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Acampamento para garotas reúne rock, feminismo e até aulas de defesa pessoal

Girls Rock Camp, em Sorocaba, SP, chega à sua quarta edição

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João Paulo Carvalho,
O Estado de S.Paulo

18 Janeiro 2016 | 03h00

SOROCABA - As mãos da pequenina Agatha mal conseguem segurar as baquetas. Os dois artefatos de madeira parecem grandes e desconfortáveis para ela, mas a garota não desiste. Flexiona os braços e, levemente, consegue prender os dedos no objeto. Canhota, questiona por que sua bateria está do “lado errado”. “Só a minha é diferente?”, pergunta com a voz um pouco trêmula. “É que você usa melhor a mão esquerda”, diz a instrutora. A garota de 7 anos é apenas uma das 60 meninas matriculadas no Girls Rock Camp, em Sorocaba, no interior de São Paulo. O projeto, que neste ano chega à sua quarta edição, é uma espécie de acampamento de verão para garotas de 7 a 17 anos. Lá as meninas se reúnem para aprender um instrumento de sua escolha (guitarra, baixo, bateria, teclado ou voz), formar uma banda e, posteriormente, compor uma música para apresentá-la em um show ao vivo. 

As aulas práticas de cada instrumento são realizadas no período da manhã. À tarde, depois do almoço, todas as garotas ensaiam com suas bandas ja formadas. Os grupos são estruturados no primeiro dia de aula, levando em consideração as afinidades musicais de cada uma delas. São 10 conjuntos de 6 meninas (vocalista, duas guitarristas, baixista, tecladista e baterista). Quem se matricula no acampamento também pode assistir a oficinas de defesa pessoal, produção de fanzines e composição musical. “O rock não é só música, mas atitude. Por isso, as aulas são intercaladas com atividades extras. Elas aprendem a ter responsabilidade, respeitar a opinião da maioria e ter uma verdadeira concepção do que é trabalhar em grupo”, explica a socióloga, guitarrista e diretora do Girls Rock Camp, Flavia Biggs.

Segundo Flavia, o projeto não é de inclusão social, mas de transformação. “Nosso objetivo não é formar musicistas. Ninguém aprende a tocar o instrumento em cinco dias, mas elas conseguem, por exemplo, compor uma música e tocá-la. A gente, na verdade, desmistifica a guitarra, a bateria, o baixo e o teclado. É um estímulo para que elas possam se aperfeiçoar. Fornecemos o primeiro contato por intermédio da prática. Isso levanta a autoestima e muitas garotas chegam em casa, depois do primeiro dia de aula, já sabendo fazer duas ou três notas.”

A diretora se inspirou no Girls Rock Camp norte-americano, criado em 2001. Ela, que conheceu o projeto em 2003, depois de fazer uma turnê com a sua banda pelos Estados Unidos, trouxe o modelo para o Brasil 10 anos depois, em 2013. Nos EUA, Flavia foi instrutora de guitarra e produtora musical. “Nosso objetivo é incitar a autoestima e o protagonismo das mulheres na sociedade. Queremos desenvolver cidadãs ativas e politizadas. Passar por essa experiência já é algo importante, mesmo que muitas daqui não se envolvam com música e escolham outras profissões num futuro não muito distante. O intuito do projeto, portanto, é empoderar meninas por intermédio da música”, complementa.

As gêmeas Isabelle Geffer (bateria) e Yasmin Geffer (baixo), de 14 anos, participam do Girls Rock Camp pelo quarto ano seguido. Foi lá que elas aprenderam as primeiras notas e, conseguiriam, enfim, formar uma banda para tocar músicas de artistas como Paramore, Kings of Leon, Guns N’ Roses e Kiss. O rock sempre foi o gênero favorito delas. “A gente gosta sempre de vir. Desta forma podemos conhecer mais gente, dividir experiências e compartilhar coisas legais”, diz Isabelle. “Depois do primeiro ano a gente conseguiu formar uma banda de verdade. Tocamos juntas até hoje. A vocalista e a guitarrista também já participaram do acampamento e ainda tocam com a gente”, complementa Yasmin.

Voluntárias. O Girls Rock Camp já contou com a participação de 240 meninas em quatro anos de existência. Os instrumentos foram doados ou emprestados por colaboradores. O projeto é parcialmente bancado pelas inscrições das participantes (R$ 250 por matrícula), sendo que dez garotas ganham bolsa integral por serem estudantes da rede municipal ou estadual de ensino. 

Todas as instrutoras do projeto são voluntárias e recebem apenas hospedagem e alimentação. Muitas delas, inclusive, acabam emprestando seus próprios instrumentos para as garotas. “No ano passado, mais de 180 mulheres de todos os lugares do mundo se inscreveram no Girls Rock Camp. Selecionamos 60 delas. Nossa vontade é recrutar mais gente, pois há uma infinidade de mulheres maravilhosas que enviaram currículo. A estrutura, no entanto, ainda é pequena. Neste ano tem gente dos Estados Unidos, da Argentina e de várias regiões do Brasil. No geral, são mulheres envolvidas com música e movimentos sociais. Também temos uma equipe voluntária de produção audiovisual para registrar tudo isso”, afirma Flavia. 

O Girls Rock Camp não tem um lugar físico permanente. Neste ano, o evento é realizado no Centro Estadual de Educação de Jovens e Adultos (CEEJA), de Sorocaba, onde Flavia leciona aulas de Sociologia. A escola cedeu o espaço sem cobrar nada por isso. As inscrições para o evento deste ano se encerraram rapidamente e ainda sobrou uma fila de espera. “Não existe um critério para ficar com a vaga. Tudo é feito por ordem de chegada. As inscrições são sempre abertas no ano anterior pelo nosso site”, complementa Flavia.

Como funciona o acampamento

Durante uma semana de acampamento, realizado neste ano entre os dias 11 e 16 de janeiro, no Centro Estadual de Educação de Jovens e Adultos (CEEJA), de Sorocaba, 60 garotas de 7 a 17 anos têm aulas de guitarra, baixo, bateria, teclado ou voz. As meninas são divididas em 10 bandas e já começam os ensaios no primeiro dia de aula. Elas precisam compor uma música em inglês ou português e apresentá-la ao vivo. O projeto nasceu há 13 anos em Portland, nos Estados Unidos, mas, atualmente, já é realizado em 50 países. O Brasil é o primeiro no modelo na América Latina.

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