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Análise: Grammy não existe para premiar boas intenções

Mais perto dos sonhos de Taylor Swift do que das ruas violentas da Compton, de Kendrick, prêmio, pelo menos, não cometeu hipocrisia

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Julio Maria,
O Estado de S.Paulo

16 Fevereiro 2016 | 20h49

O dilema foi colocado sobre a mesa e o Grammy fez sua escolha. Ao sobrepor o disco 1989, de Taylor Swift, a To Pimp a Butterfly, de Kendrick Lamar, ratificou suas vocações e agiu em legítima defesa, falando em nome de uma indústria que ainda tem muito poder de fogo e que segue suas próprias regras. Os jurados sabiam que a crítica torceria o nariz para Swift, mas também que uma base muito maior de fãs pelo mundo agradeceria eternamente em forma de consumo em streaming. 1989 perde para To Pimp a Butterfly em todos os quesitos, mas ganha em um: é feito para ampliar os poderes de Taylor Swift, levá-la mais adiante e potencializar seu alcance pop. Um projeto de poder.

Havia algumas oportunidades em Kendrick Lamar. Se fechasse com ele, o Grammy poderia se politizar, juntar-se à opinião pública e à academia alinhada com o discurso das igualdades, ganhar relevância e demarcar atitude social. Em suma, mostrar como é que se faz ao pessoal do Oscar, imerso em uma polêmica eclodida por atores negros que pedem maior representatividade na premiação.

E, então, deve-se admitir, não há cinismos cotistas nas escolhas do Grammy. Kendrick Lamar não ganhou porque o Grammy não existe para premiar ousadias estéticas nem discursos corajosos. Eles até fazem parte do espetáculo, mas são usados sempre de forma decorativa entre uma e outra premiação. Fica bonito, imprime engajamento, mas não paga as contas no final do mês. Quem os carregará nas costas será sempre uma Taylor Swift, alguém capaz de vender 1,2 milhões de cópias físicas apenas na primeira semana de lançamento.

O Grammy não existe para agradar a críticos e fãs militantes. Ele entende que Lamar faz sua revolução em nome de uma verdade inquestionável. Deixa o palco aberto até para que ele apareça acorrentado aos pés e às mãos, seguido por outros jovens negros que gritarão contra o horror da opressão, mas entende isso como um espetáculo que não vai mudar a vida de ninguém.

Sua conversa é mais com o mundo dos sonhos de Swift. Não dá conta da realidade de Lamar. É muito mais a Disney do que Compton, e não parece querer mudar seu rumo por nada. Como se mantém no lombo da prosperidade das gravadoras e da própria audiência, precisa agraciar os segmentos com indicações e shows, muitos shows. E são por eles, mais do que pelos próprios prêmios, que suas fragilidades ficam evidentes.

Adele, a cantora inglesa que ajudou a abrilhantar o Grammy de 2012 cantando Rolling in The Deep, levantou suspeitas de sua competência. Sua voz entoando All I Ask começou torta e não parou mais de entortar. Ao final, era um parafuso espanado. Adele colocou a culpa no piano desafinado que a acompanhava, mas não colou. Quem canta usa a harmonia interna e segue em frente. Nenhum problema que tenha errado – “acontece”, como ela disse – mas fica feio apontar para o pianista.

BB King, o rei do “segmento blues”, foi lembrando com mais honras em uma apresentação sublime com a guitarrista Bonnie Raitt chamando o country rock de Chris Stapleton e o neo bluesman Gary Clark Jr para cantarem The Thrill Is Gone. BB King estava nas guitarras de Stapleton e de Clark, que tiraram os solos nota por nota e usaram o mesmo modelo Lucille de BB.

Lady Gaga recebeu a missão mais desafiadora, a de homenagear um homem de cem faces, David Bowie. Ela se dedicou, em pouco mais de um mês, desde que Bowie morreu, a ensaiar passos, decorar letras, marcar coreografias. Fazia giros duros demais e tinha movimentos travados, mas conseguiu sustentar na voz, com tonalidades que não eram suas (como a de Fame) o longo passeio pelas músicas de Bowie.

No saldo, entre o circo dos contentes e o pão dos indignados, a sensação é de que não deu, de verdade, pra ninguém. Taylor Swift, a preferida dos jurados, saiu com os gramofones mais pesados, levando nas categorias melhor álbum do ano, melhor disco de vocal pop e melhor videoclipe. Kendrick Lamar, que estava indicado a 11, levou cinco, mas nenhuma das principais. Ao contrário de anos anteriores – Pharrell Williams em 2014 e Sam Smith em 2015 – não há a foto do artista saindo consagrado do Staples Center. Uma pena. A realidade de Kendrick Lamar merecia um dia de princesa.

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