1. Usuário
Assine o Estadão
assine
  • Comentar
  • A+ A-
  • Imprimir
  • E-mail

Análise: Afinal, de que planeta Cartola saiu?

- Atualizado: 20 Janeiro 2016 | 21h 09

A ordem natural diria que o menino que perdeu a mãe na adolescência e que saiu de casa logo depois dificilmente seria visto entregando rosas a alguém com tamanha classe

Gênios não caem do céu. Tom Jobim deve muito ao piano que sua mãe, Dona Nilze, colocou em casa para dar aulas às crianças de seu jardim da infância particular. Vinicius de Moraes começou a ser construído na barra da saia da mãe pianista e do pai poeta. Chico Buarque usou bem os livros que o pai Sérgio Buarque de Hollanda enfileirava em sua grande biblioteca. Gilberto Gil, filho de médico, começou a ser esculpido na infância por Luiz Gonzaga e João Gilberto. Mas e Cartola? Qual a fonte do lirismo de uma criatura que abandonou a escola aos 15 anos, perdeu a mãe aos 17 e saiu de casa aos 18 por não suportar as brigas com o pai? Não está escrito no roteiro que meninos assim, criados no deserto, só podem devolver o rancor? De que planeta Cartola saiu com um buquê de rosas na mão?

Cartola e seu grande amor, Dona Zica

Cartola e seu grande amor, Dona Zica

Sua existência não é um milagre, mas a evidência do poder irrefreável de um fenômeno chamado arrebatamento. Um arrastão emocional que seus versos provocavam à revelia de suas intenções. Muitos criadores vivem escorando-se em uma linearidade emocional que jamais passa nem perto disso. Outros só conseguem fazê-lo de maneira inconstante, em um ou dois lampejos durante 30 anos. E outros, ainda, são geniais apenas para segmentos, falam só para certos registros. Cartola, não. Sua declaração de amor é pura e profunda, leiga e letrada, sutil e desesperada, daquelas que só se acalmam quando chegam às donas de casa do Morro da Mangueira da mesma forma com que atingem a alma dos alunos de Composição e Regência da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

O primeiro a perceber foi Mário Reis, nos anos 1930. Ao ter notícias do arrebatamento, mandou um emissário subir o morro com 300 mil réis para comprá-lo, sem pudores. Cartola negociou e acabou vendendo 'Que Infeliz Sorte', que acabaria sendo gravada não por Mário, mas por Francisco Alves. Um pouco depois, veio Heitor Villa-Lobos. O maestro queria Cartola em um dream team de sambistas dos anos 1940, com Donga, Pixinguinha e João da Baiana, para gravar um 78 rotações a bordo do navio Uruguai, um projeto comandado pelo maestro Leopold Stokowski. E assim foi. Depois de um tempo, Cartola sumiu. Viveu esquecido com o que tinha, até o novo arrebatamento o salvar: “Queixo-me às rosas, que bobagem / As rosas não falam / Simplesmente as rosas exalam / O perfume que roubam de ti...” E vieram então, arrebatados, Paulinho da Viola, Elza Soares, Clara Nunes, Beth Carvalho. Aos 65 anos, em 1974, Cartola lançou seu primeiro disco, com 'Tive Sim', 'O Sol Nascerá' e 'Alvorada', provocando o principal arrebatamento ao colocar o samba lado a lado com a bossa nova, na elite artística de um País. 

Comentários

Aviso: Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do Estadão.
É vetada a inserção de comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. O Estadão poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os criterios impostos neste aviso ou que estejam fora do tema proposto.

Você pode digitar 600 caracteres.

Mais em CulturaX