuma Beyoncé –, Can’t Do Without You deveria estar tocando nas rádios populares. É uma música eletrônica mais tocante e legítima do que, por exemplo, Hear Me Now, o sucesso farofa do DJ brasileiro Alok, atualmente um hit mundial. 

Caribou toma a frente, atualmente, de uma vertente inteligente da música eletrônica ao fugir das obviedades – não me façam comentar o assobio de Hear Me Know, por favor – e o faz no tempo certo, de acordo com o próprio dono da banda. “São mais de 15 anos fazendo música. Acho que certas coisas têm um tempo certo para acontecer”, conta Snaith ao telefone, de Londres, onde mora, com a esposa e a filha. “Acho que tudo para a gente mudou de forma gradual. Quando Our Love saiu, contudo, percebi uma mudança maior. O nosso público começou a ficar cada vez maior. Can’t Do Without You foi realmente importante para essa transição”, analisa. 

A canção citada por Snaith foi a primeira a ser lançada do novo disco. A letra se resume a repetir o título da canção, que em uma tradução livre para português pode ser entendia como “não consigo seguir sem você”, enquanto a atmosfera da canção cresce e se apaga com o acréscimo de camadas de texturas e batidas. “Fiz essa música quando minha filha nasceu. Aquilo mexeu comigo.” 

Snaith nunca foi um autor de canções pessoais. É algo que, graças ao caráter etéreo da música eletrônica, fica para segundo plano. Ao repetir, como um mantra, uma declaração de amor das mais sinceras, ele inverte o jogo. Martela o amor na cabeça daqueles que estão acostumados apenas com as marteladas dos beats e dos graves. “Falar de amor não me interessava até então porque me pareceria brega”, ele explica. “Comecei a pensar nas formas como nos relacionamos com as pessoas, na intensidade como isso acontece. Depois de tantos anos viajando e conhecendo as pessoas, percebi que o que mais gostaria de fazer é me conectar com elas.” E foi o que ele fez em Barcelona e fará, nesta semana, em São Paulo. 

POPLOAD GIG COM CARIBOU

Cine Joia. Praça Carlos Gomes, 82, Liberdade. Tel. 3101-1305. 

4ª (23), 22h30. R$ 240. Abertura de Aldo the Band, às 21h. 

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