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‘Baixa e negra Demais’

Jotabê Medeiros - O Estado de S.Paulo

16 Abril 2011 | 06h 00

Sharon Jones, prodígio soul, conta como foi rejeitada pela indústria e virou guarda de presídio

Como James Brown, ela nasceu no Sul dos Estados Unidos, em Augusta, Georgia. Como James Brown, a voz crua e a performance selvagem de apelo rudimentar de Sharon Jones a colocam num panteão do funk e da soul music no qual só gente do porte de Tina Turner, James Brown, Mavis Staples, Aretha Franklin e Bettye LaVette ganharam crachá para entrar.

O fenômeno Amy Winehouse só aconteceu após Amy "emprestar" o combustível da matriz soul na banda de Sharon Jones, os Dap-Kings (presentes em 6 das 11 faixas do disco Back to Black).

Agora, o Brasil poderá conferir ao vivo. Ela e seus fabulosos Dap-Kings (o MC Binky Griptite, Bugaloo Velez, Homer Steinweiss e Dave Guy) estão a caminho. É a principal atração do BMW Jazz Festival, que será realizado de 10 a 12 de junho. A produção da mostra ainda está definindo detalhes da programação, mas confirma que Sharon fará um show dentro do Auditório Ibirapuera e um outro gratuito, aberto ao público, na parte de trás do auditório, no último dia do festival. O show de Sharon Jones no Rio ainda não tem data e local definidos.

Sharon completa 55 anos pouco antes do dia do seu show, em 4 de maio. "Descoberta" tardiamente em 1996, depois de interromper a carreira, ela é o combustível de um dos conjuntos mais fiéis ao autêntico soul e R&B dos EUA, e apresenta a turnê de seu quarto disco, I Learned the Hard Way, que chegou ao 15.º lugar da parada Top 200 da Billboard e já superou a marca de 150 mil cópias vendidas. Não há, no momento, uma cantora com esse DNA, que remonta ao tempo da mítica Stax.

Há uma eterna discussão sobre quem foi mais influente: Sam Cooke ou James Brown. Para você, qual deles foi o maior?

Os dois e todos da Motown. Para mim, Aretha Franklin foi a mais importante, mas também Ella Fitzgerald, The Supremes, Thom Bell. Tenho apenas 55 anos, mesmo Michael Jackson e Prince foram importantes para mim. E também Erykah Badu, Beyoncé, todo mundo que está por aí.

Como foi trabalhar como carcereira no presídio de Rykers Island?

Aconteceu que eu estava sem trabalho, as pessoas da indústria musical me olhavam e diziam: "Você é baixa demais, você é negra demais". Eu não tinha o que eles estavam procurando. Foi uma das razões pelas quais eu acabei desistindo da música por uns tempos. E apareceu esse trabalho, eu fiz. Precisava de algum dinheiro. Hoje me perguntam se não tinha medo de trabalhar numa prisão. Não, não tinha medo. Eu era do gueto, e quando você é do gueto nada te assusta. A prisão hoje é parte da minha vida, nada de especial. Apenas um jeito de fazer algum dinheiro.

Muita gente diz que você é responsável por manter aceso um gênero da música do qual todos os grandes intérpretes já morreram. Você sente responsabilidade especial, do tipo "tenho de manter essa chama acesa"?

Todos nós somos responsáveis: eu e também Mark Ronson, e Al Green, e Aretha, e Amy Winehouse. Eu não sinto responsabilidade, gosto de manter a soul music queimando, e tenho orgulho de cantar isso e de dizer isso. O que acontece é que, como as pessoas que eram mais importantes nesse negócio já morreram, as pessoas se emocionam quando reconhecem que ainda há canções soul sendo cantadas. Porque, nos anos 80, houve um grande vácuo, a soul music desapareceu. Foi praticamente destruída pelos sintetizadores e aqueles teclados todos. É exatamente aí que acontece o que pretendemos: continuar do ponto no qual aqueles artistas pararam.

Uma de suas músicas mais conhecidas é Money. Você conseguiu fazer algum dinheiro com a música?

