Leo Aversa
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Análise: Metáforas, como as de Chico Buarque, existem para a melhor compreensão da história

Em tempos de tanta polarização e da importante retomada da luta contra o machismo e pelo 'empoderamento' da mulher, é compreensível que incomodem versos que retratam a vida como ela é; mas isso é poesia

Regina Zappa, Especial para O Estado de S. Paulo

22 Agosto 2017 | 11h17

Depois que é lançada, uma canção — um livro, um poema, um filme ou qualquer obra de arte — passa a pertencer ao público e às interpretações que cada um fará, dependendo de onde vem o seu olhar. Será “como uma música parada / Sobre uma montanha em movimento”, como diz Morro Dois Irmãos, de Chico Buarque.

Com Tua Cantiga, música que chega em seu próximo CD Caravanas e que já circulou pela rede, não é diferente. Entre suspiros e elogios de uns, a composição foi considerada machista e datada por outros. Para esses, os versos que causaram tanta indignação (Quando teu coração suplicar / Ou quando teu capricho exigir / Largo mulher e filhos / E de joelhos / Vou te seguir) são um mau exemplo do comportamento de um homem em relação à família, ao “abandoná-la” para seguir seu desejo, sua paixão.

Seria, então, A Rita, outra canção de Chico, considerada feminista por ela ter causado a seu companheiro “perdas e danos” e ainda quebrado seu violão? (Levou os meus planos / Meus pobres enganos / Os meus vinte anos / O meu coração / E além de tudo / Me deixou mudo / Um violão).  

E Medeia, que, rejeitada por Jasão e ardendo de ciúmes, mata seus próprios filhos em vingança por ter sido abandonada? Seria Eurípedes machista e datado?  Em Gota d’água, Chico interpreta a fúria de Medea contra seu amado machista: “Já lhe dei meu corpo, minha alegria / Já estanquei meu sangue quando fervia /  Olha a voz que me resta / Olha a veia que salta / Olha a gota que falta / Pro desfecho da festa”.

De Chico temos ainda a mulher que faz tudo em casa enquanto o marido fica “olhando as saias de quem vive pelas praias” até que ele chega e ela se conforma: "Logo vou esquentar seu prato, dou um beijo em seu retrato / E abro meus braços pra você". Nara Leão, uma das grandes mulheres de seu tempo, em que a luta feminista tomava corpo, gravou Com Açúcar, Com Afeto. Um mau exemplo ou pura poesia?

Autor e personagem são entidades distintas. Metáforas existem para a melhor compreensão da história. Um dos grandes talentos de Chico Buarque, um dos maiores compositores brasileiros, é entrar na pele do outro, da mãe favelada (Meu Guri), da mulher que abandona sua história para subir na vida (Quem Te Viu, Quem Te Vê), do trabalhador explorado (Construção), do escravo maltratado (Sinhá), da prostituta (Folhetim), da mulher abandonada (Atrás da Porta), da mulher que perde o filho (Pedaço de Mim), do homem romântico e apaixonado que se humilha e faz qualquer coisa pela mulher amada (Tua Cantiga).

Em tempos de tanta polarização e da importante retomada da luta contra o machismo e pelo “empoderamento” da mulher, é compreensível que incomodem versos que retratam a vida como ela é. Mas isso é poesia. E, como já ensinou Oswald de Andrade, a poesia existe nos fatos.

*Regina Zappa é autora de quatro livros sobre o artista: “Chico Buarque Para Todos” (Imã); “Cancioneiro Chico Buarque – Chico Buarque, canto e verso” (JobimMusic); “Chico Buarque Cidade Submersa” (Casa da Palavra); “Chico Buarque Pra seguir minha jornada (Nova Fronteira).

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