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AP Photo|Matt Slocum, File

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Beyoncé causa alvoroço nos EUA com postura engajada

Cantora apresentou a nova música 'Formation' no show do intervalo do Super Bowl 50, com referências ao movimento negro contra o racismo

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AFP

10 Fevereiro 2016 | 13h50

A apresentação de Beyoncé no show de intervalo do Superbowl 50 deu o que falar: a cantora americana fugiu do repertório "mainstream" habitual, dando lugar a críticas veladas contra a violência policial e a referências aos Panteras Negras, movimento radical de luta pelos direitos civis.

Na noite de domingo, diante de 111,9 milhões de telespectadores nos Estados Unidos - a terceira maior audiência da história da TV americana -, a estrela cantou sua nova música Formation, lançada na véspera, para a surpresa de todos.

Suas dançarinas usavam boinas pretas e erguiam o punho, como membros dos "Black Panthers", e fizeram uma coreografia na qual formavam um X, possível referência ao líder negro Malcom X, no gramado do Levi's Stadium de Santa Monica, palco da finalíssima do futebol americano.

Beyoncé deveria ter sido apenas a coadjuvante do show comandado pela banda britânica Coldplay, aparecendo nos minutos finais ao lado de Bruno Mars, mas acabou roubando a cena, usando um figurino inspirado em Michael Jackson.

Amplamente divulgado na Internet, o clipe da nova música denuncia a forma como a população negra de Nova Orleans sofreu com as consequências do furacão Katrina, em 2005.

As letras também criticam a violência policial e enaltecem a beleza negra e a cultura afro-americana.

A diva pop de 34 anos, que, ao lado do marido, o rapper e produtor Jay-Z, comanda um império musical avaliado em US$ 1 bilhão, nunca tinha ido tão longe no engajamento político.

Nos últimos anos, ela chegou até a dar uma guinada feminista, mas sua carreira foi construída em cima de hits mais comerciais, que celebram o amor, o glamour e a ostentação.

'Bill Gates negra'. Em Formation, Beyoncé se descreve como um "futura Bill Gates negra", referindo-se ao bilionário fundador da Microsoft, que doa parte de sua fortuna a causas beneficentes.

"Ganhei esse dinheiro todo, mas nunca abandonei minhas raízes", continua a música, que relata a origem da cantora, nascida em Houston, no Texas, de pais oriundos de Louisiana e do Alabama, dois estados do sul marcados pelo passado escravocrata.

O clipe também reverencia os protestos do movimento "Black Lives Matter", que agita o país há um ano e meio, desde a morte do adolescente Michael Brown. Desarmado, ele foi morto a tiros por policiais em Ferguson, no Missouri, episódio seguido por vários casos semelhantes em outras cidades americanas.

"Parem de atirar na gente", diz uma mensagem escrita no clipe, enquanto uma criança dança na frente de policiais.

Em outro trecho do vídeo, gravado em Nova Orleans por Milana Matsoukas, um homem lê um jornal onde aparece na capa uma foto de Martin Luther King, com o título "Mais do que um sonhador", em referência ao famoso discurso "I Have a Dream" (Eu tenho um sonho).

O clipe também mostra a filha de Beyoncé, Blue Ivy, de quatro anos, com cabelo black power, no momento em que a cantora defende a beleza negra: "gosto do meu nariz negro, com narinas tipo Jackson Five".

Reações divididas. A apresentação de Beyoncé no Superbowl foi bastante elogiada nas redes sociais, mas a estrela também sofreu críticas.

No Facebook, membros da Associação Nacional dos Xerifes disseram ter baixado o volume e virado as costas para a televisão durante o show do intervalo, em sinal de protesto.

O ex-prefeito republicano de Nova York Rudy Giuliani, conhecido por ter reduzido a violência na cidade ao reforçar o esquema policial, lamentou o fato de a cantora não ter passado uma mensagem de unidade. Ele também fez um apelo para que a comunidade negra respeite mais as autoridades.

Já a co-fundadora do "Black Lives Matter" Opal Tometi fez questão de homenagear a diva no Twitter.

Beyoncé e Jay-Z nunca esconderam suas orientações políticas. Ambos apoiaram o presidente Barack Obama desde o início e até organizaram eventos para arrecadar fundos para sua campanha para a reeleição, em 2012.

A iniciativa foi retribuída com um convite para cantar o hino americano durante a posse do segundo mandato de Obama.

No passado, porém, os astros já foram criticados pela falta de engajamento.

Conhecido por ser um militante de longa data dos direitos civis, o cantor Harry Belafonte afirmava em 2012 que o casal tinha "virado as costas para suas responsabilidades sociais".

Em meio à controvérsia, Beyoncé mostrou que não perdeu o talento com os negócios: minutos depois do Superbowl, a cantora anunciou uma nova turnê de 40 datas na América do Norte e na Europa.

Em 2013, a diva foi atração do Rock in Rio e chegou a dançar funk no final da apresentação.

O Superbowl 50 também foi marcado por uma apresentação surpreendentemente contida da sempre polêmica Lady Gaga, muito elogiada pela interpretação sóbria do hino americano.

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