A memória de 700 anos de D. Militana

Dona Militana nasceu, como diz, na era de 19 de março de 1925. Mais velha de nove irmãs, foi cedo para a roça, com o pai, que cantava enquanto trabalhava a terra. A filha não podia cantar. Nem vestir roupa bonita. Muito menos ir a festa. Era missa e roçado. Aprendeu os cantos, que jamais repetiu. No início dos anos 90, o estudioso de cultura popular do Rio Grande do Norte Deífilo Gurgel a encontrou, no Sítio Oiteiro, em São Gonçalo do Amarante, no interior potiguar. Passou a tê-la como fonte de consulta, quando tinha dúvidas sobre certos cantares em que mais de uma versão se apresentava, ou quando tinha notícia de algum canto de existência sabida, mas forma desconhecida. Há cerca de quatro anos, outro estudioso - o poeta e produtor cultural Dácio Galvão - foi até o Oiteiro, onde mora Dona Militana, numa casa de taipa, em torno da qual se erguem outras casas quase iguais, ocupadas por algumas das filhas (que lhe deram 68 netos e 26 bisnetos já nascidos, mais 3 que, conta a matriarca, estão chegando). Dácio percebeu que Dona Militana não era fonte de consulta: seria, antes, objeto de estudo. Dona Militana canta romances. Histórias centenárias, sobre reis e princesas, duques e plebéias, com cenário em Roma, Milão (ou "Milhão", como ela pronuncia), Bruxelas, monarcas turcos e suas filhas - histórias terríveis, romances de amor e morte, de ciúmes e vinganças mantidas, por algum motivo, a ser descoberto, num formato muito próximo ao da origem, os cantadores medievais da península ibérica. Estudos medievais - É nítida, sabida e muito estudada a presença ibérica na cultura popular nordestina (não só nela, mas nela mantida em forma mais visível) - no canto dos repentistas, no enredo das festas. Há autores que dedicam a obra a reconstituir a forma original das histórias, formas melódicas e harmônicas de tal conhecimento secular - o mais importante deles é o baiano Elomar Figueira de Melo. Dona Militana não precisou recriar nada. Ela sabe, de memória, como as coisas eram há 500, 600, 700 anos. Uma parte dessa impressionante sabedoria está contida nas 54 faixas do CD triplo Cantares de Dona Militana, editado pela potiguar Fundação Hélio Galvão em parceria com o Scriptorium Candinha Bezerra (preço sugerido: R$ 50,00). O álbum é o 12.º título fonográfico do Projeto Nação Potiguar (e-mail projeto@nacaopotiguar.com.br, site www.proj-nacaopotiguar.com.br, tel. 0--81-211-8241), que, além de discos, edita livros e promove ciclos de estudos sobre a cultura popular da terra. Dona Militana Salustrina do Nascimento esteve em São Paulo, no último fim de semana, e participou do show Lunário Perpétuo, de Antonio Nóbrega. Já havia estado aqui, antes, como já foi levada a outras capitais para participar de debates sobre cultura popular (em Sergipe, em 1999, foi figura central da 4.ª Jornada de Estudos Medievais, que tinha como tema a presença de Carlos Magno na América). Ela mesma, naturalmente, não participa dos debates. Ela é o centro da discussão. "Quando pegou o microfone pela primeira vez, Dona Militana levou dez minutos até conseguir cantar", lembra Nóbrega. O palco não é o mundo dela. "A senhora gostou de vir a São Paulo, Dona Militana?" - e, sentada numa sala por trás do palco do Sesc Pompéia, onde cantaria alguns minutos depois, ela consultou a filha, soube que eram sete horas, ajeitou o cachecol e respondeu: "Tô feliz nada. Se eu estivesse na minha casa, já tinha fumado meu cachimbo e estava dormindo." Em seguida, em cena, desobedeceu ao roteiro. Cantou o que quis, do jeito que quis. De sua nobreza, intuitivamente, sabe muito bem. "Cheia de panos" _ Mesmo que nos últimos anos tenha sido levada para longe de casa, cantando para estudiosos, Dona Militana não está acostumada com gente que não seja a sua - a família, que mora em volta - e ambientes estranhos. "Vou embora", diz, um pouco antes da hora de subir ao palco do Sesc Pompéia, em São Paulo. "Não tenho nada para fazer lá" - ela não fica à vontade no palco. Não gosta da roupa em que a embrulharam - o vestido florido é bonito, mas o casaco comprido, não, atrapalha os movimentos, assim como o cachecol, necessário no frio, incomoda. "Estou cheia de panos", queixa-se. Na família grande, ninguém, que saiba, herdou sua memória. Ela, aliás, não cantava para embalar as filhas ou os netos, não canta para embalar os bisnetos. Trabalha na roça, fuma o cachimbo, cuida da casa. Só trabalho - Nada de coisas sentimentais, a imagem da vovó que conta histórias. Dona Militana não é uma contadora de histórias. Nem sabia que sabia tantas histórias, até que Deífilo Gurgel a encontrou. "Não fui acostumada a cantar", diz. "Minha vida era só trabalho." Sete horas da noite é horário tardio. "Quando trabalhava com meu pai, dependendo da distância do roçado, tinha dia de acordar às 2 da manhã", lembra. "No domingo andava cedo até a igreja e depois voltava para a roça." Responsabilidades vieram muito cedo. Lembra do encargo, quando tinha por volta de 8 ou 9 anos, de cuidar para que o gado não pisasse na plantação de feijão. Pois a vaca foi lá e ia comendo o feijão quando ela chegou. "Ia ser uma sova das grandes se o pai soubesse" - Dona Militana dá uma rara risada, virando o rosto de lado, quando lembra do