Mozarteum Brasileiro
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Análise: Memorável concerto sob a regência do holandês Gijs Leenaars

O maestro tem a maior das qualidades para obras deste tipo: gestos claros, imediatamente inteligíveis

João Marcos Coelho, Especial para O Estado

27 Outubro 2016 | 10h04

Brahms pensou em substituir a palavra "alemão" no título de seu réquiem por "humano". Quando se assiste a uma performance impactante de Um Requiem Alemão como aconteceu na segunda-feira, 24, na Sala São Paulo, dá para concordar com o compositor. Ele escreveu o réquiem mais original da história da música, que celebra a vida dos seres humanos, à espera da clemência divina. Em vez da culpa do ritual católico romano, a prece humilde porém confiante dos luteranos diante da morte.

É uma concepção trágica do mundo e do destino humano, claro. Mas também um gesto monumental de afirmação da vida, porém consciente, como proclamam os versos reservados ao ótimo barítono russo Artem Nesterenko: "Senhor, ensina-me que eu devo ter um fim". E denuncia nossa soberba intrínseca ("Ah, todos os homens são como o nada, e, no entanto, vivem tão seguros de si"). O Deus de Brahms é aquele encarnado pela soprano alemã Anne Bretschneider, de lindo timbre: "Eu vos consolarei como uma mãe consola o filho".

 

Ajuda saber que esta obra-prima resultou do sentimento de perda de Brahms, primeiro com a morte de seu guru Schumann em 1856, depois com a morte de sua mãe em 1865. Mas esta é só parte da história. A outra é que este réquiem alemão foi seu passaporte para a consolidação de seu prestígio como um dos maiores compositores europeus. O réquiem é resultado de seu trabalho cotidiano com corais, primeiro na sua Hamburgo natal, depois em seus começos como regente da Singakademie quando se mudou para Viena. 

Obras desta proporção costumam surgir no final das carreiras dos compositores. Não no caso de Brahms. Ele ainda não tinha escrito sua primeira sinfonia quando o Requiem estreou em 1858.

Pela carga emocional, pelo seu aprendizado sólido no trato com corais e o rigor com que enfrentou a escrita sinfônica, o Requiem é sua maior criatura artística. Neste sentido, uma performance de qualidade implica enormes desafios. É fundamental, por exemplo, um coral capaz de reproduzir nuances de fraseado, manter afinação irretocável e de construir dinâmicas sutis. E uma orquestra talentosa o suficiente para compor - e não concorrer - com as vozes, solistas ou em coro. 

Tudo isso aconteceu virtuosamente na noite de segunda-feira. O maestro holandês Gijs Leenaars, de 38 anos, tem a maior das qualidades para obras deste tipo: gestos claros, imediatamente inteligíveis para os músicos (e para nós, também, na plateia). Soube combinar pesos e medidas. Memorável.

P.S.: a crise bate forte no Mozarteum. Com só três concertos programados para a Sala São Paulo em 2017 (destaque para a soprano Diana Damrau em maio), ela deixa de oferecer assinaturas por motivos óbvios e compreensíveis. Na plateia, vários assinantes revoltados e confusos.   

Cotação: Ótimo

 

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