TIAGO QUEIROZ / ESTADÃO
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André Sturm: 'O prefeito é o prefeito, eu sou eu'

O secretário da Cultura de João Doria fala dos pouco mais de 100 dias de gestão, entre projetos, polêmicas, debates e xingamentos

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

18 Abril 2017 | 05h00

As pedras passaram rente às vidraças da Galeria Olido logo que André Sturm, secretário nomeado pelo prefeito João Doria, assumiu a pasta e sentou-se em seu gabinete, no centro de São Paulo. O que parecia uma escolha apaziguadora, bem vista até pela gestão anterior, tornou-se o centro de episódios tensos. O anúncio do desmembramento da Virada Cultural, levando parte para Interlagos, as grafites apagadas sem aviso prévio na Avenida 23 de Maio, um edital de dança cancelado e o fim do Clube do Choro, uma luta dos músicos da Cidade, fizeram os pouco mais de 100 dias de gestão serem distantes de qualquer estabilização do setor. Em entrevista ao Estado, Sturm falou de seu entendimento de cultura, lembrou dos episódios que marcaram seus primeiros atos e disse que o prefeito é o prefeito, ele é ele.

O senhor assumiu sob boa expectativa, mas já apanhando ao anunciar mudanças na Virada. Como avalia a gestão até aqui?

Foi uma surpresa ruim. Eu não imaginava que seriam todos a favor, fazendo carinho, mas desde o começo eu falei da vontade de dialogar. Havia umas 600 pessoas no dia do diálogo com o pessoal do teatro, no Centro Cultural São Paulo. Elas vaiavam, berravam, xingavam, e eu era secretário havia um mês. Diziam que eu estava desmontando a cultura, foi espantoso.

No mesmo lugar, o CCSP, o governo Haddad fechou sua gestão apresentando um saldo e um plano. Havia uma bem estruturada arquitetura do que poderia ser feito pela Cultura. Existe algo que tenha sobrevivido das metas do governo anterior?

Arrisco dizer que todos os programas da gestão passada foram mantidos. O único ato que cancelamos foi o edital da dança. O Circuito Municipal de Cultura permanece com o mesmo nome, e a coisa mais fácil era mudar o nome. Não há nada que tenhamos desmontado.

O Clube do Choro acabou de fechar as portas.

Mas o Clube do Choro não é meta. Como ocupação do Teatro Arthur Azevedo, tinha dois anos, não tinha uma história. E veja, infelizmente entrou na categoria emendas internas que foi 100% congelada. Então, eu não tinha o que fazer. Mesmo assim, propus uma solução intermediária, que seria uma apresentação por mês para não perder a marca do choro. Agora, os R$ 500 mil eu não tenho, e não tenho de onde tirar.

Sem frequência maior, diziam, eles não chegariam à formação de público que almejavam.

Por concordar com isso, sugeri shows uma vez por mês. Não é a mesma coisa que uma vez por semana, claro, mas você garante uma permanência. E eu ia usar recurso de outra fonte. Eu tenho zero para o Clube do Choro. Não foi um ato de vontade, mas uma circunstância do congelamento.

O que é Cultura para o senhor?

Isso dá uma tese, pode ficar meio filosófico...

Sim, daqui a pouco melhora.

(Risos) Eu acho que o nosso papel é promover o acesso, no sentido amplo. Uma de nossas metas é a horizontalidade da atuação, com uma comissão que não é mais por área. Antes havia a pessoa da dança, a pessoa do teatro. Agora há um coletivo que faz a programação pensada como um todo. Não é porque o artista é de São Miguel Paulista que ele só vai se apresentar na Casa de Cultura de São Miguel Paulista. Vamos fazer mais diálogo, levar a Orquestra Sinfônica Municipal para tocar no Centro Cultural da Penha. O Balé da Cidade para outra região, vamos trazer o cara da zona norte para a zona sul. A gente atua na ideia de que as pessoas possam conhecer o diferente. Nosso desafio é esse, oferecer o diálogo.

Secretário, existe a cultura que vai até lá e a cultura que já está lá. Esse entendimento que o senhor coloca colide com a ideia já desenvolvida de que é possível fazer com que o Capão Redondo produza sua cultura, potencialize seus talentos e monetize sua produção. Há uma sensação de desmonte ideológico nesse sentido. Em vez de valorizar o que está lá, as mudanças impostas podem não gerar nem o interesse esperado pelo governo.

