'Alucinação', clássico álbum de Belchior, completa 40 anos

Disco gerou dúvidas sobre seu sucesso entre pessoas da gravadora e de sua banda

Renato Vieira, O Estado de S.Paulo

08 Maio 2016 | 04h00

A edição de 10 de maio de 1976 do Jornal do Brasil destacava em sua página de programação cultural: “O cantor e compositor Belchior, ao lado de Dominguinhos e Jorge Mautner, estarão (sic) lançando seus respectivos LPs num show hoje, no Teatro João Caetano”. Belchior, 29 anos, entrou no palco ao lado de Rick Ferreira (guitarra), Liminha (baixo), Túlio Mourão (teclados) e Áureo de Souza (bateria). Casa lotada, entre convidados e aqueles que pagaram 20 cruzeiros (R$ 40, em valor atualizado) pelo ingresso. Pessoas da Phonogram, sua gravadora, e membros da banda acreditavam que o público poderia não entender aquele som misturando Bob Dylan, poesia e elementos regionais. A aclamação da plateia, ao final, foi a certeza de que sua música havia sido assimilada. 

Nesta semana, completam-se 40 anos do lançamento oficial de Alucinação, segundo álbum de Belchior, que havia acabado de chegar às lojas. O disco tornou-se um clássico instantâneo que atravessou gerações. Em dez faixas, o cearense hoje sumido relata suas angústias frente à cidade grande e o ocaso do sonho hippie, com ironia e um pouco de amargura.

Sua esperança de jovem aconteceu, mas demorou. Em 1971, ele venceu um festival da TV Tupi com Na Hora do Almoço. Conseguiu apenas gravar um compacto. Dois anos depois, veio o primeiro álbum, em que levava ao limite a experiência com a poesia concreta. Foi pouco ouvido. Quando Elis Regina colocou, no fim de 1975, Como Nossos Pais e Velha Roupa Colorida no show Falso Brilhante, a sorte virou.

Belchior encontrou apoio no produtor Marco Mazzola, que levou uma fita demo para executivos da gravadora ouvirem em uma reunião artística. “Eles não curtiram muito. Na visão de alguns, Belchior era apenas um cara narigudo, com cara de nordestino e voz nasalada. E enfatizaram que ele não ia acontecer nunca”, lembra Mazzola. 

Com a bênção de André Midani, presidente da gravadora, Mazzola armou com Belchior contrato para apenas um disco, o que era incomum. Secretamente, os dois estavam de saída da Phonogram para fundar a Warner no Brasil e queriam o artista com eles. Um outro contrato de gaveta, para três discos, renovável por mais dois, foi assinado. 

Logo músicos de estúdio experientes foram convocados, entre eles o pianista José Roberto Bertrami, também responsável pelos arranjos, Paulo César Barros, baixista de Roberto Carlos, e Rick, que havia conhecido Belchior em 1975. O disco, como a imprensa divulgou na época, iria se chamar Populus, título de uma música que acabou sendo censurada e só gravada no disco seguinte, Coração Selvagem (1977). Mazzola achou que Alucinação era um nome mais poderoso, definindo melhor a obra.

Todos os músicos, lembra Rick, eram ligados ao rock. Segundo ele, apenas o baterista Pedrinho era exceção. Durante a pré-produção do disco no estúdio Haway, Belchior lhes mostrou as músicas ao violão. “Eu adorei aquele som, com uma postura folk internacional e letras muito particulares. Mas não tinha certeza se faria sucesso no Brasil, a linguagem era inovadora e diferente do que se fazia por aqui”, diz Rick. 

Mazzola conta que as gravações foram rápidas, feitas em três dias. Entre a finalização do álbum e sua chegada às lojas, as rádios receberam cópias em fita do primeiro single, Apenas Um Rapaz Latino-Americano, “O departamento comercial da gravadora ficou enlouquecido, porque a música começou a tocar muito e o disco não estava nas lojas.” Começaram as aparições na TV, em programas populares como Silvio Santos, Globo de Ouro e Fantástico. Em entrevista ao extinto Diário Popular, em 1988, Belchior afirmou que o disco vendeu 500 mil exemplares. Ele finalmente havia se tornado um pop star.

Se sua carreira permanecesse nos trilhos, ele poderia estar na estrada interpretando o repertório de seu álbum clássico, o que se tornou uma convenção nos últimos tempos. Patti Smith fez isso com Horses. Os Titãs, com Cabeça Dinossauro. O Novo Baiano Moraes Moreira, com Acabou Chorare. Os últimos versos de Como o Diabo Gosta, faixa que encerra o lado A do LP original, parecem no entanto revelar que isso jamais ocorreria: “E a única forma que pode ser norma/É nenhuma regra ter/É nunca fazer nada que o mestre mandar/Sempre desobedecer, nunca reverenciar”.

FAIXAS

Apenas Um Rapaz Latino-Americano

Primeiro single do disco

Velha Roupa Colorida

Gravada em andamento distinto da versão de Elis Regina

Como Nossos Pais

Outra gravada por Elis

Sujeito de Sorte

'Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro’, diz o artista

Como o Diabo Gosta

Vinheta que encerra o lado A

Alucinação

Um retrato cruel da metrópole

Não Leve Flores 

O fim do sonho hippie

A Palo Seco

A música já havia sido gravada por Belchior em seu primeiro LP 

Fotografia 3x4

Canção com tom autobiográfico

Antes Do Fim

'Eu não sou perigoso, viver é que é o grande perigo', finaliza ele.

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