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'A Portrait of Oscar Wilde' sai em edição de luxo

Antonio Gonçalves Filho - O Estado de S. Paulo

06 Novembro 2010 | 06h 00

Primorosos 525 exemplares foram costurados manualmente, com fac-símiles de manuscritos do autor irlandês

A ideia de que a "arte é inútil" não nasceu exatamente com o escritor irlandês Oscar Wilde (1854-1900), mas foi ele quem, no prefácio de seu único romance, O Retrato de Dorian Gray, deixou registrada a frase que provocou enorme desconforto entre seus leitores, um deles aluno de Oxford. Em abril de 1891, Bernulf Clegg lhe escreveu uma carta perguntando em que outro livro havia desenvolvido essa teoria sobre a inutilidade da arte. Wilde respondeu de modo enviesado ao missivista, afirmando que a arte é inútil porque não foi feita para instruir ou motivar ações. Sua natureza seria soberbamente estéril, conclui Wilde. O manuscrito dessa carta é uma das preciosidades incluídas no magnífico A Portrait of Oscar Wilde, que será lançado na quarta-feira, a partir das 20h, na galeria AGain (Rua Alagoas, 651, Higienópolis), de Attilio Baschera e Gregorio Kramer, amigos de Lúcia Moreira Salles - responsável pela edição da obra, em inglês, de tiragem limitada e numerada de 525 exemplares, dos quais 280 estarão à venda por R$ 1 mil.

A patrocinadora do livro, terceira mulher do banqueiro e diplomata Walther Moreira Salles, viveu até 2009 para assinar cada um dos volumes. A renda proveniente da comercialização será revertida para o projeto Brasileirinho da ONG Riovoluntario ((www.riovoluntario.org.br), da qual era a principal mantenedora. Cada exemplar terá o nome do comprador catalogado pela instituição norte-americana Morgan Library & Museum, proprietária de vários manuscritos de Oscar Wilde (inclusive de O Retrato de Dorian Gray), para a qual Lúcia doou os originais de poemas, contos e cartas do escritor pertencentes a ela e ao marido, que tinham uma coleção de manuscritos (leia texto a respeito na página seguinte).

O único neto vivo de Oscar Wilde, Merlin Holland, ao ser convidado por Lúcia para escrever sobre essa raridade destinada a bibliófilos, sabia se tratar de uma edição fac-similar de luxo, mas atenta aos detalhes. "Sinto que ele aprovaria a publicação", diz Holland no prefácio. "Mais que um volume útil, o livro aspira ao reconhecimento de um belo objeto", conclui, referindo-se com ironia à frase sobre a inutilidade da arte cunhada pelo avô esteta.

De fato, Holland, descendente de Vyvyan Holland, segundo filho de Wilde, tem consciência de que os manuscritos doados à Morgan não são só peças históricas, mas textos úteis para analisar suas escolhas estéticas e sintáticas. Cortes feitos pelo escritor nos originais de poemas e de contos são reveladores o suficiente para desacreditar essa sua crença na esterilidade da arte. A Wildeana da Morgan ganhou, ao contrário, um testemunho de sua fertilidade.

Desconcertantes fragmentos poéticos revelam, por exemplo, que Wilde se dedicava em Oxford não apenas a traduzir os clássicos gregos, mas a experiências sexuais nem sempre gratificantes. Os manuscritos do poema La Dame Jaune (1889), por exemplo, conta uma delas, o encontro com uma prostituta que lhe transmitiu sífilis. O episódio é confirmado na melhor biografia do escritor, a de Richard Ellmann, que comenta as afinidades de Wilde não só com os amigos religiosos como com a Grécia pagã. Ellmann mostra um Wilde dividido entre a conversão ao catolicismo e o chamado à lascívia, destacando como o escritor foi capaz de sair de uma audiência com o papa Pio IX direto para o túmulo do romântico e boêmio John Keats (1795-1821), compondo em seguida um subversivo poema herético em que compara o poeta morto "ao mártir e belo" São Sebastião. Entre a pureza e a autorrealização, Wilde ficou com a última. A Roma papal, observa Ellmann, perdeu para a pagã. É isso que a composição poética monocromática La Dame Jaune (A Dama Amarela) copia de Keats, cujo Sonet on Blue, observa Holland, influenciou seu avô mais do que talvez o desejasse. De fato, assim como Keats, que usa a cor azul para identificar os olhos da amada, Wilde usa a cor amarela para associar a dama de cabelos finos (a prostituta) à decadência, a filetes de ouro de um copo veneziano.

Os fragmentos poéticos constituem a segunda parte de A Portrait of Oscar Wilde. Na primeira, Roses and Rue, a presença de Keats é ainda mais flagrante. Trata-se de um poema escrito quando Wilde já estava fora de Oxford, em 1885. Ele conhece a amante do príncipe de Gales, a bela Lillie Langstry, seu passaporte para o mundo aristocrático, e convence a amiga a ser atriz - além de mostrar a ela como sua cama era confortável (mais um dos casos heterossexuais de um escritor identificado exclusivamente como gay). Publicado em 1885, quando Wilde já estava casado e com o primeiro filho (Cyryl) no colo, Roses and Rue teve o título alterado para Midsummer Dreams, tentativa vã de não dar crédito aos versos de Swindburne que também o inspiraram. É um poema com "versos ruins, mas sentimentos legítimos", como bem definiu seu biógrafo Richard Ellmann.

