RAFAEL ARBEX/ESTADAO
RAFAEL ARBEX/ESTADAO

Aos 23 anos, um maestro na trilha dos prodígios

O jovem baiano Yuri Azevedo se destaca no cenário nacional após ser comparado ao venezuelano Dudamel

João Luiz Sampaio, Especial para o Estado

24 Maio 2015 | 16h00

Salvador, manhã de 5 de março de 2010. No Teatro Castro Alves, a Orquestra Juvenil da Bahia ensaia a Quinta Sinfonia de Beethoven e a Rhapsody in Blue, de Gershwin. Mais de uma hora de música, um breve intervalo. No fundo do palco, o jovem franzino arruma as baquetas da percussão. E corre para se juntar a outros colegas. “Yurimel”, alguém brinca. É que ele quer ser maestro. E a cabeleira parece a do Dudamel, não parece? Quer mesmo ser maestro? “Acho que sim”, vem a resposta. “Estou começando a reger a orquestra infantil e estou gostando.”

São Paulo, última segunda-feira. Pouco antes das sete da noite, a Orquestra Experimental de Repertório se prepara para entrar na Sala do Conservatório Dramático Musical, prédio de 1909 em torno do qual foi construída a Praça das Artes, complexo arquitetônico anexo ao Teatro Municipal de São Paulo, onde funciona a Escola Municipal de Música. Entre os músicos, o mesmo rapaz alto e franzino, com a cabeleira agora acompanhada de bigode e cavanhaque. Eles brincam, riem. Mas é com a cara séria que ele, pouco depois, entra na sala e se coloca perante os músicos. Ergue os braços e começa a soar a Havanaise, de Saint-Säens.

Natural de Salvador, foi em 2007 que Yuri Azevedo entrou para a Orquestra Juvenil da Bahia. Estava com 17 anos, mas a relação com a música era mais antiga. Aos 10, já se interessava pelo som produzido por uma orquestra. Era algo que o atraía, ele lembra, pelo “exotismo”. Até que, aos 12 anos, começou a frequentar oficinas de percussão da Universidade Federal da Bahia. “A coisa do ritmo sempre me entusiasmou”, diz, explicando a escolha do instrumento, mas com a ressalva de que “também não eram tantas assim as opções”. “Mas eu gostava, muito.”

Yuri cursou o ginásio e o colegial na Escola da Polícia Militar, “que era muito concorrida, porque o ensino era legal e também porque não tinha muita greve”. Lá, envolveu-se com as atividades do coral. “Foi ali que de alguma forma a regência começou a me interessar. Eu ficava fascinado olhando os gestos do maestro, querendo entender o que era aquilo. A primeira faísca com certeza apareceu ali.”

Ele chegou ao Neojiba, Núcleos Estaduais de Orquestras Juvenis e Infantis da Bahia, pouco depois do projeto ser criado em Salvador pelo maestro e pianista Ricardo Castro. A metodologia é inspirada pelo El Sistema, da Venezuela. Não se trata apenas de pensar a música como elemento de inclusão social. Mas, e talvez principalmente, de repensar a forma segundo a qual a prática musical é transmitida. Alunos mais velhos, por exemplo, dão aulas a colegas mais jovens – e a compreensão geral é a de que fazer música não pode ser privilégio de poucos mas, sim, uma prática comum.

Foi nesse contexto que o percussionista Yuri começou a se tornar no maestro. “Um dia, durante um ensaio, o maestro venezuelano Manuel Lopez perguntou para os músicos se alguém queria reger. Eu disse que sim e comecei a estudar com ele e também com o Eduardo Torres, que hoje é coordenador pedagógico do Neojiba. Mas não parei com a percussão, me mantive estudando as duas coisas.” No ano passado, a Orquestra Juvenil da Bahia lançou seu primeiro DVD, em que é regida por Castro e por Azevedo em obras de Rachmaninoff e Gershwin, entre outros.

Música pela música. Depois da Havanaise, com solos do spalla da Experimental, o violinista Paulo Galvão, a orquestra fez uma rápida passagem pelo universo da ópera, com a abertura de O Barbeiro de Sevilha, de Rossini. Nas duas peças, a regência de Azevedo é simples, sem exageros, elegante, segura. São características que não se costuma encontrar facilmente em um maestro de 23 anos, assim como a atenção ao senso de estilo, que demarcou muito bem o espírito de ambas as peças. Mas isso talvez se explique pelas experiências que ele teve nos últimos tempos.

Ele mantém o contato com o Neojiba. E em que medida surgir em um trabalho como esse definiu – ou define – o músico que ele se tornou? “É muito difícil para mim separar as substâncias da minha formação”, diz. “Mas foi muito importante fazer parte daquele ambiente. O Neojiba e a Sinfônica Jovem da Bahia criaram uma coisa que não existia em Salvador, que é um espaço de convivência, um ambiente de música clássica para os jovens. O movimento todo de ensinar também é importantíssimo, mas não sei dizer o que mais me marcou.”

Para ele, o grande mérito do Neojiba está na formação de artistas e no fato de que propicia “experiências musicais de qualidade para o cidadão”. Ele também rechaça qualquer “discurso salvacionista” com relação à música clássica. Entende que, em um mundo que passa por transformações, o papel do regente e de uma orquestra também mudou. “Mas às vezes dá vontade de simplesmente tocar, fazer música, sem se preocupar com uma função extramusical. Porque o risco é parecer que a gente tem que usar isso para justificar o que fazemos, para tentar mostrar que a música clássica pode ser legal.”

Yuri participou, nos anos seguintes, de duas edições do Festival de Inverno de Campos do Jordão, tendo aulas com a maestrina Marin Alsop e o maestro Giancarlo Guerrero. Em 2012, venceu o Prêmio Eleazar de Carvalho, o que lhe rendeu uma bolsa para estudar no exterior e a chance de reger a Osesp na Sala São Paulo e em um concerto ao ar livre, na Praia do Gonzaga. O plano original era passar um ano em Baltimore, estudando. “Mas eu não fui, acabei usando o dinheiro para fazer masterclasses em outros países, conhecendo outros maestros”, diz. No Brasil e na Itália, estudou também com Isaac Karabtchevsky. “Acho que dá para dizer que ele é o meu grande professor, mudou muito meu ponto de vista artístico estudar com ele.”

No ano passado, Yuri Azevedo venceu o concurso de regência promovido pela Orquestra Experimental de Repertório e se tornou regente assistente do grupo, trabalhando ao lado do titular Carlos Moreno. Até então, vivia entre Salvador e o mundo. Mas agora mudou-se para São Paulo. “Deixar a Bahia é complicado”, diz, sorrindo.

O programa do concerto de segunda se encerrou com a Sinfonia nº 4 – Italiana de Mendelssohn. É uma das grandes obras do repertório, fruto do trabalho de um compositor que está na passagem do classicismo para o romantismo. E aqui talvez tenha faltado à leitura de maestro e orquestra um equilíbrio entre os dois mundos e uma construção mais clara do arco da interpretação, em que pesem momentos bonitos, como os diálogos entre madeiras e cordas no segundo movimento. 

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