É preciso deixar claro: não estamos fazendo milhões com a música, muito pelo contrário. Ganhamos o suficiente. Somos o que somos independentemente dessa coisa do dinheiro. Tanto é que só agora consegui comprar uma casa para minha mãe e minha irmã, e estou me mudando para lá. Não estou me queixando, veja bem. É a mesma coisa que me leva a cantar, sempre foi, e não tem nada a ver com o dinheiro. É preciso viver um dia de cada vez. É como dizia o Frank Sinatra: é o meu jeito.

E como você define esse seu jeito? O que a provoca e a impulsiona para adiante?

É a energia que emana do público. Quando eu a sinto, eu quero mostrar a eles o que sinto. Olho seus rostos e aquilo me dá a energia, me alimenta. A gente se alimenta mutuamente. E daí isso passa para a banda, que é a minha turma. E isso cria uma bolha de energia, um sistema em que tudo está conectado, e é assim que vamos adiante. Não é nenhum mistério, é apenas sentimento.

Você tem feito gravações com músicos de outras praias que não a soul music. Por exemplo, gravou com Matt Berninger, vocalista do grupo The National, que faz uma música melancólica, soturna. E também está no disco de Michael Bublé, que é um tipo de jazz mais pop. E está na trilha do filme Amor Sem Escalas, com o George Clooney. O que a leva a territórios tão diferentes do seu?

Aprendi muito nessas experiências com o Matt e o Bublé. Eles são talentosos e criativos. Mas isso não significa que eu esteja tentando fazer algo parecido com o que eles fazem. Eles fazem o deles, eu faço o meu. Nós apenas juntamos as coisas. Reconhecer o que o outro artista tem de extraordinário não significa que aquilo se torna parte de você. Eu tenho o que Deus me deu, e o que Deus me deu eu uso. Mas eu sou criteriosa, não gravo com qualquer um. Não quero nada com gente que vende seus corpos, sua alma, seu sexo em troca de um pouco de sucesso. Disso eu quero distância.

Você participou do filme O Grande Desafio, com Denzel Washington. Fez o papel de Lila. Como tem sido sua experiência em cinema? Você pensa em fazer um novo filme?

Não tem nada certo ainda, mas talvez Denzel me convide para outra produção. Adoro cinema, adoro trilhas sonoras. A música é parte da mágica do cinema, então acho natural estar por ali. Interpretar é como entrar no espírito de uma música, você tem de convencer a si mesma de que está dentro dela, de que é sua segunda pele. Mas não tem nada certo. Quem sabe: eu nunca digo que sei do futuro.

Você cantou no palco, na França, com Solomon Burke (1940-2010). Como foi essa experiência?

Ah, ele foi um cavalheiro. Foi no festival de Antibes, o Juan-le-Pins, em 2008. Ele me chamou para subir ao palco e foi demais. Eu ouvi aquela música, mas além do Solomon eu não sabia o nome de mais ninguém no palco. De repente, foi como se tivesse voltado aos anos 70. Alguém tinha um trompete e de repente lá estava o trompetista tocando What a Wonderful World (canção de 1967, composta por Bob Thiele George David Weiss), a música daquele velho trompetista... Como é mesmo o nome dele? Louis Armstrong? (Gargalhadas)

Você conhece alguma coisa de música brasileira?

Ouvi muito samba nos anos 1970, mas era aquele samba mais calmo, tranquilo. Hoje em dia, quando estamos na estrada, ouvimos todo tipo de música. Há um brasileiro que toca as congas, não me lembro o nome, que a gente adora ouvir. Ainda não sei dizer os nomes, mas depois dessa visita ao seu país eu saberei dizer direitinho.

 

PROGRAMAÇÃO

As apresentações do BMW Festival, de 10 a 12 de junho, no Auditório Ibirapuera, serão Sharon Jones; o lendário jazzista Wayne Shorter; o saxofonista tenor Billy Harper; o baixista americano Marcus Miller fazendo tributo a Miles Davis; o saxofonista Joshua Redman; o maestro e compositor brasileiro Letieres Leite e sua Orkestra Rumpilezz; o grupo Funk Off Brass Band; o baixistafrancês Renaud Garcia-Fons;o pianista norueguês Tord Gustavsen; e o mais antigo grupo vocal gospel da atualidade, o americano de New Orleans Zion Harmonizers. A organização diz que vai anunciar preços e datas de shows nos próximos dias.

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