Nem todos os poemas cujos manuscritos originais estão no livro são, de fato, bons e Under the Balcony não está entre os melhores. Escrito um ano antes de Roses and Rue, certamente pertence ao segmento de textos românticos em que a lua, o mar e os passarinhos são protagonistas. Wilde, recém-casado e em plena lua de mel, fez o poema para um festival shakespeariano de caridade no Royal Albert Hall.

Amigos não perderam a oportunidade de parodiar seus versos, especialmente Robert Hichens (1864-1950) na escandalosa novela The Green Carnation, retirada de circulação em 1895. Nela, ele elege dois personagens, o dândi Esmé e seu lorde Reginaldo, que são, na verdade, Wilde e seu amante lorde Alfred Douglas. O livro acabaria sendo usado no julgamento do escritor, condenado a dois anos de trabalhos forçados por obscenidade e sodomia (a prática homossexual era considerada criminosa na Inglaterra).

O quarto capítulo do livro, que traz o manuscrito de O Gigante Egoísta, surpreende por ter não a letra de Wilde, mas de sua mulher Constance - e, dizem, não só a letra, mas passagens do alegórico conto, que lida com temas cristãos. O neto Merlin Holland afirma que seu pai Vyvyan nunca ouviu o avô Oscar contar para ele tal história. Isso descarta a versão oficial de que O Gigante Egoísta tenha sido escrito para crianças ou especialmente para os filhos de Wilde. Considerando o tema, é de fato um conto extremamente simbólico, em que o tal gigante do título impede crianças de brincar em seu jardim, sofrendo como consequência o rigor de um interminável inverno, até que os pequenos voltam sorrateiramente e trazem com eles a primavera, comovendo-o a ponto de ajudar o menor deles a subir numa árvore. Prestes a morrer, ele reencontra o garoto, então com chagas nas mãos e nos pés, pronto a levar o gigante ao Paraíso. Na manhã seguinte, as outras crianças o encontram morto, todo coberto de flores brancas.

Conto moral. Há, segundo o neto de Wilde, poucas correções no manuscrito original, mas ele acredita firmemente que a avó Constance colocou a mão no "conto moral" do avô, publicado em O Príncipe Feliz e Outras Histórias. Merlin Holland observa que ele representa o fim do primeiro período de criação do escritor - Wilde produziu em tempo relativamente curto (de 1887 a 1895) e teria, segundo o neto, desenvolvido o tema infantil pensando no contexto de uma Irlanda de latifundiários opressores e hostis à reforma agrária. Nunca é demais lembrar que Wilde defendia ideais socialistas, a despeito de seu dandismo e pompa aristocrática.

Entre os manuscritos das cartas enviadas por Oscar Wilde a amigos e amantes, duas se destacam no livro: na primeira delas, endereçada a George Herbert Kersley, o escritor convida o poeta para tomar chá, em 1888; a segunda é uma das raras cartas a lorde Alfred Douglas que sobreviveram - como a prática homossexual era crime, muitos chantagistas usavam esses documentos para conseguir dinheiro, inclusive do amante de Wilde, que, em 1892, teria escrito a ele pedindo ajuda para pagar os vigaristas. Sobre a carta do obscuro poeta George Herbert, o neto diz que o avô tinha atração por rapazes bonitos e que ele pertence a uma das "muitas áreas cinzentas" na vida de Oscar Wilde, separando os meninos em três categorias: os casos de longa duração, como Douglas, os garotos de programa e os jovens com pretensões a poeta, como George, que acabou casando com a filha de um capitão do Exército inglês.

A última parte do livro tem cinco dos seis poemas em prosa escritos em Paris no ano mais produtivo de Wilde, 1891, quando publicou romance O Retrato de Dorian Gray e o livro de contos O Crime de Lorde Saville. Um dos poemas em prosa, A Casa do Julgamento, reproduzido no último, expressa a crítica impiedosa que Wilde faz à sociedade londrina por meio de uma parábola sobre o encontro de Deus com um pecador. Condenado ao inferno, ele desdenha do Criador, dizendo que isso não era novidade para ele, acostumado à vida terrena. Liberado para o céu, ele ironiza novamente o supremo juiz, dizendo que seria incapaz de imaginar um lugar como esse. Wilde, convertido à beira da morte, deixou um último poema em prosa soberbo, O Mestre da Sabedoria, sobre um eremita que tenta transmitir o conhecimento de Deus a um ladrão de caravanas. Infelizmente, o manuscrito não faz parte do volume que será lançado na próxima semana, mas a versão impressa foi incluída. Um fecho de ouro.

A Portrait of Oscar Wilde

Edição: Lúcia Moreira Salles, Juan Pablo Queiroz

Prefácio: Merlin Holland

(185 págs., R$ 1 mil)

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