REUTERS/Lucy Nicholson
REUTERS/Lucy Nicholson

Análise: Ao coroar Adele, Grammy repete com Beyoncé a injustiça cometida com Kendrick Lamar

Academia prefere, novamente, premiar as cifras do que a inovação estética e artística

Pedro Antunes , O Estado de S.Paulo

13 Fevereiro 2017 | 20h44

Quando Adele, a vencedora da noite do 59ª cerimônia do Grammy, decidiu que não merecia tantas vitórias sobre a grande oponente da noite, Beyoncé, a inglesa não estava usando de falsa modéstia. Ela, assim como parte do público e da crítica, observava a mais uma demonstração de conservadorismo por parte da Academia de Gravação, formada por profissionais da indústria – assim como a Academia de Artes Cinematográficas que escolhe os vencedores do Oscar. 

Se público e jornalistas estavam de mãos atadas, incapazes de fazer algo além de publicar textos furiosos em redes sociais ou em jornais e sites, Adele, ao microfone, disse o que o mundo pensava. Ela e seu álbum 25 não merecia aquela penca de prêmios, como os três principais da noite de domingo, 12, dedicados a eleger a gravação, o disco e a música do ano. No fim da cerimônia, a imagem era o sorriso largo da inglesa a exibir seus cinco gramofones. A outra, que pode ser vista ao lado, é de Beyoncé, dona do histórico Lemonade, com seus dois prêmios recebidos em categorias infinitamente menores – de álbum urbano contemporâneo do ano e de melhor videoclipe. Um pecado. “A artista da minha vida é Beyoncé, e este disco, Lemonade, foi monumental”, disse Adele. “Achei que seria a noite dela”, completou.

A vontade de que pelo menos mais da metade daqueles prêmios de Adele fosse para as mãos de Beyoncé era tamanha que chegou-se a acreditar em um factoide de que Adele, ao quebrar um gramofone, entregaria metade da peça para a norte-americana. Dividiriam, assim, o título de álbum do ano. Algo que foi criado como piada – há registros de Adele trocando o troféu quebrado por um novinho em folha – foi levado como verdade por muita gente. Adoraríamos que fosse, mas não era. 

Até mesmo no exterior, a reação foi parecida. Para o inglês The Guardian, Beyoncé “só ganhou dois prêmios” e eleva a apresentação da cantora enquanto relembra a falha de Adele na homenagem a George Michael. O The New York Times, por sua vez, destaca o embaraço da inglesa em receber prêmios que nem ela achava merecer.  

Há tempos, o Grammy perde sua importância e relevância. Não é por caso que, em 59 edições da cerimônia, só em 2017, com David Bowie há um ano morto, que ele teve um disco escolhido como o melhor do ano. Como respeitar uma entidade que não premia um dos mais inventivos músicos que já passaram por esse (e outros) planeta?

Ano passado, o mesmo dilema foi enfrentado pelo pop quadradinho de Taylor Swift com seu disco 1989 e Kendrick Lamar, rapper com o revolucionário e dilacerante To Pimp a Butterfly. A Academia sucumbiu às estrofes facilmente cantaroláveis da ex-cantora country diante dos versos afiados de Lamar e à sua performance arrebatadora naquela noite ao subir ao palco do Grammy com grilhões nos pulsos e tornozelos. Lamar jogava na cara da academia, formada majoritariamente por homens brancos e de idade avançada, de acordo com a Rolling Stone norte-americana, que o racismo ainda existe, mata e machuca nos Estados Unidos. Taylor, por sua vez, usava o seu disco 1989 para marcar uma fase alegre e morando sozinha em Nova York. 

As muitas indicações a Lamar no ano passado, contudo, pareciam apontar para uma mudança de comportamento no Grammy, como ocorreu em cerimônias como o Oscar e Globo de Ouro. Em mais uma disputa entre o pop quadradinho (de Adele) e o pop “dedo na ferida” (de Beyoncé), novamente foi preferido o jogo fácil. 

Não é que o disco de Adele, 25, seja ruim. É um ótimo álbum, mas não é grande. Nem de perto relevante, artisticamente e conceitualmente, como Lemonade. Em, quem sabe, 20 anos, quantas pessoas se lembrarão de 25, um trabalho no qual a inglesa, depois de chorar por versos tão doloridos no antecessor 21, parece exagerar na tentativa de atingir a mesma emoção crível no trabalho anterior? Ela força tanto a barra que as novas lamúrias entram à força, rasgando. O choro chega repaginado por um novo time de produtores que passou a trabalhar uma nova estética para a cantora que, à princípio, usa do soul e R&B criados pela comunidade negra dos Estados Unidos. Em contrapartida, daqui a duas décadas, o que será dito sobre Lemonade? Quando, nas escolas nos Estados Unidos, os professores quiserem contar como eram as questões raciais nas primeiras décadas do século 21, anos nos quais chegavam notícias sobre policiais que assassinavam jovens negros nas ruas de um país que tinha Donald Trump ocupando o salão oval da Casa Branca, é provável que alguns deixem Lemonade tocar, do início ao fim, em seus 45 minutos e 47 segundos.

O Grammy não estava pronto para Lamar. Não estava pronto para Beyoncé. Na disputa entre as cifras e a relevância, ainda se premia aquele que vende mais, mas diz pouco. A história deve provar os equívocos do Grammy – e só nos resta esperar que isso aconteça com enquanto os artistas merecedores ainda estejam vivos, para que não se repita a homenagem póstuma a Bowie. 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.