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Brasil está em débito com Cartola

Agencia Estado

27 Dezembro 2000 | 22h 22

Vinte anos sem Cartola mereciam mais. Mas o ano termina e pouco se falou do aniversário da morte do compositor, que legou ao Brasil sambas geniais. Cartola não cobraria homenagens. Uma crônica de Drummond escrita três dias antes de sua morte já avisava que ele tinha ?a elegância moral de Pixinguinha?. Negro, magrela, nariz deformado, ex-ajudante de pedreiro, vendedor de picolés, ator de pontas de filmes, ajudante de pai de santo e lavador de carros que só concluíu o primário, ía ser difícil virar alguém num país como o Brasil. Mas Cartola e seu lirismo erudito acabaram identificados com o som do próprio Brasil. Então, por que o silêncio? Duas coletâneas foram lançadas, com registros do próprio Cartola, pela EMI e a Kaurup. O Museu da Imagem e do Som carioca organizou exposição, ciclo de palestras e transformou seu pátio numa réplica do restaurante que Cartola teve com a mulher, dona Zica, de 1962 a início de 1965, reduto da resistência política e cultural. E a TV Cultura reproduziu um programa feito em 1974 sobre o compositor. Mas a biografia Mestre Cartola, O Canto Sem Idade, que seria feita por Carlos Alberto Carvalho para a editora Revan, não saiu por falta de patrocínio. O rolo de três horas gravado nos anos 60 por Sérgio Porto com registros tão raros de Cartola que até ele recorria a elas quando se esquecia das próprias músicas, permanece inédito nas mãos do fotógrafo e colecionador Humberto Franceschi. Ainda está no papel o projeto de Afonso Machado de publicar um livro com melodias, letras e cifras das 140 composições de Cartola, 53 inéditas mais 35 cujas músicas se perderam. E o primeiro filme de longa metragem com o nome de uma de suas músicas, Peito Vazio, sobre a vida do compositor, que deveria celebrar esses 20 anos de ausência, empacou por falta de verba e aguarda notícia dos interessados. Os roteiristas e diretores do filme, Lirio Ferreira e Hilton Lacerda, são pernambuncanos de 35 anos. Tinham 15 quando Cartola morreu. Mas ouviam muita serenata e têm Cartola na memória. Eles não entendem o porquê de tanta demora. ?Se fazem um longa sobre a vida do Benny Goodman nos Estados Unidos, porque o Brasil não consegue fazer o seu sobre Cartola??, lamenta o consultor do filme Elton Medeiros, amigo de fé e parceiro de Cartola em preciosidades como O Sol Nascerá (?A sorrir/ Eu pretendo/ Levar a vida/ Pois chorando/ Eu vi/ A mocidade perdida?). Não consegue. Orçado em pouco mais de RS$ 700 mil, Peito Vazio já mudou o título para Cartola, perdeu os 20 anos de morte, e não saíu. Morreram a histórica dona Neuma, que Cartola ajudou a criar, filha do primeiro presidente da Mangueira. Também o concunhado Carlos Cachaça e o amigo Zé Keti, sem dar seus depoimentos. Se demorar, morre mais gente. Dona Zica, a viúva de Cartola, tem 86 anos, e o próprio Elton, 70. O projeto, entregue à produtora carioca Raccord, prevê a filmagem em cinco semanas a partir do próximo carnaval, quando a Mangueira desfilar mais uma vez nas cores inventadas por Cartola, verde e rosa. Lirio e Hilton querem várias ousadias, como câmeras digitais e filmagens em diversas bitolas ? 8, 16 ou 35 mm ?, intercalando com o curta de 74 Chega de Demanda ? Cartola, de Roberto Moura. E sempre registrando a cores ou preto e branco entrevistas com pessoas que conviveram com Cartola. Com várias tendências: o som puro de Cartola misturado ao eletrônico de Otto, e ao de Dudu Nobre e Carlinhos Brown - além de Paulinho da Viola, Elton... Elton reage. ?Carlinhos Brown é sambista?, sou contra, modernidade não é violentação.? Mas Lirio ? que junto com Paulo Caldas dirigiu Baile Perfumado ? e Hilton insistem em não ter preconceito e vão recorrer a alegorias para fazer um cruzamento de Cartola com a música de hoje. ?Precisamos correr contra o tempo: contar a vida de um dos maiores poetas líricos deste país é contar a história social do Brasil, do Rio onde ele nasceu, do samba e da Mangueira.? A Mangueira desfilou pela primeira vez em 1928 com um samba que Cartola compôs aos 16 anos, Chega de Demanda. E foi ele que deu o nome de Estação Primeira da Mangueira porque, segundo sua própria explicação no livro de Arley Pereira (Sesc, 98) ?contando a partir da Central do Brasil, era a primeira estação de trem onde tinha samba?. Quem vai viver Cartola no filme, não se sabe. Os diretores pensam no cantor Zé Renato e até no jogador Vampeta, do Inter de Milão. Cartola, de qualquer jeito, era único. Até os 50 anos só tinha 14 composições gravadas, por intérpretes como Carmem Miranda e Francisco Alves, muitas vendidas a compositores como Mário Reis e Ataulfo Alves. O primeiro dinheiro que ganhou com a venda de música foi celebrada com a compra de um terno de linho branco, sapato de duas cores, camisa amarela de seda. ?A harmonia de Cartola era diferente?, diz Elton. Cartola se sentava nas escadarias da igreja da Glória para ouvir música sacra e foi ouvindo