Ryan Pfluger/The New York Times
Ryan Pfluger/The New York Times

Billie Joe Armstrong: Um punk que busca serenidade no caos

Líder do Green Day está lançando o novo disco da banda, 'Revolution Radio', e também participando de um filme, 'Ordinary World', em que interpreta um pai punk

Entrevista com

Billie Joe Armstrong

Melena Ryzik, The New York Times, The New York Times

17 Outubro 2016 | 10h54

Billie Joe Armstrong pode ser a maior tripla ameaça do punk rock: o líder do Green Day, que recentemente foi inscrito no Hall da Fama do Rock and Roll; um dos compositores e às vezes estrela de American Idiot, musical da Broadway que está em vias de se tornar um filme da HBO. E protagonista de Ordinary World, filme independente lançado na sexta-feira nos EUA.

Mas não é um especialista em mídia social. “Procuro me atualizar. Entro no Instagram e fico sabendo, alguém me diz, que agora tudo tem a ver com o Snapchat. Ó Deus, quero ficar na idade da pedra. Tenho um pé na idade da pedra e no milênio agora”

Revolution Radio é o novo álbum do Green Day, e o primeiro desde 2000, que a banda (baixista Mike Dirnt e o baterista Tré Cool) mesmo produziu, com um engenheiro. “É um trabalho mais independente, como nunca fizemos”, disse Armstrong em entrevista por telefone.

Ele também vem expandindo seus horizontes com Ordinary World, filme em que interpreta o pai de um sujeito vagabundo que se torna músico e que se joga numa festa de despedida de 40 anos. “Tinha de cuidar da minha barba para o filme. Precisava me barbear da maneira correta a cada três dias. E queria mostrar minha barba grisalha que deixei crescer”.

Ainda com aspecto juvenil aos 44 anos, Armstrong, que se submeteu a um tratamento para se recuperar do abuso de substâncias em 2012, depois de uma crise em pleno palco num festival pop - está às voltas com a sua mudança de geração. A capa de Revolution Radio é um aparelho estéreo portátil em chamas. “É semelhante à sensação do obsoleto, como se estivéssemos entrando no cemitério da cultura pop. Oh! Esta foi boa - cemitério da cultura pop! Vou dizer isto muitas vezes nos próximos dias”.

Ele espera reprisar o papel de St. Jimmy, a má influência que o levou para as drogas, no American Idiot da HBO, ópera-rock baseada no álbum do Green Day de 2004. E credita a ambição de Idiot ao novo auge do sucesso em sua carreira. Mas acrescentou: “não sou rei de nada. Estou na mesma banda de rock do colégio da qual faço parte desde os 16 anos”.

Abaixo trechos da entrevista:

Este é seu primeiro papel em que é protagonista num filme. Você se preparou como ator para ele?

Não que eu fizesse mímica. Eu e Lee Kirk, o diretor, passamos bastante tempo juntos dando corpo ao personagem, colocando as coisas na minha língua. Partindo de experiências próprias, tentei ser o mais honesto possível. Quando você atua no palco se projeta para o fundo da sala, especialmente quando se trata de um personagem como St. Jimmy. Tudo tem a ver com as sutilezas que envolvem representar perante a câmera, o que é difícil para mim, porque sou tudo, menos sutil.

E você estava ao lado de alguns improvisadores veteranos, como Fred Armisen e Judy Greer. Isso o confundiu?

Senti-me um pouco intimidado porque tenho muito respeito por eles. São brilhantes, não são mais ou menos boas no que fazem, mas são ótimas. Todos queriam deixar o ambiente relaxado e alegre. Dois atores que interpretaram pais no filme chegaram e fizemos algumas das cenas, o que foi muito complicado no início, fazer algo que nunca fizemos antes, mas no final senti-me à vontade.

Estamos vendo cada vez mais este tipo de pai não tradicional na tela. Você consegue se identificar?

É uma visão diferente de paternidade, especialmente da de pessoas que foram parte, talvez, da chamada Geração X e estão criando filhos hoje. Não somos nossos pais. Acho que hoje ser pai é mais um exercício de sensibilidade. Meus filhos têm 21 e 18 anos de idade. Foi uma viagem. Eu fui um pai muito jovem.

E seus filhos são músicos? Toca com eles?

Um pouco. Eles costumam mais me mostrar música do que fazer, produzem muitos demos e coisas do tipo por conta própria. Meu filho mais novo, Jakob, está se tornando um compositor realmente bom. Escreve músicas que vêm do coração. A banda de Joey é muito boa e eles são diferentes. Não tem nada a ver com ser uma estrela de rock. Se há alguma coisa que divido com eles é a alegria e o amor proporcionado pela música.

Você estreou na cena punk adolescente, quando havia muita ira juvenil. O que significa para você ser parte da cena punk hoje?

Acho que o punk é muito mais do que ira, raiva. É como o sujeito excêntrico que consegue ter voz pela primeira vez. Pode ser alguém que deseja ter seu próprio fanzine e escrever coisas nas quais acredita, e apesar dos conflitos sempre persiste.

As gravações da Green Day em geral falam de você se sentir perdido, um pouco estúpido, em meio ao caos e a mídia e tudo que muda. E a finalidade deste álbum é encontrar algo que seja atingível, uma espécie de paz ou serenidade dentro do caos. A música Ordinary World basicamente fala disto. Say Goodbye é sobre como Ferguson se tornou este Estado militar e você vê todos os tanques e gás lacrimogêneo. Revolution Radio menciona isto também. Estamos simplesmente refletindo o que vemos e também fazendo uma caricatura disto.

Você toca em temas difíceis no álbum. Bang Bang é uma música da perspectiva de um atirador em massa. É assim tão divertido tocá-la?

Sim, e também difícil. É rápida. É uma libertação para todos que a estão cantando na multidão. Quando você cresce numa era de mídia social, manifestos, assassinatos em massa e narcisismo e esse lado nocivo da vida americana, o que diz sobre coisas como estas? Não tem o que dizer. A melhor maneira que tenho para falar sobre isto é quando faço uma música e esta é uma espécie de libertação que acabou fazendo sucesso junto ao nosso público nos últimos anos. / Tradução O Estado de S. Paulo

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