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Adeptos da fita cassete falam sobre a nostalgia do formato analógico

Fã tem mais de 800 peças em sua casa

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João Paulo Carvalho,
O Estado de S.Paulo

05 Março 2016 | 05h00

No canto superior esquerdo da loja, algumas caixinhas coloridas chamam a atenção de quem entra no estabelecimento de Paulo Sokol, 43. Beatles, Rolling Stones, AC/DC, Metallica, Alice Cooper, Nirvana e Pearl Jam: muitos são os clássicos em fita cassete. O estabelecimento, localizado na Galeria Nova Barão, região central de São Paulo, tornou-se um ponto de encontro para quem coleciona tapes. Algo raro em tempos de música por streaming. “Comecei vendendo por acaso. Pendurei algumas na parede só para enfeitar o lugar e deixá-lo com uma cara mais legal. Hoje posso dizer com toda a tranquilidade do mundo que vendo mais fitas do que CDs, por exemplo”, afirma.

Paulo não sabe ao certo quantas fitas têm no local, mas as de rock são as que mais saem. Segundo ele, diversas relíquias já passaram por suas mãos, incluindo uma coleção do Iron Maiden. “Uma vez, vendi a coletânea completa do Bruce Dickinson e companhia por R$ 1500. Eram 10 fitas no total. Foi instantâneo”, conta.

Na semana da morte do camaleão do rock David Bowie, no dia 11 de janeiro deste ano, Paulo sentiu que tinha algo raro e inusitado nas mãos. “Vendi todas as fitas que tinha do Bowie. Não sobrou nada. De Let’s Dance a Ziggy Stardust. O pessoal ficou afoito quando viu as fitinhas penduradas aqui. Consegui um valor legal”, lembra. O dono da loja afirma que vende, em média, 50 itens por mês.

Além de comercializar as fitas, Paulo também é colecionador. Tem, aproximadamente, 200 fitas. Algumas delas ele não cogita colocar à venda. “Essa do Bowie, por exemplo (Let's Dance) é única. Jamais venderia. Faz parte da minha coleção. Questionado sobre o chiado e a falta de qualidade, Paulo é direto: “Depende do aparelho que você tem. Algo específico já ajuda. Ouve só isso”, diz, apontando para o aparelho com Five Years, música que abre o álbum The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars (1972), ao fundo. “Parece fita cassete? E olha que o cabeçote está um pouco sujo. Nada que uma limpadinha não resolva”, conclui.

O rei do cassete. O cliente mais fiel da loja de Paulo é Nelson Oliveira Viana Junior, 36. O estudante de letras tem 800 fitas em sua residência, na Vila Jaguara, extremo oeste da capital. Todos os cassetes são milimetricamente colocados em ordem alfabética. De Alice Cooper a Yes. “Não deixo ninguém mexer”, brinca. Junior, como gosta de ser chamado, coleciona fitas desde a adolescência. “Limpo todas elas com frequência. Muita gente diz que estraga, mas, na verdade, basta colocá-las para tocar com regularidade. O problema é que junta pó e pode estragar rapidinho. Lugares quentes também não adequados para elas.

Junior conta que já passou por muitas dificuldades para conseguir aumentar sua coleção. “Lembro que há mais ou menos 15 anos estava em um brechó e vi um novo lote de fitas chegar. Tinha várias coisas do Guns N’ Roses, minha banda favorita. Estava com o dinheiro certinho para comprar passes de ônibus. Resolvi abrir mão da passagem para levar aquilo para casa. Havia no lote umas 500 fitas. O dono me vendeu até mais barato só para se livrar daquelas bugigangas todas”, brinca. “Eu acabei herdando muita coisas dos meus amigos. Com a chegada do CD, eles queriam jogar tudo fora. Comprei coisas a preço de banana”, complementa.

Adepto do formato analógico, Junior afirma que não costuma baixar música ou ouvi-la por streaming. Para ele, os métodos convencionais analógicos dão um toque de qualidade ao som e o digital acaba roubando a essência. “Muitos amigos do bairro fazem duras críticas a mim. Eles falam que parei no tempo e que a fita cassete é algo do século passado. Eu não me importo muito, na verdade. Penso que o som digital não é algo verdadeiro. Não gosto. É tudo muito diferente”, afirma.

Para conservar a fita cassete

1. As fitas devem ficar guardadas em lugares frescos, arejados e longe da umidade e da poeira. Altas temperaturas podem danificar para sempre os pequenos objetos.

2.Evite que as fitas sofram quedas e choques bruscos. Os danos podem ser irreversíveis para as caixinhas.

3.Guarde as fitas na posição horizontal para que, com o tempo, o rolo não fique apoiado em um dos lados do carretel.

4. Não deixe as fitas perto de alto-falantes e televisores. Os ímãs desses equipamentos podem afetar diretamente a gravação. Há casos de fitas que se desmagnetizam.

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