Haendel, Beethoven, Bach que elaborou a erudição. Tudo nele é elaboradíssimo, do encaminhamento melódico à pontuação e pausas. ?Não aprenda mais nada?, aconselhava-o Heitor Villa Lobos, chegado a um cavaquinho, e freqüentador do barraco de Cartola no Buraco do Fedor, no morro da Mangueira, junto de Zé com Fome, Babaú, Heitor dos Prazeres. ?Isto está tudo errado. Mas que beleza.? Foi Villa que levou Cartola e uma equipe de sambistas e chefes de terreiros de umbanda para tocar para Leopold Stokowiski a bordo do navio Uruguai, ancorado no Rio em 1940. O maestro inglês é o mesmo que regeu o clássico Fantasia, de Disney. Ele viajava com a orquestra Sinfônica da Juventude Americana. Foram Donga, Pixinguinha, Zé Espinguela, Paulo da Portela, Cachaça entre outros. Gravaram 40 músicas, 16 editadas pela Columbia em dois álbuns de quatro discos de 78 rpm. Naturalmente sofisticado para um homem que nasceu e morreu pobre, Cartola só foi até o 4.º ano primário mas tinha caligrafia de gente estudada e gostava de ler Olavo Bilac, Guerra Junqueira, Vinícius e Drummond. Dividia tudo o que tinha e sabia, da sopa ao som. A sobrevivência não lhe foi fácil mas Cartola não ficou amargo, foi generoso até o fim. Abrigou a quem pôde no barraco, criou vários filhos de amigos, já que não teve próprios. Fumava cigarros Yolanda ovais, comprados nas tendinhas do Pindura Saia ou do Buraco Quente, ou do outro lado da linha de trem. Era biriteiro, boêmio, mulherengo, torcedor do Fluminense. ?Meus vícios sempre foram fumar, beber, tocar violão e correr atrás de mulher?, Cartola declarou à Última Hora, em 1976, e Marília Barboza da Silva e Arthur de Oliveira Filho reproduziram na biografia Cartola ? Os tempos Idos (Funarte) Da profissão de ajudante de pedreiro, Angenor de Oliveira ganhou o apelido Cartola por causa do chapéu-coco com que protegia a cabeça dos respingos de cimento. Nas pontas que fez no cinema não se tornou galã: foi figurante em Descobrimento do Brasil,em 1938, padrinho do casamento de Orfeu e Eurídice em Orfeu do Carnaval, de Marcel Camus, escravo em Ganga Zumba, de Cacá Diegues, morreu na subida do morro em Os Marginais. Vendeu picolé na rua e trabalhou de ambulante mas foi do ofício de lavar carros que ele despontou para a fama: num botequim em frente à garagem Oceânica da Visconde de Pirajá, onde lavava 11 carros por noite, Sérgio Porto o reconheceu, em 1956. Cartola andava sumido desde a década de 40. O jornalista lhe arrumou a vida: emprego de segurança no Ministério da Indústria e Comércio, depois de contínuo, e a gravação do primeiro disco quando Cartola tinha 63 anos e ele, Porto, já havia morrido. Cartola estava com a sobrevivência garantida. ?Minha vida é como um filme de mocinho. Acabei vencendo quase no final. Tive meningite, fui manco de uma perna, uso óculos escuros porque a vista esquerda não suporta o dia, tive um problema no nariz que ficou escuro, meu corpo pagou muito. Mas, felizmente, agora sou um cidadão respeitado?, declarou à revista Manchete em 1977, três anos antes de morrer. Nesse disco gravado em 1974 pela Marcus Pereira ele ainda revelou-se cantor da suas próprias músicas. Eram pérolas que íam se perder. Cartola é autor de Acontece, As Rosas Não Falam, O Mundo é um Moinho. Teve vários parceiros, Noel Rosa, Carlos Cachaça, Aluísio da Mangueira, Hermínio Bello de Carvalho, Elton Medeiros. E várias desilusões amorosas, um monte de mulheres. ?Aprendi que mulher a gente marca no cabo da espingarda?, foi seu depoimento ao MIS. ?A cada cinco, um risco em diagonal. E moita. Muita moita. Das que eu posso falar, a falecida Deolinda e Zica, minha força de fé.? Com a Deolinda, que ele roubou de um vizinho, ele viveu até a morte dela, por enfarto, em 1946. Com a pastora Euzébia Silva do Nascimento, dona Zica, ficou 31 anos, até o fim. Entre uma e outra, Donária, atrás de quem ele correu de Nilópolis ao Caju e se afastou do morro e do samba até encontrar Zica. E muitos riscos na espingarda no meio do caminho. Foi ?Mestre? e ?Divino? até morrer, aos 72 anos, da expansão de um tumor na tireóide. Era domingo, dia 30 de novembro de 1980. Elton Medeiros não teve coragem de ir ao enterro. ?Cartola, pessoalmente, era um ranzinza, até seco para conversar, mas a gente podia ver o coração dele pulsar.? Fincou-se uma estátua de bronze de 2,20 metros de altura na entrada do morro da Mangueira. A passarela que o ex-prefeito Conde estava fazendo, com o nome dele ainda não ficou pronta. Hilton Lacerda, um dos diretores do documentário sobre Cartola, lamenta: ?Esses 20 anos não foram comemorados?. Elton Medeiros sente muita saudade. Ele guarda na gaveta quatro ?monstros?, rascunhos de músicas que fez com Cartola mas nunca concluíu. O que falta? Ele responde: ?O Cartola?. Elton se declara em estado de viuvez musical que nem esses 20 anos de ausência conseguiram amaciar. Era Cartola no violão, Elton no pandeiro, atabaque, prato-e-faca, no tamborim, na caixinha de fósforo e no que viesse.

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