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Belchior e os sinais de um homem predestinado a desaparecer

O sumiço de Belchior não foi decidido de uma hora para outra; sua vida já era uma viagem em direção ao centro de si mesmo

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

08 Maio 2016 | 04h00

Belchior teve a primeira vontade de desaparecer quando percebeu que o pedreiro queria comer suas tripas em uma tarde de ira. Depois de atender aos pedidos de pechincha do cantor para fazer a reforma de sua casa, em Campo Belo, o mestre de obras começou uma luta para receber o dinheiro que lhe era devido. Foi a Belchior uma, duas, três vezes. Na quarta, tomou umas a mais e saiu de casa decidido a voltar com o dinheiro no bolso ou o coração de Belchior nas mãos.

Perto da morte, o temor de aviões virou fichinha. “Celião, venha pra cá! O pedreiro está no portão. Ele quer me matar!”, pedia ao telefone. Celio Silva, seu produtor, chegou rápido, entrou na casa sem o pedreiro ver e encontrou um cão encurralado. Até que o pedreiro fosse embora espumando e ainda sem receber, Belchior revelaria sua face mais assombrada, devastada pelo sentimento que tanto cantava em suas canções: o medo.

Se não tivesse desaparecido pelo mundo, Belchior teria sumido dentro de si. Homem de palavras cada vez mais curtas e um grau crescente de introspecção, chegava pontualmente às 8h ao escritório, tomava seu pó de guaraná, lia e consultava as obrigações da semana. Uma dia, abriu a porta com a boca apertando o bigode: “Vou aumentar o meu cachê. Zeca Baleiro está cobrando muito mais do que eu”, disse ao produtor. Era o primeiro tiro que dava contra a própria carreira.

Os contratantes se afastaram, os até 15 shows por mês minguaram e as contas procriaram como ratos. O escritório, espaço agora de mais agonia do que prazer, era seu novo inimigo. Belchior passou a ficar em casa, fugindo das cobranças que podia até que elas o agarrassem pelo pescoço. Quando precisou viajar de avião para ver a família, ficou sabendo que uma ordem judicial por falta de pagamento de pensão colocava sua liberdade em risco. Ordenou a Celio que pagasse o débito com urgência para não ser algemado no aeroporto e só depois embarcou.

O sumiço dos palcos, de 2007 para 2008, deflagra o auto exílio. Belchior não sai mais de casa, se afasta dos amigos, se mantém longe dos dois filhos legais e dos dois já distantes e permite a companhia de apenas uma pessoa: a produtora cultural Edna de Araújo, com quem vai deitar o cabelo pelo mundo.

Quando sente que a cabeça está a prêmio, Belchior passa de recluso a foragido. Os credores o querem vivo mas os jornalistas o querem de qualquer forma. Sua vida passa a ser de disfarces e esconderijos. A morte da mãe em Sobral, Dona Dolores, prova sua capacidade de aniquilamento do próprio passado. Belchior não aparece para o velório nem para o enterro. Prefere seguir em sua obsessão pela tradução para a linguagem popular dos 14.230 versos da obra Divina Comédia, de Dante Alighieri. Sem pressa, pede a Celio que ajuste cada vírgula como se elas fossem notas de uma nova canção que nunca vai terminar.

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