Hiroyuki Ito/The New York Times
Hiroyuki Ito/The New York Times

Análise: Andras Schiff 'reinventa' o recital de piano

O que o pianista quis transmitir ao público ao intercalar peças de compositores diferentes em duas grandes “suítes” de 50 minutos cada apresentadas em São Paulo?

João Marcos Coelho, Especial para O Estado de S. Paulo

26 Agosto 2017 | 12h11

O que Andras Schiff quis transmitir ao público ao intercalar peças de compositores diferentes em duas grandes “suítes” de 50 minutos cada, sem aplausos intermediários, no seu magnífico recital de quinta-feira, 24, na Sala São Paulo?

Esta pergunta deve ter passado pela cabeça de todos que lá estavam. Acentuar os contrastes entre umas e outras? Ou evidenciar as linhas de continuidade entre elas?

Nem uma coisa, nem outra. Schiff inteligentemente propôs uma nova escuta, “acordar” nossos ouvidos. Tirou-nos da letargia de ouvir as obras convencionalmente, aplaudir após cada uma delas, etc.,etc. Houve momentos, por exemplo, em que as peças se entrelaçaram. Caso da “suíte” da segunda parte, onde o final da sonata de Janacek e o início da sonata de Schumann se encadearam de tal modo que pareciam a mesma obra (por pouco tempo, é verdade). Esse tipo de sensação fez muita gente procurar o folheto do programa, e se embaralhar. Por instantes, suspendeu-se a “maldição da continuidade histórica”, denunciada pelo escritor tcheco Milan Kundera, adorador de Janacék, que estudou música com Pavel Haas, um de seus alunos.

O lance mais espetacular da proposta do pianista foi “compor” uma suíte Bach-Bartók na primeira parte. De novo, em raros instantes esfumaçou-se a distância histórica entre eles. Se Bach, no século 18, promete aos alunos que suas Invenções a 3 Vozes vão lhes fazer “adquirir um toque cantabile”, Bartók, já no século 20, busca “belezas simples  e não-românticas da música camponesa” na Suíte op. 14 e por isso mesmo pratica “um estilo mais de carne e osso”, em tudo aparentado ao Bach das invenções e do Cravo Bem Temperado. 

Mas pode-se “ouvir” a suíte de outro ângulo, saboreando o cromatismo e o modo como Bach faz dançar o contraponto enquanto Bartók quer o contrário: apagar o romântico século 19 e levar-nos, como na moderníssima música noturna da suíte Ao Ar Livre, a escutar os infinitos ruídos sub-reptícios da natureza. À maneira barroca, por que não?

Este embaralhamento de estilos e de criadores de épocas históricas distantes entre si nos faz ouvir de modo diferente. Não estamos lá mais  para reconhecer, conferir obras muito conhecidas (embora elas o sejam, isoladamente). Reinventam-se quando embaralhadas com aguda inteligência e musicalidade única. Milagre operado por Andras Schiff. É um privilégio compartilhar com ele esta reinvenção da fórmula do recital de piano.

Cotação: 5/5, excelente.

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