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Alice Caymmi segue caminho próprio no segundo álbum

Artista se apresenta neste sábado, 27, na Cidade Matarazzo, em São Paulo

Lucas Nobile, Especial para O Estado de S. Paulo

26 Setembro 2014 | 20h30

A maturidade artística chega mais cedo para alguns. É o caso de Alice Caymmi, que, aos 24 anos, lança seu segundo disco com um trunfo. Mesmo ciente da tradição de seu sobrenome, ela passa longe de ser refém dele. Portanto, cabe um aviso: se você vai ouvir este álbum com a esperança de ouvir algo na onda dos Caymmis, esteja aberto para se surpreender, pois Rainha dos Raios é um disco “fora da casinha”.

O CD, lançado pelo selo Joia Moderna nos formatos físico e digital (no SoundCloud, gratuitamente, e no iTunes), reafirma o caminho próprio que Alice mostrara anteriormente com gravações e clipes apresentados na internet.

Antes, ela já havia chamado atenção em regravações como Abandonada (Michael Sullivan), que estourou em 1996, na voz de Fafá de Belém, e Unravel, de Björk e Guy Sigsworth, que lhe rendeu elogios da própria artista islandesa. Agora, em seu novo álbum, Alice mostra personalidade ao fazer outras regravações quase parecerem canções inéditas.

“Eu vejo um vício na cultura nova, as pessoas sentam para discutir o repertório de um disco e, ao escolherem fazer uma regravação, sentem uma responsabilidade de reverenciar o autor. Esse disco é sem noção, tem muita irresponsabilidade. Eu não quero respeitar a obra de ninguém, quero reverenciar as pessoas, os indivíduos”, diz a cantora.

No balaio das regravações, novamente ponto para Alice ao selecionar um repertório sem preconceitos e escolher canções que vão de Caetano Veloso e Maysa a Tono e MC Marcinho. Caetano é o nome que mais aparece entre os compositores, em três faixas de sua autoria: Iansã (parceria com Gilberto Gil lançada em 1972 por Maria Bethânia, ganhou versão de Alice em 2013 e se tornou o ponto de partida para o álbum, com o verso que batiza este disco), Jasper, parceria de Caetano com Arto Lindsay e Peter Sherer, e Homem, que, interpretada por uma mulher, tira o ouvinte do lugar-comum em um debate sobre questões comportamentais de gênero.

“O Caetano é uma influência na minha vida. O que me move não é a poesia ou o virtuosismo de um compositor, eu reverencio a atitude e o comportamento dele”, comenta Alice.

Ainda entre as regravações, Meu Mundo Caiu, lançada em 1958 por Maysa (1936-1977), parece ter sido feita sob medida para o estilo “rasga coração” de Alice. Nos anos 1950, Maysa casou-se com o empresário André Matarazzo, de família de origem italiana e que se tornou poderosa e tradicional no Brasil. Por coincidência, o show de lançamento de Rainha dos Raios em São Paulo acontece neste sábado, 27, na Cidade Matarazzo, onde a performática Alice se apresenta dentro da instalação do artista plástico Douglas White.

O repertório traz ainda Sou Rebelde, versão de Paulo Coelho para Soy Rebelde (de Manuel Alejandro e Ana Magdalena), conhecida no Brasil em 1978 na voz de Lilian, da dupla Leno & Lilian, e o funk Princesa, de MC Marcinho. “Acho funk melody do caramba. Marcinho é um baita melodista, sem pretensão poética. Esse tipo de pretensão me irrita e entedia a todos”, diz a cantora.

Destaque também para Como Vês (Bruno Di Lullo e Domenico Lancellotti), gravada anteriormente pelo grupo Tono. “Essa música poderia ter sido feita em qualquer época, e tem uma visão masculina bem coerente sobre o universo feminino. E ela tem muito diálogo com a Maysa, por exemplo, aquela coisa de a culpa é sua, vou matar seu filho, meio Medeia. Esse disco é todo bipolar, tudo maluco”, comenta a artista.

Além das regravações, o disco produzido de maneira criativa pelo também jovem Diogo Strausz (com muitas referências eletrônicas, do pop japonês e de trilhas tarantinescas) tem duas composições de Alice: a valsa pós-moderna Antes de Tudo e a balada Meu Recado, feita em parceria com o hitmaker Michael Sullivan.

“Não sei explicar o que aconteceu entre a gente, foi uma empatia imediata. Quando a gente foi compor, ele me perguntou o que eu queria. Disse que algo meio Tim Maia, meio black, para chorar dançando. Ele é impressionante, puxou aquela junkebox na cabeça e em 15 minutos fizemos letra e música. Devo muita coisa a ele, que me ajudou muito, não no sentido da minha carreira, mas como pessoa, ele é muito generoso”, completa Alice.

ALICE CAYMMI – RAINHA DOS RAIOS
Cidade Matarazzo. Alameda Rio Claro, 190. Sábado, às 16 horas. Grátis.
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