episódio. O riso é sempre pouco. O olhar é enviesado, desconfiado. No palco, ela cruza os pés, não as pernas, põe a mão em concha na parte mais alta do nariz - está puxando pela memória. Os cantos que repete, ouviu-os há mais de 60 anos. Por força de obediência ao pai, não os repetia. Apenas não os esqueceu. E por que não os esqueceu? "Sei lá, lembrei por causa do Grujel" - está falando de Deífilo Gurgel, que começou a ir à sua casa e puxar pela memória. Métrica peculiar - Para gravar os Cantares de Dona Militana, o idealizador do projeto, diretor artístico e de produção do álbum, Dácio Galvão, tentou deixá-la ao máximo à vontade. No estúdio, que cantasse. O canto não é gratuito: tem a serventia de ajudar a memorizar os enredos. Só depois de Dona Militana haver gravado os 54 números que estão no disco é que os registros foram entregues a alguns músicos, para que dessem às faixas um acabamento. Um desses músicos foi o compositor e violonista baiano Gereba. Coube a ele, como aos outros participantes, respeitar a métrica muito peculiar do canto de Dona Militana. "O violão entrou só para realçar algum aspecto melódico, mas a serviço da música dela", diz. Nos romances, ou cantares, sempre quaternários, de Dona Militana, a contagem do tempo (a lógica dos compassos) nem sempre é canônica. Nada foi corrigido. Os instrumentos não foram acrescentados a todos os romances cantados. E, dependendo das características de cada um, o instrumento que surge, quando surge, pode ser tipicamente nordestino e da cultura popular - a rabeca de Mestre Salustiano e Eusébio Macambira, a viola de cocho de Roberto Corrêa, a sanfona de Waldonis, o violão de João Omar - ou, se a tônica melódica remete à música medieval, o cravo de Dolores Portela, o violino de Osvaldo D´Amore, o fagote de Péricles Johnson - para mencionar alguns dos participantes. "O canto em primeiro lugar e a instrumentação respeitando seu ritmo e variações de tons", escreve Dácio Galvão, no texto de apresentação do álbum. Os CDs vêm encartados num livro de 112 páginas, com transcrição de todas as letras e partitura de cada uma delas, além de galeria de fotos de Candinha Bezerra. As transcrições musicais e orais foram entregues a especialistas. A cravista Dolores Portela encarregou-se da musical. Ela explica que ouviu seguidas vezes cada música, até selecionar uma melodia constante - a mais constante - para poder enquadrá-la nas normas acadêmicas da grafia musical. Pronúncia oclusa - José Wilson Pereira de Azevedo e Marília Cabral de Azevedo ficaram com o encargo das transcrições orais. Cuidaram de reproduzir da maneira mais fiel possível a oralidade, e tiveram algumas dificuldades. Um bom exemplo foi entender - para grafar - a frase "Brada fon´ ter´ ri´ e mare", do refrão de Sirino. Depois de grafado, talvez pareça simples, mas a frase, cantada, na pronúncia oclusa (a voz é sempre forte, mas não é projetada, como no canto urbano tradicional), apresentou-se problemática. Resultou em ser "Bradam fonte, terra, rio e mar." Os cantares reúnem gêneros diversos da tradição popular - romances, xácaras, modinhas, toadas de boi, cocos, romarias, desafios, jornadas - "uma refinada cepa musical resultante da mistura de culturas afro-moura-ibérica transplantadas para o Nordeste, onde adquiriu (a cepa) sotaque e características próprias", no dizer de Dácio Galvão, que põe Dona Militana no plano da Pastora Pavón, perpetuada por García Lorca. E compara, ainda, e isso é mais importante, sua descoberta à da violeira Helena Meirelles e à da jongueira Clementina de Jesus, todas pelo menos sexagenárias e detentoras de saberes que o tempo por pouco não encobre. O tesouro que representa a revelação de Dona Militana permite o melhor entendimento da nossa formação cultural. "Romance de Alzira" - Leia abaixo uma das histórias cantadas por Dona Militana, "Romance de Alzira". Alzir´ era uma condessa Filha de um Conde Aragão Derna de muita criança Que tem um bom coração Coisa que em casa não via Dá-lhe a ela ´ducação Quand´ Alzir´ enterô ano Seu padrim presenteô Uma caba de brocates Que muito acro custô Alzira pegô a capa Com muito gosto guardô Primeira vez que butô Foi à missão de São Pedro Quando vei de lá pra cá uma criancinh´ achô Tava gélida de frio E trespassada de dô Alzira tirô a cap´ E a criancin´ imbrulhô Aantes de chegá em casa A criancinha morreu Ela chamô o criado - Conduza ess´ inucente Vã na casa mortuáli E faç´ um enterro decente Alzira foi à missa Do que Agripino viu ela Enloquiceu de paxão Alzira entristeu de repente O cumo tivesse tado Dois ô três mese doente Alzira sonhô um sonho Que o pai lhe obrigava A ela beber fé Dend´ uma tace de ôro Dizendo - Beba qu´ é mel Dend´ uma tace de ôro Dizendo - Beba qu´ é mel Alzira contô o pai O sonho que tinha tido O velho disse - Alzira ´Sé ilusão do sentido Alzira disse - Meu pai Eu fico superendida Alzira entô pra dento Abriu o seu santuaro Juelhô-se foi rezá Adiante decê-lhe um anjo Dê-lhe següinte recado Enviado pro Jesus - Deus do céu mandô dizê Que aceitasse o casamento Com´ elh´ aceitô a cruz Adiante vinha-te treva E atrás mandava-te a luz Alzira disse - Meu pai Aceito meu sufrimento

Agencia Estado,

19 Julho 2002 | 16h47

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