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Cultura

Céu

Análise: Céu se desnuda esteticamente e vaga por climas noturnos em 'Tropix'

Céu toma um café preto, fuma um cigarro desajeitadamente. Canta a cena na mais perfeita imperfeição. Puxa o ar, aspira ruidosamente e ainda vagarosa deixa-o sair sussurrado. Caminha melodicamente por linhas obtusas. É um canto doce e rouco capaz de alcançar agudos e graves desconcertantes, quando não se espera por eles. Assim, Céu hipnotiza. Assim, em Perfume do Invisível, Céu abre seu quarto e (por que não entregar isso logo agora?) melhor disco da carreira. Tropix desconstrói estéticas.

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Pedro Antunes,
O Estado de S. Paulo

16 Março 2016 | 13h00

A cada passo, Céu caminhava em frente, em pequenos rompimentos com o que havia estabelecido no trabalho anterior. Desta vez, ousou. Deu um salto. E aterrissou rodeada por uma bateria, um baixo e um teclado/sintetizador. Acompanhada por esse power trio torto, já que a guitarra, pedra fundamental da versão tradicional do trio, é deixada de lado, Céu perambula por caminhos nunca trilhados. Flerta com um clima noturno, na beleza da artificialidade. Despe-se do formato mais quente e orgânico, como por exemplo em Caravana Sereia Bloom, o terceiro disco, aquele no qual ela cantava o impacto da vida na estrada, em turnê, como uma espécie de road movie musical. 

Pupillo e Lucas Martins, velhos parceiros, são mantidos na bateria e baixo. E a chegada de Hervé Salters, o francês do mitológico General Eletriks, substitui o ruído por temas plácidos, sintéticos, em notas pontuadas em oposição à voz de Céu. Ela, ruidosa e em sua melhor forma, traz a aspereza e a quentura até mesmo dentro das canções mais pálidas. 

ENTREVISTA: Céu investe em timbres sintéticos em quarto disco 

São batidas, loopings e beats que pegam o ouvinte pela mão e o leva para uma dança. O ritmo é lento em quase todas as ocasiões. Arrastarte-ei é elétrica enquanto A Nave Vai, mais suingada, oferece uma batida mais sensual. Prontas para a pista. O encontro do moderno e retrô proposto por Céu neste trabalho tropical e eletrônico é entorpecido pelos timbres deliciosos de Hervé, que parece tocar com Pupillo e Martins há décadas, tamanha afinidade nas inversões e quebradas. Os três, em sinergia, “quebram” no bom sentido Rapsodia Brasilis quando a canção se aproxima do refrão – seria um salto para outra música, não fosse a sintonia musical do trio. A balada Amor Pixelado, uma das mais belas de autoria da cantora, engatinha frase a frase, melancólica, até a chegada ao verso que dá nome à música. Ali, o canto triste ganha cores. 

Céu é certeira na nova safra de composições. Quase todas são de autoria da própria. A Nave Vai e Chico Buarque Song são as exceções. A primeira é de autoria de Jorge Du Peixe, vocalista do Nação Zumbi, cada vez mais liberto da obrigação estética vinda do mangue beat. A outra é um achado. Uma canção da banda paulistana Fellini que exala lembranças oitentistas. 

Céu coloca o novo disco dela na pista. Tropix soa noturno por meio dos experimentos eletrônicos. A ausência de cores, o ritmo leve e baixo, os sussurros, a melancolia de Perfume do Invisível, Etílica/Interlúdio, Sangria e Camadas, a saudade de Varanda Suspensa e a inocência de A Menina e O Monstro, contudo, transformam o disco na melhor trilha sonora para uma madrugada pós-festa,     quando arrependimentos e alegrias vividos horas antes sobrevivem à sobriedade. Deixe Tropix tocar e Céu leva você com segurança até o sol amanhecer. 

Ouça Perfume do Invisível, primeira canção de Tropix: 

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