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Biografia esquadrinha trunfos e fragilidades do Black Sabbath

Jotabê Medeiros - O Estado de S. Paulo

29 Junho 2014 | 07h 00

Lançamento da Editora Globo traz as glórias e insignificâncias da banda que criou o metal escritas por Mick Wall

O jornalista e escritor britânico Mick Wall é uma espécie de Eduardo “Peninha” Bueno da crítica de rock. Peninha tem um livro sobre o Grêmio célebre por uma frase: “Futebol-arte, todo mundo sabe, é coisa de veado!”. Vejamos o que diz o Mick Wall sobre aquela banda que vinha de Birmingham, o Black Sabbath: “Críticos – gente de fora, bichas, principalmente de Londres – simplesmente não conseguiam entender”.

A franqueza por vezes beirando a rudeza é uma das fragilidades e a maior arma também do ex-editor da Classic Rock e autor de biografias do Led Zeppelin, do AC/DC, Metallica e outros. E essa porção está radicalizada no novo livro do biógrafo, Black Sabbath - A Biografia (Editora Globo), um vigoroso trabalho sobre a banda que assentou a pedra fundamental do heavy metal a partir de seu surgimento, em 1968. Ali, ele abre um leque gigante sobre a trajetória da banda, um espectro que vai da glória mais absoluta à insignificância mais atroz.

“Desde que o reality show The Osbournes o transformou num brinquedinho familiar com olhinhos de panda, Ozzy perdeu a credibilidade que tinha como vocalista de rock”, sentencia Wall. Isso não quer dizer nada: apenas que o autor é um realista crônico, mas o Sabbath é um dos seus maiores cultos, ele ama a banda.

Reprodução
Black Sabbath em 1971, em seu auge

Todos nasceram no mesmo ano de 1948, todos cresceram nas mesmas ruas sombrias, vítimas do mesmo ensino austero do pós-guerra e dos bairros pobres – havia uma boa razão para que todos se parecessem tanto, pessoalmente e no palco”, conta o autor sobre Tony Iommi (guitarra), Ozzy Osbourne (vocal), Bill Ward (bateria) e Geezer Butler (baixo).

Ozzy foi creditado como Ossie no primeiro disco. De família operária muito pobre, ele foi “flanelinha” em dias de jogo do Aston Villa – ou o cara dava um shilling para ele cuidar do carro, ou ele destroçava o veículo. Dali por diante, sua entronização como o Príncipe das Trevas parecia natural, quase uma exigência do destino.

Mas a aceitação de sua estética não foi fácil. Eram tão desprezados que sua autoconfiança ficou ferida de morte, no início. “Durante anos, nós simplesmente nos achávamos uma merda – a imprensa nos odiava, dizia que não sabíamos compor, que não sabíamos tocar. Outras bandas nos odiavam, todo mundo”, lembra o baixista Geezer Butler.

Wall assinala que um dos momentos de baixa criativa da banda, em 1975, quando tudo “estava subordinado pela extrema necessidade de simplesmente ganhar dinheiro”, foi também um dos mais relevantes, paradoxalmente. “Um ano depois, grupos como Sex Pistols e The Damned transformariam esses riffs raivosos e as batidas agressivas em virtudes, e seriam creditadas por inventar um novo gênero: o punk rock. Mas isso era Black Sabbath e, naquele ano de 1975, quando todo mundo, de Rod Stewart a David Bowie, estava flertando com a disco, o que eles fizeram parecia desnecessariamente perturbador, antitudo, automutilatório”, escreve.

Wall radiografa todos os 21 integrantes da banda ao longo de sua trajetória (Ozzy foi despedido em 1979 porque, segundo Bill Ward, “era fora do controle demais, até mesmo para nós”). O vocalista que o sucedeu, Ronnie James Dio (Ronald James Padavona), foi autor de uma contribuição universal para a história do heavy metal: foi ele quem inventou o gesto com a mão com os dedos indicador e mindinho em riste, o resto recolhido, como se fossem chifres satânicos. Era um sinal que sua avó siciliana utilizava para afastar o mau olhado. A saudação do chifre do demônio, hoje, qualquer bebê no berçário de maternidade sabe fazer. 

“Com 37 anos na época em que entrou no Sabbath, (Ronnie James Dio) eliminava sete anos de sua idade nas entrevistas”, conta. E também mandou fax para a revista Kerrang! pedindo que parassem de se referir a ele como “diminuto” (tinha 1m62).

Ex-assessor de imprensa de Ozzy, de Dio e do Black Sabbath por cerca de 35 anos, Mick Wall teve mais acesso às suas intimidades do que muita gente das suas famílias, já que estavam sempre na estrada. “Ronnie gostava de fumar maconha e beber cerveja, mas não usava coca, não gostava de Quaaludes ou Mandrax, sedativos poderosos, e não ia atrás de groupies”.

Ele conta episódios dolorosos, não poupa a banda de nenhum detalhe. Não faz biografias chapas-brancas, não alivia para ninguém. Da tentativa de Ozzy de estrangular sua mulher, Sharon, em sua mansão em Buckinghamshire, até os antidepressivos, um acidente aéreo inacreditável, todas as drogas e o sexo, tudo está descrito em minuciosos detalhes.

“Eu me lembro de uma ocasião, estávamos em Virginia Beach. Tinha acabado de falar com minha esposa, desliguei o telefone e alguém bateu na porta. Era uma linda garota que entrou e eu pensei: P..., hoje me dei bem!. Eu a levo para a cama e a gente transa. Ela vai embora. Bam-bam-bam na porta de novo. Achei que ela tinha esquecido algo... É uma garota diferente na porta. Linda pra c... Juro que parecia um anjo. E eu trepo com essa também. Ela vai embora. Bam-bam-bam, e penso: não posso acreditar nisso. Três, cinco garotas entram, e trepo com elas. De onde estão saindo essas garotas?”, indagou Ozzy.

BLACK SABBATH - A BIOGRAFIA 

Autor: Mick Wall. 

Tradutor: Marcelo Barbão

Editora: Globo (360 págs., R$ 44,90)

LEIA TRECHO DE BLACK SABBATH - A BIOGRAFIA, DE MICK WALL:

"No final daquele ano, o Black Sabbath era tronco oco queimado. Eles tinham passado a maior parte do ano em turnê com o Van Halen, que ameaçava fazer mais para desestabilizar o Sabbath do que qualquer quantidade das melhores bandas punk. Com os anos 1970 chegando ao seu inglório fim, nenhuma banda de rock resumia melhor a mudança de guarda do que a rapidíssima Van Halen. Liderada por David Lee Roth, outro palhaço com capacidade vocal limitada, mas apelo convincente, Roth era quase 7 anos mais jovem que Ozzy e 10 vezes mais atlético. O guitarrista deles, Eddie Van Halen, era ainda mais impressionante. A um mundo de distância do tipo de estilo clássico de Iommi com sua orientação ao blues, Eddie tinha levado a guitarra de rock a um novo nível, introduzindo um estilo que iria dominar o futuro, o shredding."

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