Vanessa Beltrão
Vanessa Beltrão

Análise: Um Bernstein para pensar no mundo de hoje

Na primeira apresentação no Brasil, ‘Missa’ emociona público com a sua temática engajada e atual 

João Marcos Coelho , Especial para O Estado

10 Abril 2018 | 11h20

Deve ter sido o momento difícil e despedaçado que vivemos no Brasil. Mas o fato é que saí emocionado do Teatro Municipal após a performance da Missa, de Leonard Bernstein (1918-1980) no fim da tarde de domingo, 8, por um contingente de mais de 300 músicos e cantores, liderados pelo maestro Roberto Minczuk

A coincidência não poderia ser mais feliz. Quando Bernstein recebeu a encomenda de Jackie Kennedy (1929-1994) para compor uma obra a ser estreada na abertura do Kennedy Center, em Washington, em 8 de setembro de 1971, os Estados Unidos eram um país rachado entre o apoio da direita e a oposição da esquerda, incluindo os liberais, à Guerra do Vietnã. Rachado também pela luta pelos direitos dos negros, levada ao clímax pelos Panteras Negras, movimento radical. Vivemos hoje o mesmo clima no Brasil (e, cá entre nós, também nos Estados Unidos).

A apresentação também marca os 100 anos de nascimento do maestro, compositor e pianista norte-americano Leonard Bernstein, que serão completados em 25 de agosto.

O raro, o precioso dessa Missa injustamente criticada por seu ecletismo é justamente a razão de seu constante poder de surpreender audiências, despertar consciências, fazer as perguntas certas. Ora, as músicas do nosso tempo são muitas hoje. Bernstein colocou-as todas no palco, e com forte engajamento político. Ele foi fichado pelo FBI, aconselhou-se, para a Missa, com o padre Daniel Berrigan (então preso por ativismo político), e não teve medo de confrontar Deus, na melhor tradição judaica, clamando por sua volta num momento em que “metade do mundo está petrificada e outra não sabe o que fazer” (cito de memória). Mas Deus não é a solução, diz-nos o compositor, também autor de parte do libreto, que mistura textos litúrgicos da missa católica (escolheu-a porque Kennedy foi o primeiro presidente católico dos EUA) com a liturgia judaica. 

Guitarras e bateria num grupo de rock, os metais tratados como big band, canções simples de amor e fé em Deus misturadas com blasfêmias seguidas do coro de rua, formado por pessoas como as que estavam sentadas nas poltronas do Municipal. Música sinfônica, gospel, Broadway, jazz, até o folk de Paul Simon coube nela. É ou não é tudo muito parecido com o que vivemos hoje no Brasil?

Minczuk conduziu com firmeza a execução, na qual se destacou o celebrante, personificado pelo barítono Michel de Souza. Tecnicamente, a Missa exige muito mais do celebrante e do coro de rua do que dos demais participantes. Em todo caso, o difícil aqui é controlar essa massa de cerca de 300 músicos e cantores em ação. Minczuk soube fazer isso, com poucos desencontros.

O saldo final indica o acerto de se fazer sua inédita apresentação brasileira 47 anos depois de sua estreia. E demonstra a imensa atualidade da obra de Leonard Bernstein.

 

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