Eu concordo em gênero, número e grau com tudo isso. Não é que eu só quero levar a Orquestra do Teatro Municipal para a periferia, pelo contrário. Quero que o artista do Capão Redondo possa viver do que ele faz, mas não limitá-lo ao Capão Redondo. Por que eu não posso levá-lo para São Miguel, Santana ou Pirituba? E até para o Teatro Municipal? Claro, se ele for um rapper, não, mas de repente ele é um músico, um artista que posso levar ao CCSP. O que eu acho bacana é propor os encontros, levar o (bailarino) Ismael Ivo com uma dupla do Balé da Cidade para qualquer bairro para fazer uma apresentação chamando os dançarinos da região para depois interagir, acho que eles crescem, que eles vão ganhar com aquela experiência.

Mas a série de embates que surgem assim que o senhor assume, alinhado naturalmente às ideias do prefeito João Doria, parece ter como causa esse choque de entendimento cultural. Primeiro, o senhor propõe levar a Virada Cultural para o distante Autódromo de Interlagos. Depois, apaga os grafites da Avenida 23 de Maio e é proposta a criação de um grafitódromo para abrigar o trabalho dos artistas. Os pancadões, o senhor sugere, poderiam ser amenizados por bibliotecas nas mesmas regiões. São propostas que não dialogam com o meio e que parecem desconhecer como ele funciona. Não há um choque cultural entre rua e administração nessa gestão? É possível ajustar isso?

Sim, com certeza, e já houve uma correção de rumo. Acho que é normal e louvável que um gestor tenha ideias, que tente implementá-las, que ouça as críticas e que possa corrigir o rumo. Antes de acontecer o que aconteceu na 23 de Maio, eu havia proposto ao prefeito fazer um lugar em São Paulo para o grafite. Ele tinha adorado, citou o exemplo de Miami... Bom, aconteceu o que aconteceu. Aí, falamos que íamos fazer um local para o grafite. Montei uma comissão e ficamos aqui uma vez por semana discutindo até construirmos uma política pública que vai resultar em ações. Construímos no diálogo e corrigimos o rumo.

Olha, eu faço parte de uma gestão, mas o prefeito é o prefeito e eu sou eu. Ele me chamou porque considerava o meu trabalho na cultura positivo. Então, eu também sou um influenciador com minhas ideias. Eu tenho esse espaço.

O entendimento de cultura do prefeito não é mais próximo do entretenimento do que da transformação, da economia criativa?

Olha, ele me chamou, creio porque queria um gestor, uma pessoa que conhece e dialoga. Não sou um cara conhecido por fazer Lollapalooza. O que eu fiz no MIS (como diretor), embora o museu fique na Avenida Europa, foi transformá-lo de mega elitista no mais popular da cidade.

Uma crítica apontava que o senhor estava transformando o MIS em algo mais alinhado ao entretenimento do que à cultura, o mesmo assunto que estamos falando aqui. Que a experiência da arte estava sendo trocada pela da diversão.

Exposição do Castelo Rá-Tim-Bum é entretenimento ou arte? Acho que as duas coisas. Isso tem um valor incomensurável, havia pessoas lá que nunca haviam ido a um museu. Outra coisa, o Castelo Rá-Tim-Bum era blockbuster, mas ao lado dele tínhamos exposições sofisticadas e gratuitas. Um dos segredos do MIS era a combinação de programação. A crítica à popularização do MIS é de quem acredita que museu bom é museu vazio. E olha que eu não fiz lá exposição de Ivete Sangalo.

O senhor vai manter a Virada Cultural mesmo como anunciou no início do ano, parte em Interlagos e parte no centro?

Não, já mudamos mais um pouco. Descentralizamos ainda mais, encorpamos a programação do Centro, mas não teremos por lá palcos grandes. E teremos algumas atrações em Interlagos.

O senhor vai conseguir descongelar a verba da Cultura?

Quero descongelar 25% do que foi congelado, para ficar igual ao ano passado. Todo dia eu acredito. Sem acreditar, não se muda nada.

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